Joel Silva/Estadão
Na represa de Marimbondo, em São Paulo, gado pasta em local onde a profundidade da água deveria ser de 20 metros. Joel Silva/Estadão

Especialistas defendem volta do horário de verão para 'pequena' economia de energia em meio à crise

Medida, extinta por Bolsonaro há dois anos, é vista como uma forma de ajudar no enfrentamento da atual crise hídrica, além de também aliviar o bolso do consumidor; setor de bares e restaurantes apoia possibilidade

Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 19h43

BRASÍLIA - Dois anos após ser extinto pelo presidente Jair Bolsonaro, o horário de verão volta à discussão como forma de poupar energia diante da maior crise hídrica que o País enfrenta. Para os especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, o mecanismo pode atenuar um pouco o consumo de energia e aliviar o bolso dos consumidores, que viram o preço da energia explodir. Estimativa aponta que com o adiantar do relógio em uma hora, o consumidor poderia poupar cerca de R$ 500 milhões.

Criado com a finalidade de aproveitar o maior período de luz solar durante a época mais quente do ano, o horário de verão foi instituído no Brasil em 1931 pelo então presidente Getúlio Vargas e adotado em caráter permanente a partir de 2008. Mas, mudanças nos hábitos do consumidor e avanço da tecnologia reduziram a relevância da economia de energia ao longo dos anos. Esse foi o argumento usado pelo governo para extinguir a medida em abril de 2019.

À época, estudo do Ministério de Minas e Energia (MME) apontou que não havia mais economia de energia tão relevante. Isso porque como o calor é mais intenso no fim da manhã e início da tarde, os picos de consumo aumentam nesse horário durante o verão, o que leva as pessoas a usarem mais o ar condicionado.

Na ocasião, o então presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Eduardo Barata, afirmou que pelo motivo de a economia de energia ser pequena, não seria um grande problema extinguir a medida para o setor elétrico. Apesar desse diagnóstico, o ONS não recomendou a extinção do horário de verão, já que a equipe também considerava os ganhos inegáveis para outros setores e para a população. Dois anos depois, e em meio a uma crise hídrica, Barata defende que a mudança nos relógios volte a ser analisada pelo governo.

“Acho que tem que estudar essa alternativa. Tanto o ONS, como o governo, devem considerar uma hipótese plausível. [A economia] era pouca naquela situação, em uma situação como a que estamos vivendo hoje, o pouco pode ser muito. Não acho que deve adotar de pronto, nem descartar de pronto. Tem que analisar”, afirma. “Não é vergonha nenhuma voltar com a medida”.

A redução da economia do horário de verão começou a ser percebida e questionada em 2017, quando foi registrada uma queda de consumo da ordem de 2.185 megawatts, equivalente a cerca de R$ 145 milhões. Em 2013, a economia havia sido de R$ 405 milhões, caindo para R$ 159,5 milhões em 2016, uma queda de 60%.

Bares e restaurantes pedem a volta

Para Cláudio Frischtak, sócio da consultoria financeira Inter.B,  a decisão do governo foi "arbitrária", e não considerou o impacto do horário de verão em demais áreas, como no índice de criminalidade e para segmentos da economia que dependem da presença do pública para faturamento, como bares e restaurantes. 

O setor estima que a volta do horário de verão pode dobrar o faturamento no período da noite, horário de maior movimentação de clientes por conta do “happy hour”. A estimativa é da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) que, em parceria com outras entidades empresariais, pleiteia a retomada do mecanismo após amargarem prejuízos com as medidas de isolamento devido à pandemia da covid-19.

O pedido foi apresentado no início deste mês, mas o único retorno até o momento é que foi encaminhado para análise dos ministérios do Turismo e de Minas e Energia. O movimento atraiu até mesmo o empresário bolsonarista Luciano Hang, que afirmou que o fato de ganhar uma hora durante o dia “faz com que a roda da fortuna gire mais e influencia positivamente toda a economia.”

“Qualquer economia, do ponto de vista de energia, seria positivo nesse momento, da mesma forma para o nosso setor. Mesmo de portas abertas, ainda temos mais da metade das empresas operando com prejuízos. Fomos um setor muito maltratado pela pandemia”, afirma o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci. Segundo dados da associação, hoje 64% das empresas dizem ter pagamentos em atraso. Entre as principais dívidas estão: impostos, fornecimento de água, luz e gás, aluguel, FGTS dos colaboradores e fornecedores.

'É pouco, mas é economia' 

Frischtak afirma que a extinção do horário de verão foi feita em um momento em que o consumo de energia elétrica não era tão crítico como hoje por conta da crise hídrica, que deve se prolongar até os próximos anos.  "O que se alegou em 2019 era que a redução de consumo era relativamente pequena. Na época, era algo em torno de R$ 140 milhões, e que não valia o desconforto que causaria às pessoas que acordam cedo e vão trabalhar ainda no escuro”, afirma. “Temos  uma situação de escassez enorme e vamos ter esse problema neste ano, ano que vem e não sabemos até quando, e o preço da energia aumentou muito. Nossas estimativas é que hoje poderia poupar para o consumidor, por conta do horário de verão, cerca de R$ 500 milhões”, afirma.

O ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e professor de planejamento energético da UFRJ, Maurício Tolmasquim, também defende a volta do horário de verão, mesmo que seja apenas neste ano. “Naquela uma hora a mais de luz do sol está economizando um pouco de energia. É pouco, mas é uma economia.  Em condições normais pode se discutir as vantagens e desvantagens de ter essa mudança,  mas no momento em que estamos vivendo, que estamos acionando térmicas caríssimas e o governo negociando com a indústria para deslocar o consumo, cada megawatt economizado é importante”, disse.

Apesar da avaliação de especialistas e pleitos de alguns setores, o governo não indica nenhuma possibilidade de retomar a medida. No início do mês, o presidente Jair Bolsonaro defendeu o fim do horário de verão em conversa com apoiadores. Sem mostrar dados, ele afirmou que “a maioria é contra”. "Horário de verão foi comprovado que não tem ganho financeiro, e a maioria é contra porque mexe no relógio biológico da pessoa", afirmou.

O Ministério de Minas e Energia afirmou, em nota, que a contribuição do horário de verão é “limitada”, tendo em vista a mudança no hábito de consumo de energia da população nos últimos anos, deslocando o maior consumo diário para o período diurno. “No momento não identificamos que a aplicação do horário de verão traga benefícios para redução da demanda”, diz a nota.  Sem detalhar possíveis ações, a pasta informou  que tem estudado iniciativas “que visam o deslocamento do consumo de energia elétrica dos horários de maior consumo para os de menor, de forma a otimizar o uso dos recursos energéticos disponíveis do Sistema Interligado Nacional”.

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ONS indica que aumento de demanda pode levar a esgotamento de energia em novembro

Alerta foi feito devido à perspectiva de aumento no consumo, puxado pelos setores de comércio e serviços, associado a estimativa mais “realista” sobre a quantidade de térmicas disponíveis para geração de energia

Marlla Sabino e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 15h57

BRASÍLIA - Frente ao cenário crítico da crise hídrica nos reservatórios, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicou que pode haver um "esgotamento" de praticamente todos os recursos energéticos em novembro, no fim do período sem chuvas. O alerta foi feito devido à perspectiva de aumento no consumo de energia nos próximos meses, puxado pelos setores de comércio e serviços, associado a uma estimativa mais “realista” sobre a quantidade de usinas termoelétricas efetivamente disponíveis para geração de energia.

De acordo com nota técnica emitida pelo órgão na quinta-feira, 22, os níveis de armazenamento dos reservatórios devem chegar perto do limite no fim do ano, principalmente nos subsistemas Sul e Nordeste. No pior cenário previsto pelo órgão, o País precisaria de importação de 2 gigawatts (GW) de energia para suprir a potência de energia elétrica e garantir o abastecimento.

Além do crescimento da demanda pelos setores de comércio e serviços, a manutenção do ritmo elevado das indústrias, principalmente daquelas voltadas para a exportação, elevaram a perspectiva de demanda de energia para os próximos meses. Os dados sobre a disponibilidade de térmicas também foram revisados, já que as usinas podem estar indisponíveis por diferentes motivos.

“Neste estudo prospectivo foi considerada uma disponibilidade termelétrica reduzida em comparação àquela considerada nos estudos anteriores, porém mais realista caso as ações no sentido de aumento da disponibilidade energética não alcancem o resultado esperado”, aponta o ONS.

As atualizações nas previsões já abrangem as medidas estabelecidas para reter mais água nos reservatórios das hidrelétricas e considera o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) para 4,5% ao ano -em vez dos 3% ao ano usado parâmetro no estudo anterior. “Essa nota técnica traz premissas mais realistas e alinhadas com o momento econômico atual e as condições conjunturais do SIN”, informou o órgão, em nota divulgada.

Diante do cenário, o ONS apresentou uma série de recomendações para atenuar as consequências da escassez de água. Entre elas a avaliação, em conjunto com a Agência Nacional de Águas e Saneamento (Ana), do uso de reservatórios das hidrelétricas das bacias do Rio Grande e do São Francisco para garantir o fornecimento de energia no País e a aplicação de medidas para aumentar a disponibilidade de energia termelétrica.

Essas medidas, diz a nota, incluem a antecipação, em alguns meses, da entrada em operação de termelétrica GNA I, localizada em São João da Barra (RJ) e movida a gás natural. As sugestões incluem ainda o “gerenciamento de manutenções programadas” de térmicas e o aumento da contratação de energia de térmicas Merchant (ou seja, que não possuem contrato fixo de geração e, por isso, são mais caras) e a ampliação da importação de energia do Uruguai e da Argentina.

Apesar das previsões, o ONS ressaltou que, nos dois cenários analisados, “não há risco de desabastecimento elétrico, mesmo diante das piores?sequências hidrológicas de todo o histórico de vazões dos últimos 91 anos”. O órgão informou que, embora o estudo indique que até o fim de 2021 a situação permanecerá sensível, continuará acompanhando os desdobramentos das ações já em curso e atuando dentro de suas atribuições para aumentar a oferta das fontes de energia e “garantir que não haja a suspensão do suprimento elétrico".

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