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Esperanças de Bolsonaro

Generais tendem a olhar para trás de forma mecânica, tentando repetir um passado que nunca foi tão bem-sucedido como têm em mente

Albert Fishlow*, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2021 | 04h00

Generais não costumam ser bons líderes políticos em democracias funcionais. Essa regra é ainda mais válida para oficiais aposentados, principalmente os de baixa patente. Há uma razão simples. Eles tendem a olhar para trás de forma mecânica, tentando repetir um passado que nunca foi tão bem-sucedido como têm em mente. Por natureza, não são tão flexíveis ou criativos em resposta às mudanças - tanto internas, quanto externas - no ambiente.

Os militares têm forte preferência pela simplicidade. Até mesmo em combate, embora algumas estruturas talvez sejam novas, a preferência por regras pré-determinadas prevalece. A capacidade política para responder exige muito mais flexibilidade e alcance intelectual mais amplo.

O presidente Bolsonaro, com sua dependência da ajuda militar para alcançar seus objetivos, é um exemplo. O Brasil paga um preço considerável. Veja as últimas semanas, a euforia de suas vitórias e o sentimento de apoio de sua base versus os contínuos retrocessos e perdas públicas em confrontos com o Judiciário, o Congresso e a imprensa.

Ele participará da Assembleia Geral da ONU mesmo se for necessário comprovar que se vacinou contra a covid-19 ou haverá uma saída sutil para exibir seu senso de orgulho de integridade e individualismo? Agora que seu candidato evangélico ao Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-ministro da Advocacia-Geral da União (AGU) André Mendonça, ainda não foi nem sabatinado, buscará um caminho de consideração cuidadosa de alternativas? Ou irá atrás de seu leal defensor, o procurador-geral da República, Augusto Aras? Vai contrariar Paulo Guedes e Arthur Lira e continuar com aumentos maiores para o Bolsa Família apoiando o não pagamento das dívidas judiciais? 

E ele continuará a insistir em recibos impressos de votos, tendo aprendido com a derrota de Trump a importância de uma melhor prova da vitória com cédulas preparadas a seu favor? Apesar de a proposta já ter sido arquivada, a ameaça final de Bolsonaro - um golpe apoiado pelos militares - continua a ser uma possibilidade dramática.

A alta inflação deste ano e a recuperação parcial das perdas de 2020 aumentaram as receitas do governo e garantiram redução na porcentagem da dívida externa em relação à receita? Mas um agora independente Banco Central (BC) continua a aumentar as taxas de juros. Déficits fiscais maiores e uma dívida crescente pressionarão a economia em 2022. As previsões de expansão real têm caído nos Relatórios Focus do BC. E, à medida que o crescimento diminui, o mesmo acontece com as perspectivas de investimentos estrangeiros para impulsionar as insuficientes poupanças públicas do País. O desemprego permanece elevado.

A manifestação da última semana a favor do impeachment foi menor do que a multidão pró-Bolsonaro reunida em locais como Brasília e São Paulo. Mas agora oito partidos de oposição se uniram para apoiar atos unificados em outubro e novembro. Usarão o longo relatório a ser divulgado pela CPI da Covid como base para reunir o apoio.

Outra questão em breve turvará as águas: as mudanças climáticas. O Brasil tem sido uma grande figura ausente no tema, apesar de seu papel fundamental na região da Amazônia e as consequências negativas da escassez de água com um menor abastecimento dos reservatórios do que em 2001. Isso ajudou a eleger Lula em vez de Serra.

Depois de pressionar por transferências maiores de recursos dos países desenvolvidos, Bolsonaro mudou de tom. O Brasil esteve ausente da última reunião de líderes convocada por Biden com a ONU, cujo relatório sobre as perspectivas para a próxima reunião durante a COP-26 em Glasgow causou preocupação. Apesar dos esforços atuais do Itamaraty em sugerir que os números mensais de áreas verdes perdidas estão melhorando, os históricos indicam o contrário.

Analistas independentes, no geral, discordam da esperança de que isso possa abalar a imagem de Bolsonaro contra Lula. Nenhum dos demais candidatos de oposição consegue altas porcentagens de apoio. Onde está o Biden, ou a Merkel ou o Macron ou o Trudeau do Brasil?

O New York Times publicou na sexta-feira que os partidos de centro-esquerda talvez estejam voltando a dar as caras no cenário mundial. Tanto a extrema direita, quanto a esquerda muito progressista deram lugar a novos candidatos e partidos. Talvez o Brasil ainda possa desfrutar de um desfecho favorável. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE

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