''Esse é um processo que pode durar dez anos''

Edward Amadeo, ECONOMISTA DA GÁVEA INVESTIMENTOS

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2011 | 00h00

Edward Amadeo, economista da Gávea Investimentos, acha que a crise fiscal dos países ricos pode durar dez anos e que há risco de o impasse político nos EUA levar a uma paralisia na busca de soluções.

Como o sr. vê a perspectiva negativa do rating americano?

Os Estados Unidos não estão sozinhos (nos problemas fiscais). São, na verdade, os três grandes, incluindo também Europa e Japão. O presidente americano se convenceu agora de que tem de fazer alguma coisa, e os republicanos também estão dispostos. Mas tem de ver se, com a eleição daqui a dois anos, eles conseguem se entender. Porque os republicanos querem que tudo venha na base de redução de gastos, e os democratas, de aumento de impostos sobre os ricos. É uma diferença filosófica aguda. Acho que os republicanos têm todo o interesse político em não dar uma vitória para o Obama. Vai ser difícil chegar a uma solução.

E quais podem ser as consequências desse impasse?

Acho que pode haver uma situação complicada de juros subindo nos EUA, porque algum aumento de risco de crédito tem. E isso é a pior coisa que se pode imaginar agora, porque a economia americana ainda está fraca.

Mas os juros caíram hoje (ontem) nos Estados Unidos?

Porque tem outra determinante que é crescimento econômico. Houve pequena mudança sobre perspectiva de crescimento, já que o primeiro trimestre foi pior do que se esperava. Então o juro vai ficar oscilando entre essas duas forças, por um lado as perspectivas de crescimento ou de inflação; por outro, o medo da dívida piorando. Em algum momento, uma vai dominar a outra.

Qual o impacto para os emergentes?

Se os juros nos EUA subirem pela melhora nas perspectivas de crescimento, deve diminuir o fluxo para emergentes. Agora, se subir por piora na avaliação do risco (e o mesmo vale para Japão e Europa), haverá procura por ativos nos emergentes - e o Brasil é um candidato.

Quanto tempo devem durar os problemas com as dívidas dos países ricos?

Com certeza vai afetar muito a economia global nos próximos meses, trimestres e anos. Esses países vão ter de fazer um ajuste, e esse ajuste, no curto prazo, tende a ser ruim para o crescimento econômico. Acho que esse é um processo que vai demorar uns dez anos.

Qual deveria ser a reação do Brasil?

Acho que a única coisa que um país pode fazer é tentar ficar o menos vulnerável possível a uma piora nos termos de troca, ou a um aumento do juro nos EUA e no G-3. O governo está apostando que o que foi feito até agora é suficiente para a economia ter um pouso suave. Pode acontecer, mas o risco de que tenham feito metade do que era preciso é maior que 50%, para mim. Então, não estão tomando as precauções necessárias para os riscos globais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.