Espanha é pressionada a pedir resgate imediato

Merkel e G-20 querem formalização de socorro, que, segundo jornal, pode chegar a 500 bi; país continua pagando taxas recordes para rolar dívida

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2012 | 03h08

A Espanha paga a maior multa para se financiar dos últimos 15 anos e é pressionada pela chanceler Angela Merkel e pelo G-20 para que formalize imediatamente um pedido de resgate, na esperança de acalmar os mercados.

Mas cresce a desconfiança de que os 100 bilhões já prometidos pela UE aos bancos espanhóis não sejam suficientes para resgatar a economia do país. Investidores já apostam que Madri terá de recorrer a um pacote ainda maior, que também socorra as contas públicas.

Segundo o Financial Times, essa ajuda poderia chegar a 500 bilhões. Diante de mais um dia de turbulência, a taxa de juros que o governo espanhol foi obrigado ontem a pagar na emissão de títulos da dívida revelou que o mercado não está disposto a emprestar dinheiro para a Espanha se financiar, pelo menos não sem uma alta compensação. Ao colocar no mercado 3 bilhões em títulos da dívida, o governo espanhol foi obrigado a pagar uma taxa de 5,1%, a mais alta em 15 anos e jamais visto desde a criação do euro.

O risco país em papéis com maturidade de dez anos continuou a uma taxa acima de 7%, outro recorde. O patamar é considerado como uma marca na história recente da UE. Grécia, Irlanda e Portugal tiveram de recorrer a um socorro justamente depois de ver a taxa ultrapassar a marca de 7%.

Na prática, a Espanha não teria como continuar a se financiar desta forma se a taxa não ceder. "Parece agora inevitável que a Espanha tenha de pedir um resgate soberano e possivelmente logo", apontou a Capital Economics, em nota a investidores.

Pressão. Há dez dias, o governo de Mariano Rajoy anunciou que a Europa estava disposta a liberar 100 bilhões para socorrer os bancos europeus e insistiu que não seria um resgate tradicional, algo que a própria UE desmentiu. Mas a demora em implementar o resgate deixou o mercado ainda mais nervoso.

Fontes em Madri acreditam que exista uma possibilidade de que a solicitação formal do dinheiro possa ser entregue aos ministros de Finanças da zona do euro ainda nesta semana, em Luxemburgo. Antes, porém, Madri receberá amanhã o levantamento que encomendou sobre qual de fato seria a necessidade de capital dos bancos, o que determinará o tamanho do pedido.

O que não ajudou a acalmar os mercados foi a decisão de Rajoy de adiar para setembro uma avaliação mais aprofundada do tamanho do buraco, sem dar explicações. Não por acaso, Merkel usou a reunião do G-20 no México ontem para apelar para que a Espanha "esclareça rapidamente" quanto vai precisar em resgate e que não tarde mais a fazer o pedido. Merkel quer a injeção de capital o quanto antes, na tentativa de anestesiar os mercados.

Mas, ontem, Rajoy ainda lançou uma ofensiva para tentar convencer os ministros de Finanças da Europa e o G-20 a dar esse dinheiro diretamente aos bancos com problemas. Desta forma, seu endividamento não aumentaria e ele não ficaria responsável pelo resgate. Os cálculos são de que o empréstimo aumentaria a dívida espanhola em 15%.

Tanto a Europa como diversos governos no bloco rejeitaram a proposta, insistindo que é Madri quem deve ficar responsável pelo dinheiro.

Ou seja, se um banco receber o dinheiro europeu e acabar quebrando mesmo assim, será o governo espanhol quem terá de assumir a dívida.

Mas o que os europeus acenaram foi para condições menos rígidas para o empréstimo. Segundo o jornal El País, uma das opções seria ampliar ao máximo o prazo para a devolução dos créditos, o que reduziria o impacto sobre a dívida de curto prazo.

Mesmo assim, analistas já alertam que a Espanha não terá outra alternativa senão a de pedir um resgate para toda sua economia. "É inevitável (o pedido de um novo pacote)", alertou o RBS. "O mercado deu seu recado", indicou.

A suspeita é de que Rajoy não terá como reduzir sua dívida pública de 8,9% do PIB em 2011 para 5,3% neste ano e 3% em 2013.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.