Especialistas já criticam os ''superpoderes'' do BB

Para ex-dirigente do BC, atuação mais agressiva do que a média do mercado pode trazer riscos no longo prazo

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

O Banco do Brasil (BB) está aproveitando as oportunidades criadas pela crise internacional para se expandir. Além da compra da Nossa Caixa e do Banco do Estado do Piauí (BEP), a instituição negocia a aquisição do Banco de Brasília (BRB) e parte do banco Votorantim. Isso sem falar nos R$ 8 bilhões comprados em carteiras de crédito desde que o Banco Central (BC) afrouxou o recolhimento dos depósitos compulsórios para aliviar a situação de instituições financeiras de menor porte. A estratégia do BB, porém, não é vista com bons olhos por muitos analistas. Um ex-dirigente do BC faz duas observações. Em primeiro lugar, nota que o BB avança como se fosse um banco privado, o que pode pôr em risco sua solidez. O segundo ponto é o fato de o BB estar sendo usado como braço do governo para mitigar os problemas provocados pela crise, como o estreitamento do crédito. "A história bancária brasileira mostra que o resgate de bancos públicos custou muito mais para o Estado do que o salvamento de bancos privados", comentou. Na quinta-feira, o presidente do BB, Antônio Francisco de Lima Neto, disse que a carteira de crédito da instituição deve crescer de 20% a 25% em 2009, ante uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de, "no mínimo", 3,5%. A média do mercado, porém, prevê números bem mais modestos. Para o crédito, fala-se de 5% a 10%. Em relação ao PIB, a última pesquisa do BC com analistas projeta 3%, mas já há quem fale em menos do que isso. "Crescer muito mais do que a média do mercado (no crédito) pode sair muito caro lá na frente", alertou o ex-dirigente do BC.Um estrategista de renda variável de uma grande gestora de recursos questiona a ânsia do BB em voltar a ser o número 1 do mercado brasileiro - em termos de ativos, a instituição ainda está atrás do Itaú-Unibanco. "Ser grande não quer dizer nada", afirmou. "O que importa é o banco ter um caixa saudável e ser rentável." Ontem, as ações ordinárias do BB despencaram 14,34%, ante uma queda de 6,45% do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa). Os papéis preferenciais (PN) do Itaú perderam 7,98%, os do Bradesco, 9,65%, e as ações Unit do Unibanco, 9,13%. RESPONSABILIDADELima Neto rechaça as críticas e diz que o BB age com responsabilidade. "Estamos atuando em coisas absolutamente naturais, onde o BB tem um histórico de atuação, sem abrir mão, um milímetro, da boa técnica bancária", disse. Ele também negou que haja uma obsessão do governo com o primeiro lugar do ranking - embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tenha comemorado a compra da Nossa Caixa. "O BB tem um instrumental para buscar as aquisições e oportunidades, mas não vamos comprar o que vier pela frente", ponderou Lima Neto. O economista Luiz Gonzaga Beluzzo, assessor informal do presidente Lula, apóia o fortalecimento do BB. "Um banco público mais forte pode adotar medidas anticíclicas para ajudar a economia do País", disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.