FELIPE RAU|ESTADÃO
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Logística não segue avanço do agronegócio

Especialistas reunidos em evento em São Paulo avaliam que setor perde produtividade por conta da falta de investimentos

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2017 | 12h08

O agronegócio brasileiro “cresceu a passos largos nos últimos 50 anos”, se destacando como o segundo maior exportador do mundo, porém, a infraestrutura logística não acompanhou essa expansão, afirmou o consultor para logística e infraestrutura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Luiz Antonio Fayet. “Crescemos e exportamos muito, mas ainda gastamos demais com logística.” Segundo ele, a logística está sufocando a produção rural, não apenas para o agricultor, mas para toda a cadeia produtiva.

Fayet estava entre especialistas, empresários e autoridades que participaram do fórum Logística e Infraestrutura no Agronegócio, realizado nesta terça-feira, 8, em São Paulo – uma parceria do Estado com a CNA. 

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Para o presidente executivo da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), César Borges, essa defasagem se dá porque o Brasil investiu pouco em infraestrutura nos últimos anos. “Se comparamos o investimento de 2013 até hoje, a redução é de mais de 50%, o que agrava um problema crônico do País”, disse Borges. 

“Nossa infraestrutura logística foi construída antes da explosão do agronegócio”, explica o presidente da CNA, João Martins da Silva. Ele afirmou que o agronegócio brasileiro dentro da porteira é capaz de produzir mais e melhor, mas para fora é “um pesadelo”. O executivo citou que são milhares de quilômetros de caminhão em rodovias precárias e portos congestionados. “Essas condições elevam em 25% o valor do frete e no Norte chega a 35%”, afirmou. “Pelo menos 60% da carga é transportada por estradas.” João Martins comentou ainda que os modais mais recomendados, como o ferroviário e o hidroviário, são pouco usados. “Esses modais têm capacidade mais elevada, são menos poluentes e têm custos muito menores.”

Todos concordaram que grande parte da produtividade do agronegócio brasileiro, resultado de pesquisas e investimentos do produtor, se perde no trajeto da fazenda até o porto – são mais de 1.500 km em trechos terrestres. Segundo Fayet, da CNA, um terço da produtividade do campo é gasto com logística. “A logística sufoca o desenvolvimento do agronegócio.”

Concessões. Os desafios do agronegócio, em especial no momento em que a economia começa a se recuperar de uma recessão, exigem soluções duradouras e, nesse cenário, as concessões surgem como prioridade. “Há muito tempo não se dá ao setor a importância que ele merece”, disse Borges, presidente executivo ABCR. “A concessão nasceu da falta de recursos dos governos”, argumentou.

“Sabemos da situação em que o governo se encontra, então, sabemos que no curto prazo investimento estatal não vai acontecer. Acho que é fundamental a iniciativa privada para o desenvolvimento da logística e infraestrutura no Brasil”, afirmou o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Jorge Luiz Macedo Bastos. 

Para o diretor do Movimento Pró-Logística, Edeon Vaz, o desafio do setor produtivo em logística é constante. O presidente executivo da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (Anut), Luiz Baldez, explicou que seria mais eficiente se o dinheiro investido em políticas de subsídios à safra agrícola fosse revertido para reduzir o custo de infraestrutura. “Essa conta precisa ser feita pelo Estado.” Fábio Trigueirinho, secretário executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), concorda: É mais importante investir em infraestrutura do que subsidiar sua ineficiência”.

Ferrovias. O diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Jorge Luiz Macedo Bastos, disse no mesmo evento que chegou o momento de “passar as ferrovias a limpo”.

Ele salientou que o governo está atualmente tratando das concessões existentes no setor. “É um tema difícil de tratar, mas temos, da parte do governo, a pretensão de renovar esses contratos que vencem daqui 12 anos”, argumentou. Segundo Bastos, “temos de passar a ferrovia a limpo; não adianta dizer que existem milhares de quilômetros de ferrovia e não a utilizamos.”

Ele observou, ainda, que a Ferrogrão pode dar um impulso à logística do País. “Vamos ver se se vamos ter investidores para isso”, afirmou. A Ferrogrão é uma ferrovia desenhada por um grupo de investidores (Bunge, Cargill, Maggi e Louis Dreyfus) do Centro-Oeste.

Para o presidente executivo da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (Anut), Luiz Baldez, a “logística brasileira é ineficiente e cara”. No caso das ferrovias, o problema é precificar o frete pelo rodoviário. Baldez citou que falta no Brasil uma integração entre as malhas ferroviárias e há divergências em relação ao direito de passagem, que permite o compartilhamento de um trecho concedido.

O diretor executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), Fernando Paes, diz que de acordo com os próprios dados do governo o custo do frete ferroviário equivale a 50% do rodoviário, R$ 78,96 ante R$ 140,00 a tonelada por quilômetro útil. Para Paes, a expectativa é que, com a renovação das concessões, o passivo do setor seja solucionado.

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