Polícia Federal/Divulgação
Dinheiro apreendido pela PF na casa de Glaidson Acácio Polícia Federal/Divulgação

Esquemas de pirâmides financeiras se alastram pelo País e mobilizam a CVM

Pesquisa feita pelo regulador do mercado financeiro aponta que 43% das fraudes envolvem criptomoedas e que WhatsApp é a principal fonte de divulgação

Bruno Villas Bôas, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 05h00

RIO - Rentabilidade estratosférica, retorno em curto prazo. Seja pelo cenário de juros baixos ou pela fórmula de dinheiro fácil, promessas assim têm atraído cada vez mais investidores para esquemas financeiros como o descoberto no mês passado em Cabo Frio (RJ). Como resultado das investigações, a Polícia Federal prendeu o dono da GAS Consultoria Bitcoin, o ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, acusado de fraudes bilionárias envolvendo criptomoedas.

O grande número de fraudes tem sido motivo de preocupação para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que recebe consultas e denúncias de esquemas – parte dos quais foge de seu escopo de atuação. Apenas no ano passado, o “xerife do mercado” enviou 325 comunicados de indícios de crimes financeiros aos Ministérios Públicos (Federal e estaduais), 75% a mais em relação ao ano anterior.

Segundo a autarquia, as denúncias mais frequentes são de pirâmides financeiras. Dos 325 comunicados enviados, 175 tinham indícios do esquema. Por dever, a CVM comunica às Promotorias os indícios de “ilícito penal de ação pública”. Mas, por ser uma esfera administrativa, e não criminal, investiga apenas casos com “existência factual de serviço prestado ou de efetivo negócio ou empreendimento subjacente”.

Criada há um século pelo italiano Carlo Ponzi (que até chegou a morar no Brasil), a pirâmide financeira é um esquema pelo qual novos investidores pagam pelos ganhos elevados dos mais antigos, até que o negócio “estoura”, quando o novo dinheiro que entra é insuficiente para sustentar os lucros.

Em busca de medidas de prevenção contra as fraudes, a CVM realizou uma pesquisa com vítimas de pirâmides financeiras, esquemas Ponzi e outros golpes. E identificou que as vítimas mais comuns são homens (91%), de 30 a 39 anos (36,5% do total), com renda familiar de dois a cinco salários mínimos (23%) e ensino superior completo ou pós-graduado (71%).

A pesquisa apontou também que as criptomoedas (das quais a mais famosa é o bitcoin) aparecem no topo da lista das fraudes financeiras. O levantamento mostra que esse foi o ativo usado em 43% dos esquemas. A pesquisa mostra ainda que a divulgação das fraudes é mais frequente por aplicativo WhatsApp (27,5%), seguido pela divulgação boca a boca (19,7%).

Promessa de lucro

Morador do Rio, o policial militar Pablo da Silva, 32 anos, tem perfil semelhante ao identificado pela CVM. Há pouco mais de um ano, Silva recebeu a ligação de uma empresa que seria “representante” de bancos. A proposta era simples: ele pegaria um empréstimo e depositaria a quantia na conta da empresa. A firma investiria o dinheiro, pagaria a prestação da dívida e Silva lucraria 10% do valor do empréstimo.

Segundo o militar, a empresa tinha suas informações pessoais, o que conferia veracidade ao esquema. Ele não foi pressionado a aceitar a proposta. Em vez disso, foi convidado a conhecer o escritório da empresa na Avenida Rio Branco, Centro do Rio. Um prédio espelhado, com elevador inteligente. O diretor era um senhor de terno e gravata. Nos meses seguintes, tomou quatro empréstimos, que somaram mais de R$ 50 mil.

“Eu precisava do dinheiro e era conveniente aceitar. Então, eu caí”, lamenta-se Silva, que enfrenta sérias dificuldades financeiras e está com nome “sujo” na praça. “Como sou o único provedor de renda da casa, minha esposa confia muito nas minhas decisões. Diante disso, tive de tomar medidas para não faltar alimento para as minhas filhas. Fiz vários cartões de crédito e pago um com o outro.”

Camila Medina, de 33 anos, foi vítima de golpe semelhante no valor de R$ 65 mil. Estudante de medicina, sentiu-se envergonhada e escondeu a história da família por um tempo. “Uma mulher inteligente, enganada da forma mais esdrúxula possível”, conta. Ela passou a trabalhar em dois empregos para pagar as dívidas e bancar a faculdade, e precisou tirar os filhos da escola particular. “Entrei em pânico. Foi quando decidi procurar ajuda de advogados.”

O advogado Flávio Tavares, do escritório que leva o seu nome, especializado na defesa de vítimas de golpes financeiros, diz que diariamente é procurado por vítimas. Ele orienta que o primeiro passo é procurar o banco e comunicar o problema, em caso de fraude bancária. Depois, registrar ocorrência na delegacia e procurar um advogado. “É importante guardar e reunir todas as conversas, mensagens de texto”, explica Tavares.

Mas a dica mais importante para todas as pessoas é não acreditar nas promessas de ganhos fáceis. Os únicos investimentos que têm possibilidade de garantir um rendimento, de forma segura, são os de renda fixa – atrelados à taxa Selic, hoje em 5,25% ao ano. Ou seja, se alguém promete uma rentabilidade como essa, ou às vezes até muito maior, ao mês, provavelmente se trata de um golpe.

Quando as promessas de retorno estão ligadas a ativos de renda variável – como as criptomoedas –, é impossível garantir um retorno fixo. Basta lembrar o que aconteceu com o bitcoin, a principal criptomoeda do mercado. O ativo começou o ano valendo US$ 30 mil. Em fevereiro chegou a US$ 50 mil e atingiu o ápice em abril, quando bateu cerca de US$ 65 mil. Depois disso, engatou uma queda e voltou quase aos US$ 30 mil do início do ano, para voltar a subir e estar cotado hoje de novo a US$ 50 mil. Uma verdadeira montanha-russa a lembrar que esse é um ativo, sim, de muito risco. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com as pirâmides, Cabo Frio se torna o ‘Novo Egito’

Empresas que prometem ganhos estratosféricos, como a GAS,do ex-garçom Glaidson Acácio, se multiplicam na cidade

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 05h00

ENVIADO ESPECIAL A CABO FRIO (RJ) - O ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, fundador da GAS Consultoria Bitcoin, é conhecido como “faraó dos bitcoins”. Suspeito de operar um esquema de pirâmide financeira com criptomoedas, ele foi preso no mês passado pela Polícia Federal, acusado de crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira clandestina, emissão ilegal de valores mobiliários sem registro prévio, organização criminosa e lavagem de capitais. Sua detenção jogou nos holofotes a cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, no Rio, que ganhou agora a alcunha de “Novo Egito” – referência às várias empresas suspeitas de esquemas de pirâmide.

Esse ambiente de “corrida ao tesouro” na cidade, por motivos que ainda não se sabe explicar, já teve consequências graves. No início de agosto, Wesley Pessano Santarém, um youtuber de 19 anos que dava conselhos financeiros nas redes sociais e também era sócio de uma empresa que atuava no mercado cabo-friense de criptomoedas, foi morto a tiros. Ao ser baleado, estava na cidade vizinha de São Pedro d’Aldeia em um Porsche conversível vermelho. O carro importado foi abordado por outro veículo, do qual foi alvejado. Três suspeitos foram posteriormente presos.

Houve pelo menos outros dois casos semelhantes. Em um deles, o dono de uma empresa de investimentos foi ferido à bala, também em um carro de luxo. E em junho um dos sócios da empresa BW estava em um automóvel que também foi alvejado por criminosos. Como o veículo é blindado, escapou sem ferimentos.

Mas, no caso de Glaidson, apesar dos indícios de crime, há na cidade uma onda de simpatia. Nas ruas, ouve-se elogios ao empresário e comentários de que “70% da cidade investe com o Glaidson”. Ninguém sabe de onde vem essa estatística ou se é verdadeira. A Prefeitura de Cabo Frio informou em nota não ter “dados ou informações a respeito das operações da empresa em questão”.

Essa “simpatia” vem do fato de que os pagamentos generosos – algo como 10% ao mês – prometidos pela empresa continuaram a ser feitos mesmo após a prisão.

“Tenho dois contratos com o Glaidson, que fiz no ano passado. Era para eu receber minha parcela amanhã (sexta-feira passada), mas o dinheiro entrou na minha conta ontem (quarta-feira) mesmo”, disse um mecânico de automóveis, que pediu para não ser identificado. Assim que a reportagem se apresentou e explicou que buscava informações sobre a GAS, o próprio mecânico comentou: “Pirâmide financeira, né?”

Foi essa suspeita que rendeu a Glaidson – que até 2013 era garçom em Armação dos Búzios – o apelido de “Faraó”. Ao ser preso pela PF na Operação Kryptos, ele tinha em casa R$ 15 milhões em dinheiro vivo e o equivalente a R$ 150 milhões em bitcoins.

A defesa do empresário nega que Glaidson tenha cometido algum delito. Diz ainda que “ganhar dinheiro e ter em casa não é crime”. Antes de ser preso, incomodado com notícias sobre as empresas suspeitas de pirâmides, Glaidson divulgou vídeo no qual negou envolvimento em irregularidades. 

“Venho esclarecer, em primeiro lugar, que a nossa empresa não pactua (sic) com pirâmide financeira”, diz o empresário. No mesmo vídeo, ele admite que em Cabo Frio há “inúmeras” empresas que recorreriam a essa prática, que “é crime contra a economia popular”. E prosseguiu na explicação com tropeços no idioma: “A nossa empresa não é empresa de investimento. A GAS Consultoria é uma empresa aonde as pessoas terceiriza a equipe de trade de criptoativo. Nós estamos nesse mercado há nove anos, respirando esse mercado”.

Depois da prisão de Glaidson, houve passeatas exigindo a libertação do empresário. Ocorreram também manifestações em apoio a ele nas redes sociais. Nos dois casos, os envolvidos seriam investidores que não se sentiram lesados nas pirâmides. 

Em Cabo Frio, muitos pensam da mesma forma que os manifestantes. “Eu não investi com ele porque não tenho dinheiro, mas se tivesse certamente teria colocado”, afirmou um homem na casa dos 50 anos, que se disse servidor público aposentado. “Tenho um amigo que tinha duas ou três revendas de automóveis. Ele vendeu todos os carros e colocou o dinheiro lá no Glaidson. Hoje está milionário!”, assegurou. Indagado se era possível entrar em contato com esse investidor, ele disse que se tratava de alguém “muito ocupado e difícil de localizar”.

O mecânico ouvido pelo Estadão não ficou milionário, mas disse que está tendo bom retorno sobre os R$ 5 mil investidos. “Como eu fiz meus contratos no ano passado, eu já recuperei todo o dinheiro. Por isso não estou preocupado com o prisão do Glaidson”, comentou. / COLABOROU WILSON TOSTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.