Escudos para proteger a economia do pessimismo

Se não houve nenhuma surpresa significativa no mercado com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar em 0,5 ponto porcentual, para 9% ao ano, a taxa básica de juros (Selic), o comunicado divulgado após a reunião claramente consolidou a expectativa de que as autoridades monetárias aprovaram um ciclo de novas elevações, que pode durar alguns meses.

O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2013 | 02h23

Tendo em conta a timidez com que o Banco Central (BC) serviu-se, até recentemente, do seu principal instrumento de combate às expectativas inflacionárias - a política de juros -, o comunicado se revela um tanto surpreendente ao permitir que o mercado o tenha interpretado como sinal de retorno dos juros ao papel de escudo contra a tendência à elevação dos preços.

Essa função - tanto da decisão quanto do comunicado - moderadora de prognósticos desanimadores, digamos, que vinham sendo feitos sobre os rumos da inflação, pode ser ampliada e tornar-se mais positiva se representar também a retomada de alguma dose mais explícita de ortodoxia na condução geral da política econômica, como é possível perceber numa segunda leitura e à luz de outros fatos.

O BC percebeu - e disso já dera conta na ata da reunião anterior - uma piora inquietante das expectativas do mercado no que se referia à inflação e ao câmbio, que, desde o último Copom, subiu 3,3%.

Ora, as autoridades monetárias trabalham, ou tentam trabalhar, em cima de expectativas daquilo que vem à frente, mais do que reagindo aos desafios do momento. O que procuram avaliar são a força e o potencial das expectativas que estão sendo geradas por determinado problema ou desafio. Ao que parece, chegaram à conclusão de que o fundamental, no momento, era reverter essas expectativas que se tornavam excessivamente negativas.

A decisão de elevar a Selic e a indicação de que essa política deve continuar inserem-se no mesmo quadro do recente anúncio de leilões diários de dólares pelo BC, num processo em que este parece disposto a "queimar" US$ 100 bilhões das reservas até o final do ano.

Desse modo, foi lançada água fria sobre as duas principais expectativas negativas que se acentuavam: a da inflação e a do câmbio. Mas com cuidado, pois é preciso que a ducha não esfrie demais o drive dos investidores, que já vem em marcha lenta.

Aí o remédio talvez resida em acabar de vez com os truques de contabilidade criativa, que já perturbam o relacionamento com o FMI.

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