Especulação imobiliária foi símbolo do crescimento

A explosão da bolha do mercado imobiliário nos Estados Unidos, em 2007 e 2008, marcou o início do fim de um ciclo de ouro da Espanha. Desde o início dos anos 90, a economia espanhola vivia um período ininterrupto de expansão que transformou o país e suas empresas em um eldorado na Europa. Mas o peso exagerado da construção civil na economia agora expõe as fragilidades de um mercado pouco produtivo e competitivo e defasado na exploração de alta tecnologia.

Andrei Netto, MADRI, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

O crescimento espanhol acentuado entre 1990 e 2007 se deveu em grande parte à transferência de recursos dos Fundos de Coesão e Estruturais da União Europeia, que beneficiaram em especial, e por mais de uma década, três países: Espanha, Portugal e Grécia.

Os recursos foram decisivos para que a Espanha vivesse nos anos 90 seu "milagre econômico". O aumento abrupto dos recursos para obras públicas estimulou uma pujante indústria da construção civil, que se expandiu valendo-se de vitrines como a Olimpíada de Barcelona e a Exposição Universal de Sevilha, em 1992. A partir de então, o país viveu um boom de consumo, também motivado pela alta das bolsas e dos bens imobiliários.

O resultado mais imediato foi a aceleração do Produto Interno Bruto (PIB), acompanhado pela redução da dívida - ainda hoje sob controle, em 53,2% do PIB -, a inflação abaixo de 3% e a redução do desemprego, que nos anos 90 caiu de 24,4% para 15% no intervalo de três anos.

Os problemas começaram com a entrada dos países do leste na União Europeia, reduzindo o volume de recursos do bloco. Com isso, caíram os investimentos em obras de infraestrutura e de meio ambiente financiadas pelos países mais ricos do bloco.

Sem o Estado como cliente, a construção civil e o setor financeiro voltaram-se para o espanhol comum. Na Espanha, a taxa de proprietários de imóveis gira em torno de 80% - uma das mais elevadas do mundo. O efeito colateral: em 2005, às vésperas da explosão da bolha, a dívida acumulada das famílias espanholas pela compra de imóveis chegava a ? 651 bilhões e crescia ao ritmo de 25% desde o início da década.

O resultado da especulação imobiliária foram sete trimestres consecutivos de crescimento negativo, interrompidos na última quarta-feira, quando o PIB do país no primeiro trimestre de 2010 foi anunciado: 0,1%. Porém, no apanhado dos últimos 12 meses, a Espanha segue em contração: -1,3%.

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