Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Imagem Guy Perelmuter
Colunista
Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Espiões de Silício

Um dos maiores riscos do século XXI são os conflitos digitais, cada vez mais sofisticados

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 04h00

Na disputa pela dominância geopolítica entre Estados Unidos e China, a tecnologia desempenha um papel fundamental. Em particular, conforme indicamos na última coluna, dois temas dominantes devem ser levados em consideração: a ciberespionagem e a adoção e estudo de técnicas de inteligência artificial.  

Já discutimos diversos ângulos do tema cibersegurança neste espaço: suas origens, a disputa entre hackers e crackers, os riscos inevitáveis que uma sociedade conectada corre, as perdas causadas por acessos não-autorizados, formas utilizadas para invasão de sistemas e a carência de profissionais com especialização na área. Era de se esperar que, no século XXI, o ciberespaço iria se tornar palco de conflitos entre empresas e entre governos — exatamente o que vem ocorrendo globalmente com ataques originados de países como China, Coreia do Norte, Estados Unidos, Irã, Israel, Paquistão, Reino Unido e Rússia.

De acordo com Paulo Shakarian, PhD em Ciência da Computação com foco em cibersegurança e que foi major do exército norte-americano, a definição mais adequada seria a seguinte: “A guerra cibernética é uma extensão das ações tomadas no ciberespaço por atores estatais (ou atores não estatais com direção ou apoio significativo do estado) que constituem uma séria ameaça à segurança de outro estado, ou uma ação da mesma natureza tomada em resposta a uma séria ameaça à segurança de um estado (real ou percebida).". Em particular, tanto Estados Unidos quanto China possuem órgãos especificamente voltados para cyberwarfare (ou conflito cibernético).

Oficialmente criado em junho de 2009, o Cybercom (United States Cyber Command) faz parte do Departamento de Defesa norte-americano, trabalhando em estreita cooperação com a NSA (National Security Agency, ou Agência Nacional de Segurança). Já na China, provavelmente a organização governamental que mais se aproxima dessa função é a Unidade 61398, do Exército de Libertação Popular. Em 2013 a Academia de Ciências Militares da China publicou o documento “A ciência da estratégia militar”, no qual o governo chinês admitiu — sem entrar em detalhes — possuir uma unidade de cyberwarfare. Entretanto, em maio de 2011 um porta-voz do Ministério da Defesa já havia anunciado a criação de um "exército azul online" para proteger o país contra ciberataques.

A obtenção de provas a respeito de uma grande parte desses ciberataques não é tarefa fácil, mas frequentemente especialistas no tema são capazes de rastrear e determinar de forma razoavelmente precisa a origem dos mesmos. Uma das supostas ocorrências mais emblemáticas, ocorrida há relativamente pouco tempo, foi apresentada em uma reportagem da Bloomberg Businessweek em outubro de 2018, assinada por Jordan Robertson e Michael Riley. 

Segundo a reportagem — cujos fatos foram corroborados por altos funcionários do governo norte-americano — em 2015 foram encontrados microchips do tamanho de um grão de arroz nas placas-mãe de computadores fabricados na China e utilizados em data centers de dezenas de empresas e de órgãos do governo. Aparentemente, esses microchips serviam como porta de entrada para que um invasor pudesse espionar o tráfego de dados e executar um novo conjunto de instruções.

O uso de hardware no mundo da espionagem industrial é mais um capítulo sobre como o uso da infraestrutura e da cadeia globalizada de suprimentos apresenta desafios importantes — e o motivo pelo qual os EUA sistematicamente acusam empresas chinesas como a fabricante de equipamentos de telecomunicações Huawei (que em 2019 apresentou faturamento de mais de US$ 120 bilhões) de utilizar seus equipamentos para obter informações de forma ilícita. A Huawei nega de forma vigorosa tais acusações.

Além da ciberespionagem, outro aspecto da tecnologia que vai desempenhar um papel relevante na disputa pela hegemonia geopolítica global é o estudo e aplicação de técnicas de inteligência artificial — nosso tema para a próxima coluna. Até lá.

* Guy Perelmuter é fundador da GRIDS Capital e autor do livro Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.