MARCOS BRINDICCI | REUTERS
MARCOS BRINDICCI | REUTERS

Esperança sobre Macri vira pressão

Alta expectativa põe em risco estratégia do presidente argentino, pois as previsões macroeconômicas não sustentam otimismo inicial

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2016 | 20h52

Em três meses, o presidente argentino, Mauricio Macri, cortou impostos de exportações, reduziu a burocracia para importações, subiu a tarifa de energia, demitiu funcionários públicos e liberou a compra de dólares controlada desde 2011. Arrancou elogios do FMI e das potências ocidentais das quais Cristina Kirchner isolou o país. Até agora, as palavras que encheram investidores de esperança vieram acompanhadas de planilhas com previsões macroeconômicas que não sustentam tal otimismo.

O prognóstico para este ano é de crescimento baixo ou leve recessão, queda no emprego e – o que preocupa o governo bem mais do que sua imagem no exterior – uma inflação que superou 12% nos últimos três meses. O Estado consultou três economistas de diferentes linhas sobre uma possível melhora no cenário após o ajuste de Macri. Todos afirmam que seria impossível ter resultados neste período, embora apontem diferentes razões para isso.

Para o consultor José Luis Espert, defensor do menor Estado possível, Macri errou ao fazer o ajuste progressivo que prometeu na campanha. “Se você herda uma situação terrível como essa e escolhe ajuste gradual, não há nenhuma chance de que tudo mude 100%. Com um grande acordo político de empresários, de sindicatos e apoio externo, ele poderia fazer um ajuste muito mais forte do gasto público”, defende Espert.

Para ele, o primeiro setor a se beneficiar das medidas de Macri – algo apontado também por críticos do presidente – será o agronegócio. O presidente removeu as taxações de todos os produtos agropecuários e reduziu a da soja de 35% para 30%. “Em um país agroexportador, comprar uma briga com o campo não tinha sentido”, diz Espert, referindo-se à posição de Cristina. Em 2008, ela teve sua maior queda de popularidade ao tentar ampliar as taxas sobre os produtores rurais, ano em que começou seu enfrentamento com o Grupo Clarín.

Ao contrário do que difunde uma corrente distribuída por macristas brasileiros em redes sociais, essa diminuição dos impostos decretada por Macri não foi a responsável pelo aumento de arrecadação de 38,5% em janeiro em relação ao mesmo mês do ano passado. O ingresso extra deveu-se ao recolhimento de taxas de seguridade social e ligadas ao consumo.

Recorde mundial. “A arrecadação cresce porque a inflação é alta, nada a ver com impostos. Mas é preciso esperar abril para ter um número confiável. O núcleo da inflação é hoje de 12,5%, o que significaria uma taxa anualizada de 34%. É quase de recorde mundial”, avalia Espert. Ele ressalta que houve uma desvalorização de 30% na moeda e algumas tarifas de luz subiram seis vezes com o corte de subsídios.

“É óbvio que haveria um salto de preços. A pessoas precisam saber que até que saia o sol vai levar um tempo”, avalia o economista, que aponta como acertos de Macri se reaproximar “do mundo civilizado, de Davos, do FMI” e encaminhar o acordo rápido com os holdouts, detentores de títulos que não aceitaram a renegociação de 2005 e 2010 e bloquearam o acesso da Argentina ao mercado de crédito internacional.

A economista Marina Dal Poggetto também saúda o acerto recente para pagar US$ 4,6 bilhões aos mais resistentes “fundos abutres”, mas critica Macri por ter acelerado demais as reformas. Ela trabalha no do Estudio Bein, que assessorou o candidato kirchnerista Daniel Scioli na última campanha. “Os atrasos cambial e tarifário eram insustentáveis, mas mexer nos dois como fizeram acelerou a inflação no curto prazo”, opina.

A pior consequência da disparada dos preços – o quilo da carne a 100 pesos (R$ 25) já causou reclamações do próprio Macri – é a pressão sobre os reajustes salariais definidos este mês pelas categorias. As negociações costumam ser lideradas por sindicatos com forte capacidade de mobilização. Caso eles consigam reposição superior a 30%, como anunciaram sob ameaça de “parar o país”, a tendência é que a meta macrista de 25% de inflação seja superada.

“De dezembro a dezembro, é impossível alcançá-la. A economia está caindo e a inflação está subindo porque tentaram uma correção soltando o dólar e deixando o mercado controlá-lo diretamente”, diz Marina.

Em três meses, o dólar manteve-se estável em 13 pesos, mas no último mês saltou para 16. Foi controlada pela mudança na taxa de juros, que passou de 29% para 37%. “Na Argentina, diferentemente do Brasil, o preço do dólar é repassado rapidamente para os preços”, disse.

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