Espanha já paga por dívida mais que a Grécia

A pressão externa por medidas de austeridade na Espanha ganhou proporções vistas como "insustentáveis": a taxa de risco do país superou a da Grécia e de Portugal e os governantes correm contra o tempo para evitar um resgate, anunciando duros cortes e suspensão de benefícios sociais.

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE, Agencia Estado

23 de novembro de 2011 | 07h02

Ontem, investidores e agências de rating deixaram claro que vão continuar punindo a Espanha e o acesso ao crédito será dificultado até que haja um sinal claro de quanto será cortado em gastos.

O primeiro-ministro eleito, Mariano Rajoy, vai apresentar no início de dezembro à chanceler alemã, Angela Merkel, e ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, seu plano de austeridade que prevê cortes de 20 bilhões apenas no primeiro ano, antes mesmo de assumir o governo. Ontem, a Catalunha já anunciou redução no salário dos funcionários públicos e aumento nas taxas de transporte, saúde e da universidade.

A agência de classificação de risco Fitch emitiu comunicado alertando que a Espanha terá de tomar novas medidas de austeridade se quiser ser solvente e pediu pressa para que o novo governo aprove reformas profundas no orçamento. Para a Fitch, Rajoy terá de "surpreender positivamente os investidores com um ambicioso e radical programa de reformas".

Segundo a Fitch, Rajoy terá de "legislar para tomar medidas adicionais com vistas a cumprir os objetivos de déficit". A agência manteve a nota de risco de AA-, mas com uma "perspectiva negativa". Na prática, a avaliação abre caminho para novo rebaixamento e exerce uma pressão extra sobre Rajoy.

Estreia ruim. Mais pressão veio dos mercados. Na primeira emissão de papéis da dívida após as eleições, de 2,9 bilhões, a taxa de risco chegou a 475 pontos - a maior em 14 anos. Na prática, a Espanha paga mais juros por sua dívida que Grécia e Portugal. A Bolsa de Madri fechou no nível mais baixo em oito semanas, com queda de 1,45%.

A situação exigiu de Rajoy antecipar o anúncio do que planeja fazer e apresentará sua política de cortes em duas semanas aos líderes europeus, antes mesmo de assumir o governo no dia 20. Mas seu entorno relevou ao Estado que Rajoy considera a pressão dos mercados "insustentável", o que exigirá que a UE também ajude a Espanha. A pressa do mercado em fazer a transição na Espanha esbarra na constituição e na resistência do premiê em exercício, José Luiz Rodriguez Zapatero, em saltar etapas. Rajoy insiste que vai representar a Espanha na cúpula da UE, dia 9 de dezembro.

A fórmula encontrada para driblar Zapatero foi a convocação de uma reunião de partidos de centro-direita da Europa, justamente para ocorrer às margens da cúpula da UE. Nela, Rajoy vai como líder do Partido Popular e se reunirá com Merkel e Sarkozy, ambos líderes de partidos conservadores. Um dia antes, ainda terá reuniões privadas com diversos líderes. Hoje, mais da metade dos países da UE são governados pela direita.

Merkel, em um telegrama enviado a Rajoy, ainda pediu que as reformas que estão por ser feitas ocorram "sem demora". Segundo a chanceler alemã, Rajoy "recebeu do povo um mandato claro para decidir e colocar em andamento rapidamente as reformas necessárias neste período difícil para Espanha e Europa". Rajoy, como o Estado revelou ontem, responde que a Espanha já não tem como se salvar sozinha.

Cortes. Ontem, o primeiro a anunciar cortes drásticos de gastos foi o governo da Catalunha. O governador da região, Artur Mas, esperou sua reeleição no fim de semana para divulgar os cortes de 10% em todos os gastos. Desde 2009, Mas já cortou 6 bilhões do orçamento da região. Agora, o pacote incluirá a redução do salário dos funcionários públicos e pediu " sacrifício". O custo da água, transporte e os serviços de saúde vai também ser elevado para permitir uma economia de 1 bilhão. Se não bastasse, mensalidades e taxas das universidades serão elevadas, medidas que os estudantes já prometem resistir.

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