Espanha vive hoje ''dias de Grécia''

País começa a sentir os efeitos de um tratamento de choque para evitar que sua história de sucesso se transforme em bancarrota

Andrei Netto, MADRI, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

"Deve ter percebido que ultimamente não há ofertas para você. Tente baixar suas expectativas." A orientação, recebida no início do mês em um e-mail enviado pela agência eletrônica de empregos Infojob, serviu para abalar um pouco mais a autoestima de Jorge Amenabar, 45 anos, 27 deles vividos como funcionário de uma multinacional. Parado há 24 meses, o administrador experimenta, além da progressiva decadência financeira, o gosto amargo da separação, que explica com um dito popular: "Quando a ruína entra por uma porta, o amor sai pela janela".

Amenabar é um entre 4,6 milhões de espanhóis, ou 20% da população ativa, que estão "no paro" - a expressão corrente para definir o desemprego. Ele ajuda a engrossar as estatísticas que fazem da Espanha o maior contingente de desempregados da Europa Ocidental, segundo o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat).

E o drama está longe de um fim. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o desemprego em 2011 ainda será maior que o de 2009. E, se a perspectiva de crescimento médio anual de 1,7% se confirmar, a Espanha não criará novos postos em número suficiente antes de 2016.

Quinta maior economia do bloco, transformada em eldorado da União Europeia entre 1992 e 2008, a Espanha começou a sentir na semana passada os efeitos de um tratamento de choque para impedir que sua recente história de sucesso se converta em bancarrota. Na quinta-feira, o governo socialista de José Luis Zapatero enviou ao Congresso uma proposta de cortes orçamentários destinados a economizar ? 15 bilhões em gastos públicos entre 2010 e 2011.

A política de austeridade prevê um pacote de nove medidas, entre as quais a redução de 5%, em média, dos salários do funcionalismo público a partir de junho e seu congelamento até o ano que vem, economia avaliada em ? 6,4 bilhões no biênio. Além disso, prevê a contenção de ? 6 bilhões em investimentos públicos no período.

Déficit. O projeto de lei seguiu as instruções de Bruxelas aos países que enfrentam a explosão do déficit fiscal. Ao lado da Grécia, de Portugal, da Irlanda e, em menor escala, do Reino Unido e da Itália, a Espanha é um dos alvos do surto de desconfiança do mercado financeiro sobre a Europa. Pressionado a reduzir o déficit de 11,3%, Zapatero não teve alternativa além de pedir "sacrifício" aos seus compatriotas.

O apelo, entretanto, não foi bem recebido. Nas ruas de Madri, as medidas vêm sendo chamadas de "bandazo", como os espanhóis apelidaram a "guinada econômica à direita" do governo socialista. Para tentar acalmar os ânimos, a ministra da Economia, Elena Salgado, anunciou a "redistribuição do esforço fiscal", por meio da criação de um imposto para quem ganha mais de ? 1 milhão por ano - em clara resposta aos setores de esquerda da sociedade e, em especial, ao PSOE, o partido no poder. "Que os cidadãos não tenham dúvida: vamos adotar medidas para aqueles que mais têm", garantiu Manuel Chaves, o número três da hierarquia do Executivo.

A atitude, entretanto, não seduziu os líderes dos dois maiores sindicatos do país. Na sexta-feira, Comisiones Obreras (CO) e UGT anunciaram que a convocação de uma greve geral está "cada vez mais próxima".

Na quinta-feira, a Espanha viveu seu primeiro "dia de Grécia". Protestos sindicais foram realizados em mais de 60 cidades. Em frente ao Ministério da Economia, em Madri, Matilde Lueneo, enfermeira de 36 anos, protestava contra o corte de seus salários e empunhava um cartaz no qual se lia: "La crisis, que lo paguen los culpados". "O governo está baixando nossa renda em 5%. É muito", disse, questionando o tamanho do Estado e os altos salários de parte do funcionalismo.

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