Espanha já paga por dívida mais que Grécia

Na primeira emissão depois das eleições, a taxa de juros foi a maior em 14 anos

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h03

A pressão externa por medidas de austeridade na Espanha ganhou proporções vistas como "insustentáveis": a taxa de juros paga aos investidores pelos títulos da dívida do país superou a da Grécia e de Portugal e os governantes correm contra o tempo para evitar um resgate, anunciando duros cortes e suspensão de benefícios sociais.

Ontem, investidores e agências de rating deixaram claro que vão continuar punindo a Espanha e o acesso ao crédito será dificultado até que haja um sinal claro de quanto será cortado em gastos.

O primeiro-ministro eleito, Mariano Rajoy, vai apresentar no início de dezembro à chanceler alemã, Angela Merkel, e ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, seu plano de austeridade que prevê cortes de 20 bilhões apenas no primeiro ano, antes mesmo de assumir o governo. Ontem, a Catalunha já anunciou redução no salário dos funcionários públicos e aumento nas taxas de transporte, saúde e da universidade.

A agência de classificação de risco Fitch emitiu comunicado alertando que a Espanha terá de tomar novas medidas de austeridade se quiser ser solvente e pediu pressa para que o novo governo aprove reformas profundas no orçamento. Para a Fitch, Rajoy terá de "surpreender positivamente os investidores com um ambicioso e radical programa de reformas". Segundo a agência, Rajoy terá de "legislar para tomar medidas adicionais com vistas a cumprir os objetivos de déficit". A agência manteve a nota de risco de AA-, mas com uma "perspectiva negativa". Na prática, a avaliação abre caminho para novo rebaixamento e exerce uma pressão extra sobre Rajoy.

Mais pressão veio dos mercados. Na primeira emissão de papéis da dívida do país após as eleições, de 2,9 bilhões, os juros pagos aos investidores pelos títulos de três meses foi de 5,1% (2,3% em outubro) e, para os de seis meses, 5,2% (3,3% em outubro) - o mais alto nível pago para títulos de curto prazo pelo país em 14 anos.

Na prática, a Espanha está pagando juros mais altos que Grécia e Portugal. Com a ressalva de que hoje os títulos da dívida grega e portuguesa apresentem menos riscos ao investidor porque os dois países estão recebendo ajuda da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. No dia 16, Grécia pagou 4,1% e Portugal, 4,9%.

Na semana passada, antes das eleições, a Espanha negociou os títulos de 10 anos com uma taxa média de juros de 7%.

Estratégia. A situação exigiu de Rajoy antecipar o anúncio do que planeja fazer. Ele deve apresentar sua política de cortes em duas semanas aos líderes europeus, antes mesmo de assumir o governo no dia 20. Mas seu entorno relevou ao Estado que Rajoy considera a pressão dos mercados "insustentável", o que exigirá que a UE também ajude a Espanha. A pressa do mercado em fazer a transição na Espanha esbarra na constituição e na resistência do premiê em exercício, José Luiz Rodriguez Zapatero, em saltar etapas. Rajoy insiste que vai representar a Espanha na cúpula da UE, dia 9 de dezembro.

Merkel, em um telegrama enviado a Rajoy, pediu que as reformas que estão por ser feitas ocorram "sem demora". Segundo a chanceler alemã, Rajoy "recebeu do povo um mandato claro para decidir e colocar em prática rapidamente as reformas necessárias neste período difícil para Espanha e Europa". Rajoy, como o Estado revelou ontem, responde que a Espanha já não tem como se salvar sozinha.

Cortes. Ontem, o primeiro a anunciar cortes drásticos de gastos foi o governo da Catalunha. O governador da região, Artur Mas, esperou sua reeleição no fim de semana para divulgar os cortes de 10% em todos os gastos. Desde 2009, Mas já cortou 6 bilhões do orçamento da região. Agora, o pacote incluirá a redução do salário dos funcionários públicos. O custo da água, transporte e serviços de saúde vai também ser elevado para permitir economia de 1 bilhão. Além disso, mensalidades e taxas das universidades serão elevadas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.