Especialistas do IIE descartam colapso do Brasil

As chances de o Brasil nãoconseguir honrar os compromissos de sua dívida externa sãopequenas e as previsões em contrário, que alimentam a atualcrise de confiança dos investidores, refletem a falta deconhecimento de quem as faz sobre a realidade do País e de suasfinanças. Mais: se o candidato do PT ao Planalto, Luiz InácioLula da Silva, vencer defendendo políticas econômicasresponsáveis, convencer os investidores de que as implementará e de fato, o fizer, a taxa de juros no Brasil cairá mais do quecairia com qualquer outro presidente.Essas opiniões dissidentes do atual catastrofismopertecem a dois dos mais conceituados especialistas em finançasinternacionais em Washington: o inglês John Williamson, doInstituto de Economia Internacional (IIE, da sigla em inglês), eo americano William Cline, do Centro de Desenvolvimento Global,que funciona no IIE. Eles conhecem bem o Brasil (Williamson écasado com brasileira), ensinaram em universidades brasileiras edivergem da previsão agourenta de Morris Goldstein, vizinho desala de ambos no IIE, que estimou recentemente em 70% as chancesde o Brasil ser forçado a reestruturar sua dívida até o fim de2003.Cline apresenta três argumentos contra a tese deGoldstein. Ele afirma que seu colega do IIE se equivoca porqueusa indicadores irrelevantes, como a relação entre a dívidaexterna bruta e as exportações de bens e serviços, para montarseu cenário pessimista. "Não é verdade que os indicadores dadívida externa aumentaram fortemente e requerem um default (calote)",disse Cline. "Se você subtrair as reservas do total da dívidaexterna, o que é correto fazer porque as reservas são ativos doPaís, e tomar a relação entre a dívida líquida e as exportaçõescomo parâmetro, verificará que no fim de 2001 ela era de 280%",e não de 400%, como quer Golsdtein, que faz o cálculo com adívida externa bruta. "Isso significa que o Brasil está hojenuma posição externa melhor do que estava na crise de 1998/1999,quando a relação entre a dívida líquida e exportações era de320%, e bem melhor do que em 1987, o ano da moratória, quandoela atingiu 390%." O segundo argumento de Cline é sobre a dívida interna dosetor público. "Se você partir de premissas razoáveis, como umataxa de juros reais de 10%, crescimento de 3,5% no ano que vem eum câmbio de R$ 2,50 por dólar, a relação dívida/PIB retrocederápara 51%, dos atuais 55%", disse o economista. "E se a taxa decâmbio retornar à média das últimas duas décadas, essa relaçãoficará ainda mais favorável, caindo para 47%." Cline disse, ainda, que não se faz sentido usar aArgentina como referência ao se analisar a turbulência que oBrasil enfrenta, como fazem alguns operadores do mercado. "Háuma crise de confiança no curto prazo por causa da grandevantagem de Lula nas pesquisas, e os investidores temem que elenão tenha o mesmo nível de compromisso do atual governo compolíticas macroeconômicas sólidas e o Brasil vá pelo caminho daArgentina", afirmou o economista. "Há um certo risco de essaprofecia auto-realizar-se", acrescentou. Mas, segundo Cline, acomparação não se justifica, por duas razões: em contraste com aArgentina, a maior parte da dívida pública brasileira éfinanciada dentro do Brasil. "Se os investidores estrangeirosse mantiverem longe dos papéis brasileiros por algum tempo, issonão significa que o País não será capaz de honrar ospagamentos", disse Cline. Mas a diferença central, para ele,não está na economia, mas na política. "Eu não creio que aArgentina teria entrado em colapso econômico se não tivessepassado por uma sucessão de traumas políticos", disse ele. "O país tinha um presidente constitucional (Fernando Dela Rúa) que foi tirado do poder por manifestações de rua",lembrou Cline. "Se você acha que isso vai acontecer no Brasil,então Goldstein está certo, mas eu não acho." John Williamson discorda de Goldstein em dois pontos.Ele reconhece que, mantida a atual taxa de juro por muito tempo,será muito difícil para o governo manter os pagamentos da dívida, embora não tenha dúvida sobre a capacidade do governo defazê-lo até as eleições. Mas Williamson concorda com Clinequanto à possibilidade de o País estabilizar a relaçãodívida/PIB com juros reais de 10%. Seu principal argumento provavelmente surpreenderá opróprio PT. Williamson, que em 1989 codificou as políticas dochamado Consenso de Washington, afirmou que se Lula ganhar aeleição "com base numa plataforma econômica racional e optarpor seguir o exemplo de Tony Blair, em vez de seguir o exemplode Hugo Chávez, os mercados respirarão aliviados e a taxa dejuro cairá ainda mais do que normalmente cairia no caso de umavitória do candidato do PSDB, José Serra". Por quê? "Porquedesaparecerá a ameaça de que nas próximas eleições umesquerdista vencerá e repudiará a dívida, que é algo que ajuda amanter os juros altos", disse Williamson. "A começar porGoldstein, parece que não há muita gente pensando nisso."

Agencia Estado,

30 de junho de 2002 | 19h53

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