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Preço da energia deve ser pressionado pelo uso das termelétricas a diesel e óleo combustível nos próximos meses. Daniel Teixeira/Estadão

Especialistas veem conta de luz mais cara, mas descartam racionamento

Produção de eletricidade nas usinas térmicas a diesel e óleo combustível é mais cara e obriga o acionamento da bandeira vermelha nas contas de luz

Anne Warth e Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Os consumidores devem enfrentar aumento expressivo nas tarifas de energia nos próximos meses, com o aumento da geração mais cara das termelétricas a diesel e óleo combustível. Pesa ainda na conta o acionamento da bandeira vermelha nas contas de luz, que pode subir para o seu nível mais crítico. Especialistas, porém, ainda não veem risco de um racionamento como o vivido em 2001.

O gerente de Preços e Estudos de Mercado da Thymos Energia, Gustavo Carvalho, reconhece, porém, que pode haver dificuldades em algum momento em que a demanda for mais alta. “Se não houvesse a pandemia de covid-19, poderíamos até entrar no racionamento, mas acho que, em parte, essa situação pressionou o consumo para baixo”, afirmou.

A situação deve pesar ainda mais no bolso dos consumidores, com a perspectiva de acionamento do patamar mais alto da bandeira tarifária nos próximos meses, que adiciona uma cobrança extra de R$ 6,243 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

Para tentar amenizar os efeitos do baixo volume de água nas usinas hidrelétricas, o governo baixou ontem um decreto para regulamentar a realização de um novo tipo de leilão. Essa licitação visa a contratar usinas para aumentar a segurança do sistema elétrico brasileiro e evitar o desabastecimento de energia.

Essas usinas ficarão disponíveis para atender a demanda de energia sempre que houver necessidade e devem repor a intermitência das fontes renováveis como o vento e o sol, que dependem de fatores naturais para atender as diferentes necessidades.

Os custos para contratação dessas usinas serão rateados entre todos os consumidores, por meio de um novo encargo na conta de luz, chamado Encargo de Potência para Reserva de Capacidade, e será proporcional ao consumo.

Para o presidente da consultoria PSR, Luiz Barroso, o governo tem um arsenal de medidas para lidar com o momento. Segundo ele, a declaração de emergência hídrica serve justamente para dar transparência à necessidade dessas ações. “Naturalmente, isso liga um alerta, e o governo precisa começar a se preparar para garantir o atendimento. Vejo a declaração de emergência hídrica como algo positivo, pois, ainda que a mensagem não seja boa, é transparente”, afirmou Barroso.

Já o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Adílson de Oliveira é crítico em relação à postura que o governo federal tem adotado frente à crise nos reservatórios. “São medidas de quem ainda não tomou a devida preocupação com a dimensão do problema. Estão tentando ainda ver se conseguem empurrar um pouco o problema com a barriga”, afirmou. Na avaliação do professor, a restrição do uso de água para outros fins, como para agricultura, é “preocupante”.

Para ele, o governo deveria considerar medidas semelhantes às tomadas no racionamento de energia em 2001. Ele defende que haja uma negociação com grandes consumidores de energia, como as indústrias, para a redução do consumo do insumo. Em contrapartida, o governo compensaria as eventuais perdas. “O custo para a sociedade dessas compensações é muito menor do que o custo de não ter energia nas residências e nos pequenos comércios.”

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ONS pede redução drástica de água em usinas para evitar caos no Sudeste e Centro-Oeste

Abastecidas pelo Rio Paraná, hidrelétricas das duas regiões respondem por 53% da geração de energia do País; medida busca manter volume de água dos reservatórios

André Borges, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

BRASÍLIA – As atenções de todo setor elétrico se voltam, neste momento, para o nível dos reservatórios localizados na bacia do Rio Paraná. É nesta região que estão localizadas as principais barragens que abastecem todo o Sudeste e Centro-Oeste do País, com dezenas usinas espalhadas pela calha principal do Rio Paraná e pelos rios que compõem a sua bacia, como Paranaíba, Grande, Tietê e Paranapanema. Sozinha, a bacia do Paraná responde por 53% da capacidade nacional de geração de energia do País. Seu cenário, no entanto, é crítico.

Se considerado o volume total de água armazenada hoje na bacia do Paraná, a quantidade chega a apenas 27% de sua capacidade plena. Esse é o segundo pior nível de armazenamento dos últimos 21 anos nesta bacia. Não por acaso, o governo emitiu alerta de emergência hídrica para os cinco Estados banhados pelos rios: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.

Para tentar amenizar a situação e riscos de desabastecimento, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) decidiu que deverá ser liberada uma quantidade mínima de água nas barragens das hidrelétricas de Jupiá, localizada entre as cidades de Andradina e Castilho (SP) e Três Lagoas (MS); e Porto Primavera, na divisa dos municípios de Rosana (SP) e Batayporã (MS). Dessa forma, preserva-se mais água para atravessar o período seco. A questão é o impacto que essa redução pode trazer, seja ao meio ambiente e ao transporte fluvial, além de impactar na receita das donas dessas usinas.

Em condições normais, o mínimo de água que Jupiá tem que liberar é de 4.000 metros cúbicos por segundo (m³/s), enquanto Porto Primavera tem como regra o mínimo de 4.600 m³/s. Desde o fim do ano passado, o ONS tem determinado novas restrições de liberação de água. Agora, porém, impõe decisões drásticas. Em um pedido enviado ao Ibama na semana passada, o órgão afirma que, a partir de julho, a liberação de Jupiá não poderá ultrapassar 2.300 m³/s. Em Porto Primavera, a decisão é restringir a liberação a 2.700 m³/s.

“É imprescindível a redução das vazões mínimas a serem praticadas no trecho do baixo Paraná”, afirma o ONS. Essa redução, segundo o Operador, "proporciona benefícios aos aspectos socioambientais em relação a uma condição natural da bacia do rio Paraná, caso se chegue na situação em que não haja nenhuma capacidade de regularização das vazões pelos reservatórios da bacia”.

Questionado sobre o assunto, o ONS declarou, por meio de nota, que as ações “visam reduzir o risco da perda do controle hídrico” na bacia do rio Paraná. “Todas as medidas serão tomadas a partir de junho com o objetivo de garantir a devida governabilidade das cascatas hidráulicas, inclusive quanto à preservação do uso da água, ao longo do período seco de 2021”, declarou.

O operador afirmou que tem sinalizado, desde 2020, “uma situação hidrológica bastante adversa, com uma escassez hídrica que não permitiu a total recuperação dos níveis dos reservatórios no período de outubro de 2020 a março de 2021, ainda que desde outubro do ano passado, com autorização do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), estivéssemos atuando em diversas frentes e adotando medidas preventivas”.

Novas regras

Além de Jupiá e Porto Primavera, o ONS informou que as hidrelétricas de Ilha Solteira, Três Irmãos, Xingó, Furnas e Mascarenhas de Moraes também passarão a ter novas regras de liberação de água. “Todas estas deliberações serão apreciadas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e, posteriormente, encaminhadas ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), por se tratarem de importantes iniciativas para manterem a segurança no abastecimento e no atendimento eletroenergético”. 

A empresa CTG Brasil, dona de Jupiá, declarou que “tem conhecimento da sensível situação” e vem colaborando com o ONS e demais órgãos “para que seja mantida a governabilidade das cascatas hidráulicas” no País.

“A empresa está desenvolvendo um Plano de Ação para viabilizar a redução controlada de vazão na UHE Jupiá, tendo por premissa o monitoramento e mitigação de possíveis impactos ambientais. Tal plano inclui pedido de participação dos órgãos governamentais nas ações. A empresa reforça que cumpre rigorosamente as Leis e demais normas vigentes no País e aguarda a determinação dos órgãos competentes em relação ao tema”, informou.

A Cesp declarou que “reconhece e se sensibiliza com o cenário de crise hídrica vivida em âmbito nacional e vem colaborando ativamente com todas as solicitações do ONS e demais órgãos públicos, inclusive com reduções de vazão na usina hidroelétrica de Porto Primavera, já realizadas a pedido do próprio ONS, após aprovação do Ibama, sempre visando assegurar o melhor uso múltiplo da água”.

A empresa também prepara um plano de trabalho de testes para avaliação conjunta de nova redução da vazão desta usina. “A Cesp reitera a importância de suas premissas socioambientais e assegura cumprir rigorosamente as leis brasileiras.”

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Produtores de grãos já falam em perdas causadas pela falta de chuvas no País

Escassez afeta segunda safra do milho e também a colheita de feijão e trigo; em Goiás, secretaria recomenda estocar água para a irrigação

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

Com produção nacional estimada em 271,7 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de grãos de 2020/21 está sendo ameaçada pela falta de chuvas em várias regiões do País. A seca afeta principalmente o milho da segunda safra, o feijão e o trigo. A soja e o milho da safra principal já tiveram a colheita praticamente encerrada. Mesmo com a previsão de safra recorde, os técnicos da Conab preveem uma queda mínima de 2,1 milhões de toneladas por causa do plantio do milho fora da janela ideal, em razão da baixa ocorrência de chuvas.

Em todo Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais, na maior parte do Paraná e no sudoeste paulista, a média de chuvas ficou pelo menos 30% abaixo do esperado. “Estamos com baixo volume de chuvas nos últimos 60 dias e as lavouras de milho já apresentam perdas significativas de produção. Posso dizer que, em 40% da área cultivada, vou salvar a metade da produção esperada. No restante, as perdas serão maiores do que 60%”, disse o produtor Valdir Fries, de Itambé, no Paraná.

Segundo ele, houve uma ocorrência de chuva com baixo volume em meados de abril e outra chuva fraca há 15 dias, insuficiente para melhorar as reservas hídricas do solo. O Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral) disse que muitos produtores rurais já estão acionando o seguro em função das perdas na segunda safra do milho, também conhecida como safrinha. Na região de Apucarana, sindicatos rurais mobilizam os produtores para o recebimento dos seguros. 

Na região de Capão Bonito, interior de São Paulo, a escassez de chuvas também preocupa os agricultores. “Aqui tem acontecido chuvas com pouco volume, menos do que nos anos anteriores, mas ainda não houve um impacto muito forte nas lavouras. O problema é que as nascentes estão fracas para o uso de irrigação, quando ela for necessária”, disse o produtor Emílio Kenji Okamura.

No sudoeste paulista, a falta de chuvas causou redução de 23% na área cultivada com o feijão. Quem plantou, enfrentou problema com a estiagem. “Esperava colher 80 sacas (60 kg) por hectare, mas não vou chegar a 40. O feijão começou com bom desenvolvimento, mas faltou chuva na floração e as vagens não encheram como se esperava”, disse o agricultor João Floriano, do município de Itaberá. A colheita está prevista para a primeira quinzena de junho.

No Estado de Mato Grosso, segundo monitoramento da Conab, a falta de chuvas já afeta a safra de milho, mas as lavouras ainda podem se recuperar se houver a regularização do clima. Em Mato Grosso do Sul, no entanto, as perdas já são irreversíveis. Pelo menos 75% das lavouras já apresentam perdas, que ainda podem se tornar mais severas. Nas lavouras do produtor Higino Hernandes, de Rio Verde, a quebra na produção passa de 50%. “As plantas que estão no enchimento de grãos e não encontram umidade no solo produzem espigas pequenas, com grãos chochos”, afirmou.

Em Goiás, além das perdas já ocasionadas pela falta de chuvas, o prolongamento da estiagem prejudica a reserva de água para irrigação. A Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) está orientando os agricultores a estocarem água em tanques e bacias de contenção. “As chuvas têm vindo fortes, mas escassas e a água mais escoa do que infiltra no solo. Temos de aproveitar essa água e fazer o uso racional para irrigação”, disse o gestor de agricultura irrigada, Vitor Hugo Antunes.

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Adriano Pires: Setor elétrico precisa de soluções de curto prazo e longo prazo para evitar pesadelos

Atual situação do setor elétrico no Brasil interessa aos que se beneficiam com a alta volatilidade dos preços da energia

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 04h00

Há algum tempo, temos procurado chamar a atenção sobre a necessidade de uma nova visão para o planejamento do setor elétrico. As nossas preocupações têm como alvo as tarifas crescentes, os subsídios e a segurança de abastecimento. Faz tempo que cometemos erros recorrentes e temos tido a sorte de nos safar de apagões elevando as tarifas, sempre ajudados pela falta de crescimento econômico.

Temos um problema de potência e o planejamento do governo insiste na solução vinda das energias intermitentes e das linhas de transmissão. Diagnóstico equivocado que tem promovido grandes volatilidades nos preços e pode levar a apagões. Neste ano o pesadelo voltou e parece que de uma maneira mais forte. No fim de maio os níveis de reservatório deverão ser de 31,7%, isso é pelo menos 4,6 pontos abaixo da mínima histórica. Em 2019 e 2020 choveu muito em fevereiro, março e abril, com isso os reservatórios ainda aumentaram o nível. O que não foi o caso em 2021. Se considerarmos a média dos últimos 16 anos, já no fim de agosto poderemos estar com o nível abaixo de 20% e poderemos alcançar valores muito abaixo de 10% a partir de outubro. Isso tem levado a um estresse na operação do sistema de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Portanto, precisamos tomar providências de curto prazo e soluções estruturais devem ser implementadas para evitar pesadelos futuros. Mas agora estamos em urgência. E o que fazer no curto prazo? Primeiro, deixar que os preços indiquem a real situação do setor elétrico. Na realidade, hoje nem o PLD a R$ 250/MWh nem a bandeira vermelha nível 1 retratam a realidade do setor elétrico. O correto é o PLD no seu nível máximo e deveríamos estar em bandeira vermelha nível 2 desde o início de abril. Além do mais deveríamos, também, já estar despachando todas as usinas não hidrelétricas na capacidade máxima, inclusive as a diesel. Como foi feito em 2014/2015 quando tivemos um cenário parecido com o atual.

E a médio e longo prazos. O que fazer? A MP da Eletrobrás (1031) ao propor a implantação das térmicas a gás, com geração mínima de 70%, conta com mecanismos de financiamento de longo prazo, diluindo seu custo no tempo, trazendo os seguintes principais benefícios:

  • Redução das despesas com o acionamento das térmicas a óleo e diesel, sistematicamente despachadas, fora da ordem de mérito de custo, para garantia energética;
  • Elevação dos níveis dos reservatórios, aumentando sobremaneira a garantia do suprimento de energia e potência, permitindo o uso racional dos reservatórios, preservando a capacidade de atendimento não apenas do setor elétrico, como também do consumo humano, das atividades de lazer, indústria e agricultura;
  • Redução do impacto das bandeiras na conta do consumidor cativo e maior estabilização dos preços da energia a curto prazo e médio prazo, permitindo que o modelo de formação de preços de curto prazo dê o sinal econômico mais próximo da realidade;
  • Redução da necessidade de geração hidrelétrica para atendimento à demanda, porém com menor impacto financeiro, por causa de uma redução e menor volatilidade do PLD;
  • Aumento da segurança elétrica, com a implementação de geração térmica próxima aos centros de consumo, deslocando os acionamentos de termoelétricas a óleo, muito mais caras, por motivos de energia ou restrição elétrica, seja em regiões remotas ou ainda para equacionar a oferta na ponta da demanda;
  • Garantir a segurança do abastecimento possibilitando o contínuo avanço das fontes renováveis, intermitentes e sazonais, como eólica e solar;
  • Dar uma proteção necessária ao crescimento econômico do País e a potencial eletrificação dos meios de transporte;
  • Permitir a participação equilibrada de todos os consumidores, na estrutura de custo necessária a garantir o abastecimento de energia;
  • Matriz elétrica mais limpa com a substituição de térmicas a óleo por gás natural.

A quem interessa a manutenção da atual situação do setor elétrico? Aos que se beneficiam com a alta volatilidade dos preços da energia e àqueles que querem manter a anomalia onde os pequenos consumidores subsidiam os grandes consumidores.

*DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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