Escolhas estúpidas

“A Primeira Lei Fundamental da estupidez humana assevera sem qualquer grau de ambiguidade que: sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos em circulação.”

Monica de Bolle*, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2016 | 05h00

Carlo M. Cipolla, “As Cinco Leis da Estupidez Humana”

Sempre que fico assoberbada pelas tolices a que somos submetidos, incansavelmente, recorro ao delicioso livrinho de Cipolla. Afinal, tudo acontece por um motivo, mas muitas vezes o motivo é a mais pura estupidez, a total incapacidade de fazer boas escolhas.

Pensaram no Ministério que cai de Michel Temer, governo transitório, governo-trans, doença coronariana aguda à vista? Consideraram a possibilidade, ainda baixa, porém não negligenciável, de que Dilma seja absolvida em meio aos áudios comprometedores que envolvem ministros-políticos e a alma do PMDB? Pois enquadrem tais possibilidades na lei acima. Enquanto isso, hei de discorrer sobre ao menos uma escolha estúpida que assombra o mundo.

No dia 23 de junho, os britânicos haverão de escolher se querem ou não a permanência do Reino Unido na União Europeia. O debate, que nada tem de novo, ganhou ímpeto temerário desde o agravamento da crise migratória na Europa, ante a falta de estratégia clara que os políticos do “continente” têm revelado não só para resolver esse, como para atenuar outros problemas da região. A Grécia é a eterna obviedade, mas não se trata só da Grécia. A demora para avançar na necessária união bancária, com a imposição de regras e regulações que não agradam a Inglaterra, cujo PIB ainda é muito dependente dos serviços financeiros, apesar dos abalos sofridos pela crise financeira internacional, é outra razão para o descontentamento. Há percepção crescente entre os britânicos de que a Europa é mais fardo do que benefício, mesmo com os esforços do primeiro-ministro David Cameron, e do agora aliado inusitado Sadiq Khan, prefeito de Londres e membro do Labour Party – o muçulmano recém-eleito que surpreendeu o mundo – de contrapor tal visão.

O que está em jogo caso a Inglaterra saia da União Europeia? Por certo, a solidez da atividade e do mercado de trabalho. Movimentos contrários à integração – ou, a desintegração – não tendem a trazer benefícios. O que antes se fazia com facilidade – o comércio com a Europa, por exemplo – ficará mais complicado, afetando a recuperação do Reino Unido, repercutindo no mercado de trabalho.

Haverá sentimento crescente de que a Inglaterra é ambiente mais arriscado, aumentando a volatilidade dos mercados, como já se vê nos spreads de juros e no câmbio. No fim, é provável que o Banco da Inglaterra tenha de aumentar, e muito, as taxas de juros para estancar a volatilidade e a desvalorização da libra, com os efeitos já conhecidos sobre a atividade e o emprego.

O Reino Unido passará a ser destino menos atraente para grandes empresas estrangeiras, ou mesmo britânicas, que, por certo, haverão de escolher países-membros da UE para os seus negócios, diante da maior facilidade para conduzi-los e dos mercados ampliados que a Inglaterra não mais haverá de prover.

Nada disso, entretanto, tem ressoado com o devido vigor entre o povo que haverá de escolher em poucas semanas o destino da ilha. Prevalece a desconfiança em relação aos seus governantes, aos líderes da Europa, e ao temor tácito de que a crise migratória venha a afetá-los – a eles e seus empregos, a eles e à capacidade de que o Estado possa prover serviços para todos. Ainda que tenham sido muito poucos os imigrantes a cruzar o Canal da Macha, refugiados do Estado Islâmico.

Do outro lado do oceano, a escolha estúpida é aquela que se torna cada dia mais provável: Trump, presidente dos EUA. Fica para outro artigo análise sobre o pós-novembro, sobre o mundo com Trump. Contudo, fica o alerta: os EUA estão cada vez mais inclinados a escolher alguém cujo preparo para exercer o cargo mais alto do país é inexistente.

Sentiram algum consolo em relação às escolhas de Temer? Algum schadenfreude, conforto proveniente das escolhas estúpidas dos outros? Nem eu.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute For Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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