Especialistas alertam para os riscos no uso do cartão de crédito

Dinheiro de plástico ganha cada vez mais espaço no Brasil, mas analistas dizem que, sem cuidado, pode levar até mesmo à falência pessoal

Roberta Scrivano, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2010 | 00h00

Já existe quase um cartão de crédito para cada brasileiro - são 153 milhões de plásticos para uma população estimada em 190 milhões de pessoas. A popularização é recente, como mostram os dados do setor (ver tabela nesta página). Por isso, muita gente está apenas debutando no uso da modalidade de pagamento. Para evitar dissabores, especialistas em finanças pessoais alertam que é preciso cuidado ao sacar o cartão do bolso.

Segundo eles, a ferramenta tanto pode facilitar a organização do orçamento quanto, na pior hipótese, levar à falência pessoal. A opção de deixar os gastos para o mês seguinte e os limites para compra mais altos do que a renda mensal são os potenciais vilões da história. De outro lado, todos os gastos podem ser concentrados no cartão, o que facilita a listagem dos custos mensais e, consequentemente, o planejamento financeiro.

"O cartão de crédito é uma ferramenta brilhante, mas é preciso saber usar", afirma Rogério Bastos, diretor da consultoria FinPlan. Ílnort Rueda Saldívar, diretor da consultoria AT Kearney, salienta que, para ter um cartão de crédito, antes de mais nada, o consumidor precisa ter consciência de que não pode gastar mais do que tem. "Essa atenção deve ser redobrada porque a pessoa gastará antes de receber", diz.

Segundo Bastos, merece especial atenção o crédito rotativo. Trata-se de um tipo de empréstimo disponibilizado pelo banco que não exige garantia do cliente. Em contrapartida, o juro em caso de inadimplência é altíssimo. Além disso, o rotativo já utilizado pode ser pago em parcelas e, a cada prestação quitada, o valor volta a ser incorporado ao limite não utilizado.

Por isso, dizem os especialistas, quem entra no rotativo normalmente tem dificuldade de sanar a dívida. É como uma bola de neve, já que se paga o mínimo (10% do valor total da fatura do mês) e aquele montante volta a ser disponibilizado para uso. "Nunca pague o mínimo. É melhor não pagar nada do que entrar no rotativo", diz Mauro Calil, professor e educador financeiro.

Ele explica que, nesse caso, deixar de pagar é mais vantajoso, sobretudo porque o cartão será bloqueado. "Quem paga o mínimo em um mês, provavelmente pagará o mínimo no seguinte também."

Anuidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de falência pessoal é alta por culpa, principalmente, do uso do crédito rotativo dos cartões. Para evitar a falência, Calil diz que o ideal é que o valor do limite do cartão não supere 50% do total da renda líquida (ou seja, o que de fato entra na conta). "Essa é a regra de ouro. É preciso lembrar que gastos como aluguel e contas não entram no cartão. Por isso, não dá para o limite ser maior", esclarece.

A anuidade, taxa cobrada pelos bancos para administrar o produto, é outro ponto com o qual o consumidor deve ter cuidado. Normalmente, é possível negociar o valor com a instituição financeira. "É possível até mesmo conseguir a isenção desse valor", diz Bastos.

Desconto em ingressos de cinema e teatro, além de privilégios na hora de embarcar em um voo ou o acúmulo de milhas, são outros benefícios do meio de pagamento listados pelos especialistas. "Eu mesmo viajo todos os anos com as milhas que acumulo com os gastos no cartão", conta Bastos.

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