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Esperar para ver

O Banco Central reconhece que a inflação piorou e que preocupa. A leitura da Ata do Copom, divulgada ontem, mostra que essa deterioração se apresenta como mais do que um simples desconforto. E, aparentemente, exige mais ação do governo federal.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 12h33

Mas o Banco Central, presidido pelo economista Alexandre Tombini, para por aí. Quem pergunta pelo que fará para enfrentar uma inflação mais renitente fica sem resposta. O Banco Central avisa: redobrará a vigilância e a cautela – seja lá o que isso signifique – e que esperará para ver.

Uma das explicações para essa atitude protelatória pode ser a ausência de avaliação para o tamanho do impacto sobre a inflação a ser exercida pela desoneração de impostos federais da cesta básica. Foi uma decisão tomada pelo governo Dilma dois dias após a reunião do Copom, objeto desta ata, e não se sabe até que ponto a isenção de impostos será repassada para os preços. Portanto, não caberia mesmo uma avaliação do Banco Central desse contra-ataque do governo à cavalgada dos preços. Mas, de algum modo, a ata parece levar em conta o fato novo. Daí a espera.

O Banco Central admite que a deterioração dos preços é mais forte do que vinha sendo avaliada e que não tem só dois ou três focos; está generalizada. Já não indica como causa principal eventuais choques externos, como a seca na região central dos Estados Unidos, responsável pela quebra da safras de grãos. Mas reafirma que, entre as causas dessa inflação aí, está “o balanço do setor público em posição expansionista” – ou seja, as despesas excessivas do governo que criam renda e demanda; o mercado de trabalho aquecido acima da produtividade, o que eleva os custos e a demanda da economia; e a baixa folga na capacidade de produção da indústria, que aponta para uma oferta inferior à demanda.

Desta vez, a ata não repete o refrão que aparecia em todas as manifestações das autoridades da área econômica: que, apesar de elevada e generalizada, a inflação tende a perder força a partir do segundo semestre – algo que Tombini já deixara de mencionar terça-feira em Varsóvia, na exposição organizada pelo banco central da Polônia. Ao contrário, o parágrafo 28 da ata sugere que a resistência da inflação não é um “fenômeno temporário”.

E, de fato, não há nenhuma indicação segura de que a inflação desacelerará espontaneamente nos próximos meses. Seguem produzindo efeitos todos os fatores que proporcionaram uma demanda por bens e serviços acirrada demais. Como já foi dito em dois textos anteriores desta Coluna, a isenção de tributos federais (basicamente do PIS-Cofins) incidentes sobre os produtos da cesta básica não contribui para conter o consumo; ao contrário, se gerar folga no poder aquisitivo do consumidor, tende a aumentar a pressão de compra. Além disso, nada está sendo feito para baixar a inflação sobre o setor de serviços que, em fevereiro, alcançou 8,62% em 12 meses.

Até 17 de abril, data da próxima reunião do Copom, o Banco Central terá elementos novos para avaliar o comportamento da inflação. Se puder não mexer nos juros, vai preferir assim. Caso a inflação se mantenha forte demais e espalhada demais, não poderá adiar mais o aperto.

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