Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

'Escutei várias vezes: 'Teu negócio vai bem, mas compro risco do GPA'', diz presidente do Assaí

Segundo o executivo, a separação da varejista do Grupo Pão de Açúcar era uma demanda antiga do mercado financeiro; empresa planeja agora avançar no e-commerce, por meio de parcerias com Rappi e Ifood

Entrevista com

Belmiro Gomes, presidente do Assaí

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 20h00

O aparente atraso do Assaí no e-commerce é uma decisão consciente da varejista, e não impediu o chamativo crescimento das receitas inclusive no ano de 2020, marcado pela pandemia e pela explosão das vendas online no País. Quem defende a tese é Belmiro Gomes, presidente da varejista que acaba de ser separada do GPA, após mais de uma década de união.

A separação, porém, já existia dentro da empresa. Gomes é adepto da tese de que entre atacarejo e hipermercados, sinergias podem virar "alergias". "Talvez tenha sido a última etapa", diz ele sobre a cisão completa do Assaí e do GPA. Segundo ele, a separação era uma demanda do mercado financeiro. "Eu escutei isso várias vezes. 'Teu negócio vai bem e tudo, mas junto eu estou comprando risco do hipermercado, risco do Pão de Açúcar'."

A fraqueza da economia brasileira neste ano, segundo ele, deve atingir em cheio um dos segmentos mais importantes para a empresa, o dos micro e pequenos empreendedores. Mas o Assaí enxerga no consumidor final sua linha de defesa. "Sabemos que vamos sofrer, mas vamos sofrer menos", afirma.

Autodidata em programação - conhecimento que lhe trouxe ao ramo de atacarejo - e apontado como bom de venda e de expansão geográfica, o executivo afirma que a empresa espera câmbio e juros altos ao longo deste ano. Confira os principais trechos da entrevista:

Diz-se no mercado que seria um desafio, para o senhor [no Assaí], entrar no digital. Como está o processo?

Um dos primeiros temas que desenvolvi na concorrência, nos anos 90, foi o software de automação de venda online dos representantes. No caso do Assaí, foi uma decisão não ir para e-commerce. No ano passado, o que se vendeu em todas as empresas de e-commerce no Brasil foi menor que o nosso crescimento. Boa parte do comércio vai ser afetada pelo online, mas o que é verdade para o bem durável não necessariamente será para o alimento. Você compra uma caixa de som que custa R$ 500 e pesa um quilo, o site lhe cobra R$ 10 para entregar. Se você comprar quatro quilos de açúcar que custa R$ 10 e alguém te cobrar R$ 10 para entregar, é injusto.

A solução da concorrência foi fazer e-commerce B2B (venda para empresas) e deixar a última milha da pessoa física com apps de entrega. Vocês buscam o mesmo?

A concorrência nasceu na distribuição e depois foi para o autosserviço (lojas). No nosso caso foi o contrário. O cliente que está há 30 anos comprando na concorrência não tem fidelidade se amanhã aparece um vendedor ou site do Assaí vendendo mais barato. O Atacadão era seis vezes maior que nós em autosserviço. Então, a estratégia foi crescer em autosserviço.

Podemos esperar o e-commerce do Assaí na venda direta para esses outros comércios?

Hoje, aproximadamente 3% da nossa venda é feita de forma direta para cliente B2B. Ainda não demos visibilidade porque é uma ferramenta de relacionamento direto, de televendas. Essa operação na concorrência sempre existiu, o que há é uma roupagem nova para dizer que é digital. Antes tínhamos quem fazia dentro do grupo. Vamos avançar no e-commerce para o consumidor final, mas em parceria com empresas, (como) Ifood, Rappi. Entrar no e-commerce não fazia sentido. Éramos uma empresa de 30% de crescimento ao ano.

A decisão da cisão foi do controlador? Essa separação também foi para tentar revigorar os hipermercados?

Na prática, sempre fomos separados do GPA. Estamos na Zona Leste (de São Paulo), o GPA na Brigadeiro (Luís Antônio). Consolidávamos resultado, mas o nível de integração era pequeno, e o Assaí se tornou maior sem se alavancar nem usar caixa do GPA. Do ponto de vista interno, não fazia sentido estar debaixo do GPA. No mercado financeiro, os investidores olhavam e falavam: "eu não quero comprar com o multivarejo, eu quero investir no segmento de atacarejo."

Vocês ouviam isso de analistas?

Escutei isso várias vezes. 'Teu negócio vai bem e tudo, mas junto eu estou comprando risco do hipermercado, do Pão de Açúcar'. Identificou-se uma oportunidade de destravar valor.

E por que mantiveram o atacarejo independente do GPA antes mesmo da cisão?

Foi condição. Coordenei a compra da concorrência (Atacadão) por outra companhia (Carrefour). A ideia era juntar, mas quando se fez um estudo, as sinergias projetadas viraram alergias. Quando me convidaram para ficar (no Atacadão), definimos uma política chamada Muro de Berlim. Quando fui convidado para o Assaí, a condição para eu vir foi a separação. Todas as áreas em conjunto com o GPA foram separadas.

Existem limitações por seguir com o mesmo controlador do GPA, o Casino?

A cisão é mais visível fora que dentro da companhia. Tínhamos junto áreas que não fazia sentido separar, como negociação com bancos. E ao longo dos 10 anos, não tive problemas com o Casino. O Assaí saiu de um faturamento de R$ 3 bilhões, em 2010, e foi para um faturamento de R$ 39,3 bilhões. Foi uma entrega consistente de resultados que trouxe independência.

Qual a visão para este ano?

A perspectiva era de melhora e não de piora da pandemia como estamos vendo. Estamos em um cenário de baixa visibilidade. É possível que daqui três ou quatro meses haja melhora com a vacinação, mas também é possível que haja uma nova cepa. A vantagem do formato alimentar é que é resiliente.

Mas parte dos alimentos não é cotada em dólar?

Compramos no mercado nacional, não corremos risco de importação. Mas vai ter impacto nos micro e pequenos empreendedores. Infelizmente o fôlego que tiveram ano passado não deve se repetir. Por outro lado, por sermos um modelo de baixo custo, continuamos atraindo o consumidor final. Em janeiro, a diferença de crescimento entre o atacarejo e os outros segmentos alimentares aumentou. Sabemos que vamos sofrer, mas vamos sofrer menos. Diferente do ano passado, em que o auxílio (emergencial) migrou para construção civil e bens duráveis, acreditamos que agora vai para alimentos e poupança. Não vejo espaço para queda cambial em curto espaço de tempo. Vamos ver os juros subirem, trabalhamos com isso como certo. E não tem movimento que indique desaceleração dos preços.

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