MIGUEL PESSOA/ESTADAO
MIGUEL PESSOA/ESTADAO

‘Espero voltar a ter a carteira assinada’

Trabalhadores encaram a informalidade como uma fase transitória para pagar contas básicas

O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2019 | 04h00

Depois de ficar desempregado por quase dois anos, o vendedor André Luis de Oliveira Guedes Ribeiro, de 45 anos, pai de dois filhos, um deles com apenas 3 anos, decidiu partir para o trabalho informal. Em julho de 2018, ele vendeu o carro ano 2002, comprou outro onze anos mais novo e se tornou motorista de aplicativo, em Sorocaba, interior de São Paulo. “Perdi a conta de quantos currículos mandei. Os poucos retornos que tive não vingaram. Chega uma hora que bate o desespero, você com filho pequeno e sem perspectiva de emprego”, disse.

Ribeiro trabalhou com registro em carteira e como vendedor comissionado durante mais de 20 anos. Desde 2016, quando perdeu o emprego, ele estava sem ocupação fixa. “O tempo vai passando, você vê os amigos, os familiares empregados, saindo para trabalhar e começa a ficar angustiado. Foi aí que veio a ideia de tentar o Uber. Está indo bem, mas ainda espero voltar ao regime de carteira assinada.” A nova ocupação pode não ser o emprego sonhado, mas está garantindo renda de 2,5 salários mínimos por mês (R$ 2.495).

Ele disse que, para quem estava sem nada, trabalhar com aplicativo é bom, mas pondera que a margem de ganho é pequena. Ribeiro gastou R$ 5 mil para instalar o tambor de gás (GNV), a fim de reduzir a despesa com combustível. Ainda tem gastos com a manutenção do veículo e com as taxas do aplicativo. “Encaro esse trabalho como provisório, porque ainda tenho esperança de conseguir um novo emprego.”

Diante da dificuldade de voltar a ter carteira assinada, Bruna Scherer, de 24 anos, trabalha na informalidade há 3 anos, desde que perdeu seu emprego como Técnica em Segurança do Trabalho em uma indústria de couro, em São Leopoldo (RS). Ganhava, em média, R$ 2 mil líquidos por mês. Desde que foi demitida trabalha como cuidadora de idosos em Porto Alegre (RS)e tira R$ 3 mil .

Além de cuidadora, Bruna, que também é bombeiro civil, trabalha como freelancer em eventos de casamentos, formaturas, por exemplo. “Dá para ganhar uma grana boa. Sempre tem trabalho, mas depende da temporada. Fim de ano tem muitas festas de formatura”, explicou a jovem que ainda busca uma vaga no mercado como Técnica em Segurança do Trabalho.

Entre as vantagens de trabalhar na informalidade, ela destaca a possibilidade de obter uma renda maior. Mas uma das desvantagens é não poder contar com a aposentadoria, já que na informalidade não são feitas as contribuições. “Está bem difícil arrumar um emprego fixo, com carteira assinada”, afirmou.

Essa dificuldade também foi sentida pelo ex-cobrador de ônibus Samuelson Nelson, que vive em Natal (RN), no Nordeste. Depois de mandar mais de 70 currículos e não conseguir uma vaga formal, Nelson decidiu vender lanches na redondeza de clínicas e hospitais particulares em bairro nobre de Natal.

“Quero ser motorista de ônibus, pois tenho carteira D, cursos de aperfeiçoamento, primeiros socorros, mas não aparecem oportunidades. Até hoje eu procuro emprego com carteira assinada. Mas está muito difícil.” Com a venda de lanches, ele tira cerca de R$ 1,3 mil. “É um pouco menos do que ganha como motorista, mas é o que me sustenta.” / JOSÉ MARIA TOMAZELA/SOROCABA, LUCIANO NAGEL E RICARDO ARAÚJO/ ESPECIAL PARA O ESTADO/PORTO ALEGRE E NATAL

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