Especialistas esperavam um PAC mais audacioso

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não é suficiente para desfazer o ambiente de incerteza para o investimento privado em infra-estrutura, segundo o ex-secretário do Tesouro Nacional e ex-presidente do Banco do Brasil, Eduardo Augusto Guimarães.Guimarães contestou em entrevista à Agência Estado a afirmação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao apresentar o PAC de que pode-se esperar 1,5 de investimento privado para cada 1 de investimento público. "Tem que combinar isso com os russos, né?", ironizou, citando frase atribuída ao craque Garrincha diante de instruções técnicas de como fazer gols na seleção russa.O governo emite sinais contraditórios sobre o investimento privado, considera o economista. Ele lembra que neste mesmo mês, o governo decidiu suspender as concessões de rodovias que estavam programadas para ocorrer. "E com tanta gente já preparada para investir em rodovias. Não entendi", afirmou.De acordo com ele, estímulos como a redução de tributos contida no PAC não são tão importantes para o investimento privado em infra-estrutura quanto um ambiente tranqüilo para o longo prazo, com marcos regulatórios estáveis e agências reguladoras. "Como o governo deixa a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) tantos meses sem dirigente? E isso tem acontecido em outras agências também", comenta. Falta de ousadia"Infelizmente, faltou ousadia do governo", disse o economista sênior do Dresdner (DKIB), Nuno Camara. "O PAC anuncia um forte aumento nas despesas, mas não sinaliza cortes agressivos nos gastos." O analista alertou que, se o ambicioso crescimento econômico previsto pelo governo (4,5% em 2007 e 5% nos anos seguintes) não ocorrer, a preocupação com a estabilidade fiscal vai aumentar. "Se a desoneração tributária não for acompanhada pela arrecadação projetada, o quadro fiscal poderá ficar mais difícil", disse.Camara observou que "para um país com uma carga tributária européia" fica difícil se imaginar uma taxa de crescimento superior à dos europeus. Segundo ele, um crescimento econômico maior e duradouro requer, além de uma reforma tributária, mudanças profundas na previdência social. "Não adianta se criar mais um fórum para se discutir a previdência", disse. "O problema já foi discutido exaustivamente e todo mundo sabe que é necessário se fazer uma reforma nessa área." Segundo Camara, o governo "perdeu mais uma excelente oportunidade" de colocar o país numa trajetória mais positiva. ContramãoO economista Paulo Leme, do banco Goldman Sachs, disse que o aspecto mais importante do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) é que ele representa uma mudança da política econômica do governo, para pior. "Com o aumento das despesas do governo, vai crescer a ingerência do Estado na economia", disse Leme à Agência Estado. "O aumento do Estado brasileiro segue na contramão da busca de uma economia mais eficiente, competitiva e com maior capacidade de crescimento."O analista acredita que o impacto do PAC sobre o crescimento econômico poderá ter um efeito de fogo de palha. "Ao aumentar os gastos, é provável que a economia cresça mais rapidamente durante cerca de dois trimestres, mas, sem ajustes fiscais e reformas, acreditamos que o salto no crescimento vai falhar antes do final deste ano", disse.Segundo ele, dos US$ 340 bilhões em investimentos anunciados pelo governo, há muito pouco em recursos novos. Os "recursos confiáveis", observou, são os cerca de US$ 30 bilhões que poderão ser gerados pela elevação do Projeto-Piloto de Investimento (PPI) dos atuais 0,15% do PIB, estabelecido em 2006, para 0,5% do PIB por ano durante o período de 2007 a 2010. "A expectativa de cerca de 40% dos investimentos vindos do setor privado, principalmente através das PPPs (Parcerias Público-Privadas, me parece mais um sonho", disse Leme. "O Brasil continua perdendo oportunidades num ambiente internacional ainda extremamente favorável." Impacto para microeconomiaAs medidas para acelerar o crescimento da economia devem trazer grande impacto para a microeconomia, mas poucas mudanças no que se refere à parte macro, na avaliação do economista-chefe do Banco Pátria, Luís Fernando Lopes. "Veremos impactos microeconômicos muito importantes, mas continuo com dificuldade em enxergar as mudanças para a macroeconomia", comentou.Para o economista, são óbvios os setores que se beneficiarão do PAC), citando as empresas de nova geração de energia e da construção civil. "Estes foram os segmentos que saltaram aos olhos, mas o mercado procurará quais são os setores que ganham e os que perdem com as novas medidas", disse.O principal ponto falho na divulgação do PAC, na avaliação de Lopes, refere-se à falta de diagnóstico em relação ao fraco crescimento da economia nos últimos anos. Ele defende que apenas a partir de um diagnóstico sobre o passado é que o governo teria condições de mapear problemas e de elaborar com mais qualidade um planejamento para o futuro. "A minha avaliação é a de que o governo não sabe por que a economia não cresce", disse. Para o economista do Banco Pátria, há alguns incrementos para a economia no PAC, como a desoneração de tributos de alguns setores específicos, além de investimentos públicos e privados. "Mas é mais do mesmo", resumiu. Sem milagreO PAC "não vai fazer milagre, mas de fato alavanca o crescimento de alguma forma", acredita o diretor do Centro de Economia Mundial da FGV e ex-presidente do Banco Central, Carlos Geraldo Langoni. Entre outros aspectos positivos da apresentação do PAC, Langoni citou a preocupação exposta pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, com os fundamentos da economia. "O programa é factível. O governo não cedeu ao populismo", afirmou.Ele observou que o aumento do investimento público de 0,5% do PIB para mais de 1% do PIB terá algum efeito de crescimento da economia e destacou aspectos que considera positivos como o fato de Mantega ter afirmado que um dos objetivos do PAC é desburocratizar e melhorar o ambiente de negócios.As projeções de Langoni são de que o PIB crescerá 4% este ano, "já cresceria isso sem o PAC", e de 4% a 4,5% no ano que vem se não houver alteração no cenário da economia mundial. Esses números para o aumento do PIB são mais baixos que os usados na tabela de cenários apresentados por Mantega pela qual a dívida pública cairia para 40% do PIB em 2010. Ato políticoO cientista político e pesquisador da PUC e FGV de São Paulo, Marco Antônio Carvalho Teixeira, afirmou que o anúncio do PAC foi um ato político positivo para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Ao contrário de outras ocasiões, o anúncio do PAC não se resumiu a um ato partidário ou de governo, mas contou com a presença de setores importantes da oposição", disse ele, citando como exemplo a presença dos governadores tucanos José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, no evento."O governo Lula desceu do palanque e começa a governar", emendou o cientista político. Apesar da avaliação positiva, no aspecto político do evento, Carvalho Teixeira acredita que as medidas anunciadas ficaram muito "no campo da retórica". Mesmo assim, destaca que "num contraponto ao momento corroído que o governo enfrenta na sucessão à presidência da Câmara dos Deputados, o anúncio do PAC conseguiu aglutinar, num ato simbólico, setores importantes da oposição".Fôlego para investimentoO PAC não trouxe grandes novidades em relação ao que já havia sido apresentado ou noticiado anteriormente. Para economistas do mercado ouvidos pela Agência Estado, se por um lado o pacote veio tímido na questão dos cortes de gastos do setor público, o que já era esperado, por outro as medidas tendem a trazer algum fôlego adicional aos investimentos do setor público e privado, com destaque para a área de infra-estrutura, aumentando o PIB potencial do País. Em que medida se dará tal aumento, ou se alcançará os níveis desejados pelo governo, só o futuro poderá responder. Por enquanto, os números colocados pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega - de 4,5% para 2007 e 5% nos próximos anos - ainda são alvo de ceticismo."O PAC tem muito mais a ver, de fato, com um amplo programa de ampliação dos investimentos, no qual a questão de um orçamento plurianual é muito importante. A questão fiscal acabou ficando muito mais concentrada na esfera disciplinar, em que os cortes de gastos foram remetidos a intenções, discussões e agendas de longo prazo", comenta o economista Fernando Montero, da Convenção Corretora.

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