Infográficos|Estadão
Infográficos|Estadão
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Espigas cheias ou chochas

Este é o momento de cair na real. Não há muita saída para o drama da hora, senão consertar o que está quebrado

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2016 | 21h00

A economia vive de ciclos, curtos e longos. Disso já se sabia desde José do Egito, filho de Jacó, que avisou o faraó de que sete anos de vacas magras e de espigas chochas sucederiam a sete anos de vacas gordas e espigas cheias.

Para enfrentar caprichos do setor produtivo desse tipo é que a humanidade aprendeu a fazer estoques, a empilhar reservas e criar fundos de segurança, também desde José do Egito ou desde o escravo grego Esopo, o autor da fábula da cigarra e da formiga.

Um dos grandes problemas da economia brasileira é o de que enfrenta agora brutal crise fiscal sem que administradores previdentes tenham previsto a tragédia nem se preparado para enfrentá-la.

Foi a sociedade brasileira que passou a contar com uma rede enorme de benefícios a cargo do Tesouro, sem exigir as provisões necessárias para dar conta de tanta despesa.

É a aposentadoria precoce ou a pensão generosa concedida até mesmo sem contribuições correspondentes; é o atendimento de saúde básica universal financiado com 13,2% da arrecadação da União; idem para a educação, para a qual se destinam ao menos 18% da arrecadação, chova ou faça sol; o Fies para financiar a educação superior; o seguro-desemprego de igual tamanho sejam quais forem as pressões sobre o mercado de trabalho; o Bolsa Família e, mais do que isso, as várias modalidades de bolsa empresário... por aí vai.

Tudo isso junto não cabe no orçamento do setor público. Não só porque sobreveio o tempo das vacas magras, mas também porque a economia teria de crescer mais de 4% ao ano para que a arrecadação correspondesse à conta dessa despesa. Não cabe, também, porque os governos vêm gastando no presente mais do que permitiriam as receitas futuras. Os Estados produtores de petróleo, por exemplo, especialmente o Rio de Janeiro, avançaram sobre suas receitas com royalties no pressuposto que o pré-sal brasileiro seria a salvação da pátria e de que os preços do petróleo, que hoje estão ao redor dos US$ 40 por barril, continuariam acima dos US$ 100, assunto tratado por esta Coluna no dia 14 de abril.

A sociedade brasileira se empolgou por ter-se tornado repentinamente o B do Brics; por ter acreditado que graves crises externas chegariam às nossas praias apenas como marolinha - como dizia em 2009 o então presidente Lula; e por imaginar que os áureos tempos de bonança internacional proporcionados pela disparada dos preços das commodities e pela fartura de capitais jamais se esgotariam.

Este é o momento de cair na real. Não há muita saída para o drama da hora, senão consertar o que está quebrado. Os projetos que preveem a desvinculação das despesas orçamentárias definidas pela Constituição e por leis excessivamente rígidas são um primeiro passo, mas isso é pouco. Será necessário implantar as reformas para dar realismo às contas dos benefícios e das transferências de renda e tratar de criar fundos reguladores que garantam as provisões de amanhã. E isso não se faz sem reconhecida liderança política.

CONFIRA:

Aí está a evolução dos preços do petróleo no mercado internacional.

Não prosperou

A ‘Bloomberg’ publicou nesta sexta matéria em que afirma que a Opep desistiu de reduzir a oferta de petróleo para aumentar os preços. No dia 17, fracassou o encontro de Doha, Catar, entre grandes produtores, inclusive de fora da Opep, como a Rússia, que tinha esse propósito. Apesar disso, de lá para cá houve certa recuperação de preços, de 3,7% do tipo Brent e de 5,6% do tipo WTI. O próximo encontro está marcado para junho, mas parece improvável que a proposta prevaleça.

Mais conteúdo sobre:
Celso MingCrise Econômica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.