Especialistas brasileiros questionam dados sobre queda dos investimentos

A queda de 17% nos Investimentos Externos Diretos (IED) no País, em 2005 ante 2004, recuando de US$ 18,14 bilhões para US$ 15,06 bilhões, decorreu da valorização cambial e do baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Os dados fazem parte do Relatório de Investimento Mundial 2006, divulgado nesta segunda-feira pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad).Especialistas brasileiros responsáveis pela divulgação dos dados minimizaram o resultado durante entrevista coletiva. Alegando que a análise não deve se restringir somente à comparação anual, mas deve considerar um período maior de tempo. Assim, observa-se que há dez anos o País está entre as 15 nações que mais recebem IED e, nesse mesmo período, sempre se posicionou entre os cinco maiores receptores entre emergentes."É curioso que o Brasil sempre aparece nos rankings de relatórios de competitividade na posição 100ª. Como tão mal posicionado o Brasil possui o segundo maior estoque de capital estrangeiro, rivalizando com o México?", indagou o diretor de Pesquisa Macroeconômica do Bradesco, Octávio de Barros, um dos encarregados de analisar a pesquisa."O Brasil está bem, mas não tão bem quanto parece", ressalvou o diretor-presidente do Ibmec-SP, Claudio Hadad, falando sobre o patamar de investimentos estrangeiros. "Se investe muito no Brasil porque o País é muito grande, mas em relação ao PIB, nossa média foi de 25%, em 2005, enquanto a dos emergentes foi de 30%", justificou.Além disso, Haddad lembrou que a média anual de IED do País nos últimos quatro anos (2002 a 2005), foi de US$ 15 bilhões, quase a metade da média anual do período exatamente anterior (1998 a 2001), quando atingiu US$ 28,2 bilhões, mesmo com a ressalva de o governo Fernando Henrique Cardoso ter realizado privatizações. "O fato é que registramos perdendo posição relativa", admitiu.Na visão de Octávio de Barros, o País vive uma fase de transição entre modelo de economia fechada para o de abertura comercial, o que poderá atrair mais investimentos sobre uma base já instalada, com avanços nos segmentos de bens de consumo duráveis e não-duráveis, construção civil e demais áreas vocacionadas para a demanda doméstica. Para ele, a China, principal porto de investimentos entre emergentes e que foi o terceiro principal destino em IED em 2005, atrás de Reino Unido e Estados Unidos, tem um crescimento econômico potencializado por partir de uma base zero, na qual todo o sistema produtivo está em fase de instalação."Não vamos nos iludir. É improvável que o Brasil atinja taxa de crescimento de 8% a 9%. Entre 1967 e 1976, o Brasil foi a China de hoje", observou o diretor do Bradesco, citando o período de instalação do parque industrial brasileiro de forma mais acentuada.Os especialistas entendem, entretanto, que o País tem condições de ampliar a recepção de IED se houver avanço nas reformas estruturais. "As reformas são boa idéia, assim como acordo de bitributação, firmado entre o Brasil e outros países, e o financiamento a investimentos externos. O Brasil precisa de política pró-ativa para IED", ponderou o diretor técnico da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), André Costa Carvalho.Entre as reformas, os especialistas citaram a necessidade de o País buscar redução do custo de capital, adequar a carga tributária, aperfeiçoar outras legislações e atrair investimentos em infra-estrutura. "Se o Brasil tivesse avançado em determinadas agendas, talvez atraísse o dobro de IED", pontuou Barros.Haddad também entende haver necessidade de o próximo governo eleito enfrentar a redução dos gastos públicos. "Estamos com gastos atuais da ordem de 43% a 44% do PIB, um patamar de Inglaterra. Esse tema terá que ser aprofundado após as eleições", avaliou o diretor-presidente do Ibmec São Paulo.A despeito dessas necessidades, os especialistas observaram que o Brasil ainda se mostra vantajoso a investimentos estrangeiros por contar com um sistema político "aberto e democrático"; pela política bem-sucedida de controle da inflação; e pelo fato de, "bem ou mal", as instituições brasileiras funcionarem melhor do que a maioria das encontradas nos demais emergentes.

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