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O pulso da economia que o BC tomou é mais otimista, embora as incertezas externas continuem

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2016 | 21h00

Há dois enfoques com que se pode ler a Ata do Copom com o objetivo de fundamentar decisões para administrar um patrimônio ou alguma decisão de economia pessoal. O primeiro deles, mais amplo, é tomá-la como diagnóstico de autoridades que se encontram em condições privilegiadas de avaliar a economia e as tendências do mercado financeiro. O outro, mais restrito, é tentar descobrir a partir de quando o Banco Central começará a derrubar os juros. Em grande medida, os dois enfoques são inseparáveis.

O pulso da economia que o Banco Central tomou na semana passada e transmitiu nesta terça-feira para os brasileiros é mais otimista, embora as incertezas externas continuem. Há mais indícios de retomada da atividade econômica, a confiança na condução da política econômica aumentou; embora tenha surpreendido com alguma recidiva, a inflação tende a convergir para a meta (em 2017). Os preços no atacado, por exemplo, mostram enfraquecimento.

O Banco Central não desdenha os riscos para a economia brasileira que possam ser produzidos pela esperada reversão da política de juros nos Estados Unidos: “Todos os membros do Comitê concordaram sobre a necessidade de se monitorar o ritmo de normalização da política monetária nos Estados Unidos e suas possíveis implicações sobre a velocidade de convergência da inflação (brasileira)”.

No entanto, a maior incerteza está no campo fiscal. Quanto mais rapidamente o governo conseguir aprovar o ajuste, tanto mais rapidamente também a inflação cederá. E isso vai depender da vontade e das condições políticas. O risco embutido é o de que o ajuste não passe das tentativas ou, simplesmente, não saia suficientemente robusto: “Não houve consenso sobre a velocidade desses ajustes, o que sugere que constituem, ao mesmo tempo, um risco e uma oportunidade” – diz o parágrafo 15. Ao contrário do que acontecia no Copom sob a liderança de Alexandre Tombini, que comprava sem restrições o que lhe vendia o ministro da Fazenda, a atual administração comandada por Ilan Goldfajn não assume previamente o sucesso da atual política fiscal. Antes, condiciona o comportamento da inflação e a eficácia da política monetária (política de juros) à capacidade que tiver o governo de arrancar o ajuste. Dele faz parte também a capacidade de encaminhar as reformas. Mas o Banco Central não chega ao extremo de considerar a hipótese de que o ajuste não saia.

Para que os juros possam cair, estão dadas três condições, avisa o Copom: a primeira delas é a de que reflua o recente choque de preços dos alimentos; a segunda, a de que a velocidade da desinflação seja adequada – embora não tenha ficado claro o que isso significa; e, terceiro, que o ajuste esteja solidamente encaminhado.

Alguns analistas se apressaram a concluir que a queda dos juros é iminente. Aparentemente, deixaram-se impressionar pela supressão de uma frase forte veiculada na ata de julho. A de “não haver espaço para flexibilização da política monetária”.

Infelizmente, não dá para fazer essa aposta apenas com os elementos apresentados pela ata de agosto. A atitude básica do Copom é esperar para ver.

Confira:

Aí está a escadinha da Selic, a trajetória dos juros básicos, tal como determinada pelo Comitê de Política Monetária desde 21 de janeiro de 2009.

Cadernetas

Esses juros altos são um dos fatores que produziram o saque líquido recorde de R$ 48,2 bilhões no saldo das cadernetas de poupança no acumulado dos oito primeiros meses de 2016. Muitos aplicadores migraram para investimentos financeiros que pagaram mais juros. O outro fator foi a perda de renda junto da população produzida pela inflação, pelo desemprego e pela recessão.

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