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Coluna Leandro Miranda: como se moldar à nova economia após a covid-19?

''Esse corte não vai tirar o Brasil da recessão''

Para economista, redução de 1,5 ponto da Selic vai apenas suavizar o efeito recessivo da crise global no Pais

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2009 | 00h00

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore é um dos economistas considerados ortodoxos que defendiam uma redução de 1,5 ponto porcentual da taxa básica de juros (Selic). Portanto, avalia que o BC agiu corretamente. A despeito disso, avisa que o País não conseguirá escapar da recessão em 2009. "Não há política monetária que tire a economia brasileira da recessão porque o mundo inteiro está em recessão", afirma. O Copom reduziu a Selic em 1,5 ponto, como o sr. defendia. 1,5 ponto é uma derrubada importante. O que é relevante não é o corte em si, mas o que o BC sinaliza para o ciclo total de redução. Com a precificação, pelos agentes, do corte de 1,5 ponto (expresso nas taxas futuras), os juros de mercado já vieram para um nível um pouco abaixo de 10% ao ano. Isso significa que o mercado espera, na próxima reunião, uma redução de 1 ponto, 1,5 ponto ou 0,75 ponto. É cedo para dizer quanto, mas o fato é que, na próxima reunião do Copom, os juros devem ir para perto de 10%. Isso significa que, na metade do ano, o juro deve estar em um dígito. A importância disso é que vai suavizar o efeito recessivo que a crise mundial vem produzindo sobre o Brasil. A política monetária pode compensar parte disso. É uma decisão positiva, vai na direção correta. É óbvio que suscitará críticas, pois há sempre quem queira mais, mas acho que foi prudente e estimulante para a atividade.Quando essas reduções serão sentidas na economia?A defasagem não é instantânea. Começará a aparecer na economia, gradualmente, daqui a 3, 4, 5 meses. Não vamos pensar que isso vai tirar a economia da recessão. A economia brasileira vai para a recessão com taxas de juros mais baixas. Não há política monetária que tire a economia brasileira da recessão porque o mundo inteiro está em recessão.O BC é criticado pela ortodoxia. O sr. acha que cedeu às pressões?De jeito nenhum. O tamanho da reação depende do tamanho do estímulo para a reação. Se os políticos não tivessem pressionado, se a Fiesp não tivesse se reunido para pedir 2 pontos de queda, se o professor Delfim (Netto) não tivesse dito que rezaria uma missa ecumênica (em caso de queda de 1,5 ponto), a decisão seria essa. Foi uma decisão técnica. Como fica a inflação?É uma variável de menor risco. Com a desaceleração da atividade econômica, a tendência da inflação é para baixo. O BC tem de mostrar que está preocupado com a inflação, é tarefa dele. Mas há claros sinais de que a inflação está vindo para baixo. Há alguns problemas de rigidez em preços de serviços, pois vários deles são indexados. Há, ainda, outra enorme rigidez, que é o preço dos combustíveis constante. A gasolina no Brasil está 50% mais cara do que no Golfo Pérsico. Não sei por que o governo não baixa o preço da gasolina. Não sei se é para dar mais lucro à Petrobrás ou se é porque não quer aumentar o prejuízo do setor sucroalcooleiro. O fato é que, ao não baixar, introduz uma inércia e uma rigidez para baixo na taxa de inflação. Se reduzisse, a inflação iria agora para baixo da meta. Nem precisaria ser muito, só algo como 10%. Em segundo lugar, os preços não chegam diretamente ao consumidor sem antes passar pelo atacado. Se olharmos esses preços (do atacado), veremos taxas de inflação negativas. Ou seja, haverá mais queda dos índices ao consumidor (como o IPCA). O BC não toma decisão olhando para a inflação passada, mas para a inflação futura, que está em queda.

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