Espanha corta gastos e congela salários

Novo governo diz que rombo é maior do que esperava e já admite que o pacote de austeridade é só "o início do início"; sindicatos anunciam greves

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h05

A Espanha constata que o buraco em suas contas é bem maior do que se previa e terá de promover um corte de gastos de 40 bilhões nos próximos 12 meses para atingir a meta estabelecida pela UE. Ontem, o novo governo de Mariano Rajoy congelou salários, anunciou cortes de gastos no valor de 8,9 bilhões e o aumento de impostos para arrecadar outros 6,2 bilhões.

Mas seu governo já admite que o pacote de austeridade de ontem é apenas "o início do início", enquanto sindicatos anunciam greves.

Madri é um dos centros do nervosismo na Europa, com o mercado ainda esperando para ver se o novo governo terá uma resposta para financiar sua dívida. Mas dados divulgados ontem apontam que a meta da Espanha de terminar 2011 com um déficit orçamentário de 6% do PIB não foi atingindo. O buraco chega a 8%, num país que já sofre a contração do PIB e um desemprego recorde. Nem mesmo os dois pacotes de austeridade adotados pelo governo anterior de José Luiz Rodriguez Zapatero foram suficientes.

Rajoy admitiu ontem que foi obrigado a fazer cortes de gastos no orçamento de 2011 acima do que previa. Para a vice-presidente do governo, Soraya Saenz de Santamaria, o buraco nas contas é "bem superior" às previsões iniciais. O buraco é duas vezes maior que o da Itália em porcentual do PIB e quatro vezes superior ao da Alemanha.

O governo anunciou o congelamento dos salários e proibiu ministérios e órgãos públicos de fazer novas contratações, nem mesmo para cobrir vagas de pessoas que se aposentem. Em 2010, funcionários públicos tiveram seus salários cortados em 5% e, desde então, não receberam aumentos. O salário mínimo - de 641- também será congelado.

O pacote ainda incluiu a elevação de impostos sobre a renda, poupança e imóveis, que promete chegar a 6,2 bilhões.

O problema é que dificilmente as medidas anunciadas ontem serão a resposta à crise. Rajoy, durante sua campanha eleitoral, prometeu que iria reduzir o déficit espanhol para 4,4% do PIB ao final de 2012, como exige a UE. Mas previa que 2011 terminaria com um buraco de 6%, e não de 8% como se constatou agora.

Para cumprir a exigência de Bruxelas, a Espanha terá de aplicar cortes totais de 40 bilhões , e não só de 16 bilhões como imaginava. "Estamos diante de uma situação extraordinária e imprevista que exigirá medidas de rigor extraordinárias e imprevistas", disse Soraya.

O governo, na realidade, já prepara o terreno para medidas que prometem ser ainda mais duras em 2012. Mas irá primeiro esperar eleições regionais que espera ter bons resultados, para depois revelar os cortes.

Ataques. Para os sindicatos, porém, as novas medidas são "ataques contra os trabalhadores"."Os funcionários públicos voltam a ser os bodes expiatórios para aliviar as contas deficitárias do Estado", disse o sindicato União Geral de Trabalhadores em um comunicado. Os sindicatos, que foram informados pela imprensa que terão a ajuda do Estado cortada em 20%, prometem organizar greves para 2012.

Já partidos de esquerda acusaram Rajoy de punir a classe média e os trabalhadores, chegando até a reduzir impostos que ajudaram a criar a bolha imobiliária na última década.

Quem gostou das medidas foi o mercado. O risco país da Espanha caiu em nove pontos e, desde a vitória de Rajoy, a Bolsa de Madri vem ganhando terreno.

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