Escravidão, o Efeito Haiti e patrimonialismo
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Escravidão, o Efeito Haiti e patrimonialismo

Segundo volume da trilogia 'Escravidão' resgata a transferência de tecnologia trazida pela população negra africana traficada como escrava e como isso contribuiu para o desenvolvimento econômico do Brasil

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2021 | 08h00

O segundo volume do livro Escravidão (Globo Livros), de Laurentino Gomes, é tão imperdível quanto o primeiro. Ele nos passa uma visão do regime escravocrata, da África que guardou relações com o tráfico e, principalmente, uma visão do Brasil, que então engatinhava, com uma abrangência e interconexão que não se encontram nos livros escolares. Aqui vão considerações sobre alguns dos temas desenvolvidos neste segundo volume da trilogia.

A noção tradicional que vem sendo transmitida geração após geração é a de que os escravos que chegaram ao Brasil nos navios negreiros eram selvagens, boçais, incapazes de exercer as funções de que necessitava um país carente de tudo. E, no entanto, eles foram responsáveis por uma imensa transferência de tecnologia para cá

Os portugueses estavam à frente da principal tecnologia de ponta da época, que era a navegação de longo curso, por meio das caravelas. Dominavam a produção de açúcar e algumas áreas da construção civil. Mas não entendiam nada ou muito pouco de mineração, metalurgia, tecelagem, mergulho, criação intensiva de gado, curtição e produção de artefatos de couro. 

Uma das principais dívidas que o Brasil mantém com a população negra africana traficada para servir como escrava foi a de ter aprendido, por meio deles, as principais técnicas e conhecimentos nessas áreas que se tornaram essenciais para o desenvolvimento da economia da época. As principais descobertas de ouro e diamantes de Minas Gerais se devem a eles e não aos bandeirantes paulistas.

Os trabalhos das minas foram desenvolvidos por especialistas negros provenientes da Costa da Mina (entre as atuais Gana e Zâmbia), os chamados negros mina. De enorme contribuição foram os conhecimentos dos criadores de gado do Senegal, Mauritânia e Gâmbia. O cultivo do arroz pôde prosperar no Maranhão graças aos escravos da área de Serra Leoa e Costa do Marfim. E basta conferir a sofisticação do que foi a cultura do barroco mineiro, na construção, na escultura, na música, na maior parte produzida por negros e mestiços, para ter melhor ideia disso.

Outra noção muito bem desenvolvida no livro é a de que as relações entre senhores e escravos não se reduziram à pura dominação e brutalidade. Havia certo jogo que funcionou ao mesmo tempo como escape e como técnica de controle mais sofisticado. O Brasil foi o país que mais alforriou cativos, muitos dos quais se tornaram também senhores de escravos e conseguiram meios para comprar a liberação de outros escravos.

Bem analisado no livro é o que pode ser chamado de Efeito Haiti. Em 1791, armados de paus e facas, os escravos se revoltaram, massacraram a minoria branca e assumiram o governo. 

Nas décadas seguintes, as elites do Brasil  se apavoraram com a possibilidade de que o mesmo acontecesse por aqui. Embora tivesse acontecido alguns anos antes da revolução do Haiti, esse pavor foi uma das razões pelas quais os inconfidentes de Vila Rica (Ouro Preto), que batalhariam em nome da “Liberdade ainda que Tarde”, não consentiriam em abolir a escravidão. Tratava-se, então, de conquistar a liberdade apenas para a elite branca.

E tem a roubalheira. O livro mostra com grande riqueza de informações como, desde o início da colonização, prosperou por aqui o patrimonialismo, essa relação promíscua entre interesses do Estado e interesses privados. O patrimônio público foi implacavelmente pilhado sob o olhar cúmplice da Coroa ou de seus representantes. “Nesta terra, todos roubam, só eu não” – relatou o Onça, o governador do Rio Luís Vahia Monteiro, em carta a dom João V. Ou como escreveu Frei Vicente do Salvador: “Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular”.

Quando passou por Guaratinguetá em direção às Minas Gerais, o Conde de Assumar foi recebido com uma peixada. Foi ao deitar suas redes no Rio Paraíba para garantir o pescado para Assumar que três pescadores encontraram a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Pois quando voltou a Portugal, o Conde de Assumar carregou consigo um baú com 100 mil moedas de ouro. Foi castigado e, depois, perdoado pelo rei e reenviado para as Índias – de onde voltou ainda mais rico.

Esse comportamento prevalece até hoje e explica as relações promíscuas entre políticos, administradores do Estado e o erário público.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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