Especialista vê inércia alemã por trás da crise

Para Domenico Lombardi, governo da Alemanha é responsável por cenário atual

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h09

O risco de recessão paira sobre a zona do euro, enquanto a Alemanha não se move em favor da integração fiscal e bancária da região e da adoção urgente do novo mecanismo de socorro aos países em crise da região. Essa é a avaliação do napolitano Domenico Lombardi, especialista em economia mundial do Brookings Institution, que não transfere o foco da crise para os Estados Unidos, cujos desafios fiscais podem provocar depressão. Para ele, o responsável por um cenário grave para a economia mundial é o governo alemão.

"Hoje, a zona do euro é o palco de um iminente terremoto financeiro", afirmou ao Estado. "Os EUA têm fatores preocupantes, mas não tão urgentes quanto os da Europa neste momento", completou Lombardi.

Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou uma revisão menos favorável de crescimento da economia mundial para este ano, de 3,4% - recuo de 0,1 ponto porcentual diante das estimativas de abril passado. Em seus relatórios, o FMI recomendou à zona do euro aprofundar sua integração, adotar medidas monetárias para dar impulso à economia e colocar em prática o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), sem se esquecer dos objetivos de médio prazo de ajuste nas contas públicas.

Dos EUA, o FMI cobrou o plano de redução do déficit público em médio e longo prazos. Mas colocou ênfase maior na necessidade de o ano não virar sem antes o Congresso americano aumentar o teto da dívida pública e aprovar o orçamento para 2013. Sem essas medidas, o governo americano ficará paralisado, sem capacidade de se financiar, e terá de efetuar cortes automáticos de US$ 665 bilhões nos gastos públicos.

Para Lombardi, a inação da zona do euro e dos EUA será uma combinação "explosiva" para essas economias e o resto do mundo no início do ano. As projeções do FMI para 2013 estão assentadas na suposição de que ambos os atores cumprirão suas tarefas. A economia mundial, nas projeções do Fundo, crescerá 3,9% no ano que vem - 0,2 ponto porcentual menos do que o previsto em abril. A atividade nos EUA expandirá 2,3%, e a da zona do Euro, modesto 0,7%. O cenário, no entanto, pode ser pior.

Lombardi não considera produtivo cobrar de todos os países do euro uma responsabilidade que cabe à Alemanha. Para ele, países como Itália, Portugal e Espanha estão cumprindo seus compromissos de ajuste nas contas públicas e de reformas estruturais, com altos custos para suas economias. O próprio FMI constatou ser o atual aperto fiscal da Itália o mais severo dentre as economias da região. O crescimento positivo de 0,4%, em 2011, passará para negativo de 1,9% em 2012.

Para o economista, os riscos potenciais para a zona do euro têm sido negligenciados por Berlim, cuja liderança vem sendo requerida há quase dois anos. Na cúpula europeia no fim de junho, em Bruxelas, a decisão de tornar efetivo o MEE, o fundo de socorro às economias endividadas e pressionadas pelos mercados a elevar suas taxas de juros, não surgiu. O MEE deveria começar a funcionar em julho. Agora, a melhor hipótese é de início de sua atividade em setembro, depois de aprovação pelo Parlamento alemão.

A Alemanha, ressaltou Lombardi, também é a principal fonte de resistência aos processos de integração fiscal e bancária da zona do euro. Tratam-se de objetivos de médio ou longo prazo. Mas a formulação de planos consistentes com esses objetivos ajudaria a acalmar os mercados e restaurar boa parte de sua confiança nas autoridades dos países do euro.

Para ele, os países emergentes e as instituições multilaterais precisam começar a chamar Berlim à sua responsabilidade, em vez de cobrar medidas, de forma genérica, da zona do euro. "O FMI não tem sido suficientemente forte para aumentar sua pressão sobre a Alemanha. Poderia ser mais agressivo ou menos polido", afirmou. "A zona do euro está em colapso, e a responsabilidade deveria ser atribuída."

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