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Especialistas europeus descartam ajuda financeira ao Brasil

O Brasil necessita de ajuda financeira internacional e tanto os Estados Unidos quanto a União Européia (UE) e o Japão têm obrigação de intervir financeiramente para acalmar o mercado global; mas esta ajuda não chegará. A análise é do especialista em gestão de crises, Jorge Grandi, do Instituto Europeu de Administração Pública de Maastricht (Holanda). Fontes comunitárias e especialistas europeus na área econômica também não vêem a menor a possibilidade de uma eventual ajuda financeira, a curto prazo, por parte do Banco Central Europeu ao Brasil.A análise dos especialistas e fontes comunitárias foi feita a partir da declaração do megainvestidor George Soros, ontem, em uma conferência na London Business School. Soros propôs um esquema inédito de socorro ao Brasil, com a ajuda direta dos bancos centrais norte-americano, europeu e japonês. Ele disse ainda que o único problema no Brasil é a fuga de capitais causada pelo nervosismo em relação à eleição presidencial, o que elevou as taxas de financiamento da dívida a patamares estratosféricos.Fontes comunitárias, diretamente envolvidas com as relações Mercosul-UE, acreditam que seja muito difícil uma participação da UE em tal esquema de apoio financeiro ao Brasil. Primeiro, existe uma questão prática, afirmam essas fontes. Basta levar em conta o que os países da UE, com força de barganha dentro do Fundo Monetário Internacional (FMI), fazem pela Argentina, atualmente em pior situação. "Quase nada para sermos benevolentes?, disse uma dessas fontes.Jorge Grandi faz alerta parecido ao do megainvestidor Soros com relação ao futuro das economias brasileira e argentina. "Estamos vivendo a teoria do caos, que é o bater de asas de uma mariposa na Floresta Amazônica. Começamos com um pequeno sopro que dará força a um vento maior, que empurrará uma árvore, que cairá em cima de uma pequena casa, que derrubará uma outra casa maior.... até chegarmos ao caos, e olha que esta mariposa já está batendo asas há muito tempo", conclui Grandi, que apesar da previsão tão caótica, não acredita que a ajuda financeira internacional acontecerá.Especialistas europeus na área econômica dizem que não haverá nenhuma intervenção externa eficaz, "enquanto não houver vontade local para resolver suas crises". Um desses economistas aponta que o agravamento da situação econômica na Argentina foi pela falta de equilíbrio de responsabilidades entre províncias e o Estado. "Se não existe um critério de disciplina, o FMI tem medo, como fez no passado e hoje todos o acusam, de alimentar um problema maior do que já está feito", afirma um desses economistas.De acordo com o professor de Maastricht, o discurso da "responsabilidade interna" é uma desculpa por uma razão simples: "A América Latina não é prioridade nem para os Estados Unidos, nem para Europa". Os americanos priorizam a luta contra o terrorismo e os europeus têm os países do leste, a Rússia e a África, com todo o ranço da colonização carregada até os anos 80.Não é preciso ir longe para justificar as prioridades européias e norte-americanas. Basta olhar a última reunião do G-8, terminada ontem no Canadá, quando foi anunciado o mais novo "Plano Marshall", versão 2002, desta vez sob medida (de US$ 26 bilhões) para a África e Rússia."O presidente Bush é o único tonto do mundo que prega a prática da globalização e depois quer utilizar instrumentos nacionais para combater suas conseqüências", afirma Grandi. Hoje, em sua opinião, não existem mais fronteiras e nem se fala mais em países, tanto que as crises brasileira e argentina são sentidas como um meteoro no mercado global.Os economistas comunitários concordam com Grandi quanto à inter-relação das economias, mas não compartilham da opinião de que a responsabilidade financeira européia é essencial para a recuperação econômica do Brasil ou da Argentina. "O Brasil passa por um período onde sua crise é amplificada pelo período eleitoral, e infelizmente acaba sendo percebido aqui fora como mais um da lista de crises na América Latina, apesar de ser uma das maiores economias do mundo", afirma um desses economistas.Uma fonte diplomática brasileira disse ainda: "Para o Soros, ´não há desculpas para que a comunidade internacional não ajude o Brasil´; para mim é óbvio que a UE não vai ajudar o Brasil, sem ajudar a Argentina antes. E como justificar essa ajuda ao Brasil? Não acontecerá. Politicamente inviável."

Agencia Estado,

28 de junho de 2002 | 17h36

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