Espanha precisará de 20 anos para se recuperar

Relatório de entidades sociais aponta risco de o país repetir o trauma da América latina nos anos 80, caso a política de austeridade e de cortes seja mantida

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / BARCELONA, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h05

A Espanha vai precisar de 20 anos para se reerguer de sua pior crise econômica e do pior tombo social em meio século. Um relatório preparado por algumas das entidades sociais de maior credibilidade - Oxfam, Médicos do Mundo, Unicef, Cáritas e entidades religiosas - deixa claro que, se a política de austeridade for mantida e os cortes nos programas sociais e de investimento do Estado não forem freados, o país corre o sério risco de repetir o trauma da América Latina nos anos 80.

Pelas estimativas, a atual crise poderá jogar nos próximos anos 18 milhões de espanhóis numa situação de risco de pobreza até 2020. Hoje, são 12,8 milhões, 2 milhões mais que em 2008. O cálculo é feito a partir da renda média do país e, para as autoridades, pobres são aqueles que recebem menos de 7 mil por ano.

O desemprego atinge 26% da população, 57% dos jovens e mais de 1 milhão de famílias não têm nenhuma renda. Para deixar a situação ainda mais dramática, o seguro-desemprego que o Estado garante por dois anos está, para muitos, chegando ao final.

Em apenas cinco anos, os níveis de pobreza teriam dobrado no país, atingindo 12 milhões de pessoas. Para as entidades, se essa tendência não for revertida imediatamente, a Espanha precisará de pelo menos 20 anos para voltar a ter os mesmos níveis sociais de 2007.

"A situação é dramática e, pelo menos por enquanto, não vemos uma luz no fim do túnel", declarou ao Estado um dos líderes sindicais da Catalunha, José Maria Alvarez, da União Geral dos Trabalhadores (UGT). "Na minha vida, nunca havia visto uma crise parecida", constatou o experiente sindicalista.

Suicídios. Um símbolo dessa crise é a onda de desalojados pelo país, o que vem provocando também uma onda de suicídios. Para analistas, foi justamente a implosão da bolha imobiliária que jogou o país na atual crise.

A expansão de obras e os créditos aos consumidores sustentaram um crescimento econômico exemplar. O problema é que, em muitas cidades, até 60% da arrecadação vinha dos impostos pagos por essas construtoras. Quando quebraram, deixaram buracos de tamanhos sem precedentes nas contas dos governos.

Mas, para as ONGs, é o impacto social dessa implosão que agora mostra sua cara, enquanto milhares de pessoas perdem suas casas por não terem como pagar hipotecas e são desalojados pela polícia em momentos de tensão.

O Estado visitou uma dessas famílias na cidade de Badalona, nas proximidades de Barcelona. Sem casa, sem trabalho e sem perspectiva, a família pediu para não ter nem os nomes revelados nem fotos divulgadas. "É muita humilhação", disse o pai de dois garotos.

Mas o drama do desalojamento vai além das famílias endividadas e atinge aqueles que, quando as casas foram compradas, serviram de fiadores do negócio.

Uma gerente de um banco contou ao Estado a sequência de eventos que está se tornando cada vez mais comum. Ao não ter como pagar uma hipoteca, a família é obrigada a devolver a casa ao banco. O problema é que, com a crise, o imóvel vale hoje menos que o valor da compra.

Bancos passaram então a confiscar as propriedades dos fiadores, que por sua vez são despejados. "Em muitos casos, os fiadores são os pais das pessoas que estão devendo e já são de mais idade, vivendo apenas da aposentadoria", comentou a gerente de um banco em Barcelona.

Desigualdade. Outro impacto está sendo o aprofundamento da desigualdade de renda entre a camada mais rica e os pobres. A estimativa das ONGs é de que a disparidade começa a aumentar e, em dez anos, a camada mais rica da população terá uma renda média 15 vezes superior aos mais pobres. Hoje, a diferença não chega a 8 vezes.

Segundo um estudo, uma das consequências pode ser um golpe na paz social que reinou no país nos últimos 20 anos. Para chegar a essas conclusões, as entidades se basearam na experiência da América Latina nos anos 80 e o impacto social gerado pelas recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) de reformas estruturais.

"As receitas que estão sendo aplicadas na Espanha apenas vão aumentar o desemprego e a desigualdade", aponta o informe. "As mesmas políticas de ajustes que foram impostas aos países emergentes hoje estão sendo implementadas na Espanha, mas dessa vez com o nome de austeridade", acrescenta.

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