Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

‘Esse negócio de comprar 100% do Oriente vai acabar’, diz presidente da Whirlpool

Executivo acredita que haverá uma descentralização de fábricas ao redor do mundo, além da China

Entrevista com

João Carlos Brega

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2022 | 05h00

A interrupção das cadeias globais de suprimentos, provocada pela pandemia, acendeu o sinal de alerta para as indústrias sobre o risco de concentrar a produção de insumos no Oriente, especialmente na China, que neste momento passa por lockdowns em razão de novos surtos de covid-19.

“Esse negócio de comprar 100% do oriente vai acabar”, afirma João Carlos Brega, presidente da Whirlpool na América Latina, fabricante de geladeiras, fogões e lavadoras das marcas Brastemp e Consul. Ele destaca que as grandes empresas globais estão neste momento avaliando onde colocar fábricas que ficarão prontas nos próximos dois anos.

No caos que domina hoje as cadeias de abastecimento, o executivo enxerga uma grande oportunidade para o Brasil. Pela posição geográfica, o País poderia atrair investimentos de empresas multinacionais interessadas em instalar novas fábricas de insumos  fora da rota tradicional da Ásia. Mas para se candidatar a isso,  falta ambiente amigável aos investimentos, com segurança jurídica, infraestrutura, continuidade das parcerias público-privadas e o País estar nas regras da OCDE, por exemplo.

No momento, a empresa só não enfrenta problemas de abastecimento por causa da interrupção dos fluxos de componentes importados da Ásia porque a demanda doméstica por eletrodomésticos caiu 20% no primeiro trimestre. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia a situação do mercado hoje, com arrefecimento da pandemia?

Não tem coisa pior do que a crise sanitária. A gente não sabia o que iria acontecer, era uma insegurança total. Mas pensava-se que, quando tudo isso passasse, o ser humano iria se portar de maneira diferente. Infelizmente não foi verdade. Logo depois veio a guerra. Além disso, apesar de a crise sanitária no Ocidente estar sob controle, na China, houve novos surtos de covid. Do ponto de vista da economia, estamos sofrendo o impacto. Mas, em termos relativos, está menos ruim do que estava antes. Mas ficam as cicatrizes, tanto do lado pessoal como profissional. Não tenho dúvidas de que o mundo do supply chain (cadeia de abastecimento), como foi conhecido até então vai mudar, está mudando.

 

Como assim?

No médio e longo prazos, teremos uma diminuição da concentração dos fornecedores de insumos num só local. As empresas vão ter múltiplas fontes de abastecimento, umas mais perto outras mais afastadas. Vejo essa mudança num horizonte de quatro a cinco anos. Esse negócio de 'eu compro 100% do Oriente' vai acabar. E existe uma oportunidade muito grande para o Brasil  receber investimentos de empresas globais para a produção desses componentes. Todo mundo está olhando onde colocar essa fábrica que vai ficar pronta  nos próximos dois anos.

Já há evidências desses investimentos ou são avaliações?

São coisas que estão em andamento, vemos muitas discussões. E tem uma regra na economia: o mercado se ajusta e isso vai acontecer.

O que falta para o Brasil se credenciar para receber esses investimentos?

Falta ter um ambiente amigável ao investimento. Ter segurança jurídica, estar nas regras da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), ter infraestrutura, continuar com as parcerias público-privadas, isso é muito importante. Não pode ter fila no porto.

Como a Whirlpool está lidando com a paralisação dos embarques de componentes na China?

Já tivemos no passado mais problemas por falta de componentes. No momento, não estamos tendo mais porque o volume de (vendas) caiu no Brasil. Mas existem outros setores que estão sofrendo muito, como a indústria automobilística.

 Como estão as vendas de eletrodomésticos?

No primeiro trimestre deste ano, a indústria como um todo teve uma queda refletida nos números do IBGE  (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), da ordem de 20%.

Mas qual o número da Whirlpool?

É mais ou menos esse, na faixa de 20% no primeiro trimestre. Dependendo da categoria de produto, pode ser mais ou menos.

Como  a empresa está lidando com queda nas vendas, inflação de insumos e aumento de preços?

Produtividade. Antes da pandemia, em 2019, apesar de ter sido um grande ano versus 2018, estávamos nos recuperando da grande recessão de 2015. Os números de 2019 eram equivalentes a 2011 e 2012. Daí veio a pandemia, não tinha como cortar custo fixo e tivemos de trabalhar a produtividade. Tivemos ganhos bons por conta do aumento da escala (de vendas). Agora  em  2022 versus 2021 temos essas quedas da indústria. Mas comparado a 2019 e 2018, a queda é menor, de 5% a 7%. Não estamos numa situação tão dramática, do ponto de vista de custo fixo. Estamos administrando estoque, produção, turnover natural. Por causa da queda da demanda, não temos mais problemas de fornecimento de insumos, mas temos problemas de custos.

A pressão de custos é da ordem de quanto?

Dois dígitos para as commodities em geral. É muito forte.

Está difícil repassar a alta de custos?

Óbvio. Afeta a demanda. Tem hora que é preferível não vender a mandar um cheque com o produto. Neste momento, esse problema é mundial. México, Colômbia, Estados Unidos, todo mundo está sofrendo com inflação, desemprego, preço da gasolina. Mas o que é preocupante no mundo, não é o Brasil, é a inflação sistêmica. Se o cara vai subir 6%, vou subir 7% por minha conta. Essa bicicleta sem razão de ser é preocupante. Ela está tentando voltar, mas chega uma hora que a economia se ajusta. Veja o nosso caso, o mercado caiu 20%. Daí vai diminuindo as expectativas, a coisa vai voltando, mas leva tempo.

Como estão as negociações com os fornecedores?

Difíceis, porque o cobertor está curto para todos. Temos a junção de duas coisas: estamos pedindo redução de preço e redução de volumes. Normalmente, quando se reduz preço, se dá mais volume. Não está sendo assim, porque não tem como colocar mais volume. A contrapartida que está sendo dada é parceria de longo prazo, a certeza da continuidade.

Como estão as negociações com o varejo?

A mesma coisa, só inverte o sinal. É disputada e bastante difícil.

A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IP) surtiu efeito nas vendas?

A redução do IPI foi repassada para os preços dos produtos. Só que é muito pouco vis a vis ao aumento da inflação. Ela é necessária, mas não foi suficiente (para impulsionar vendas neste momento). Precisamos que essa redução seja permanente para gerar competitividade. 

A empresa adiou investimentos, demitiu?

Nunca paramos de investir em desenvolvimento de produto. Sempre investimos entre 3% a 4% do faturamento. Quando se fala em custos fixos, estamos prestando atenção: hoje estamos abertos a contratações? Não. As contratações são muito seletivas. Quando uma pessoa sai da empresa para outra oportunidade, essa reposição é muito bem pensada, não é automática. Estamos  gastando mais tempo para buscar alternativas internas, para aumentar a produtividade. Tudo está sendo olhado: viagens, aluguel da máquina, custo do produto químico. Não tem nenhuma grande reestruturação.

Hoje o crédito está mais caro, a inflação está alta e o consumidor sem dinheiro. Há mudanças nos produtos em função desse perfil do consumidor?

A gente sempre vai buscando a relação entre custo e benefício para o consumidor. Ninguém compra o barato pelo barato. Quando o consumidor está com pouco dinheiro, ele compra quando vê valor agregado no produto.

Em outras crises que houve, produtos mais baratos, chamados de entrada, ganhavam relevância nas vendas. Está ocorrendo algo nesse sentido?

É óbvio que, por mais que se deseja a relação custo/benefício, a capacidade financeira chega uma hora que compromete (a compra). Existem três alavancas de demanda para os eletrodomésticos: a reposição do produto, as novas casas e a reforma. Hoje a maior demanda está sendo para reposição e, muitas vezes, se o consumidor não tem dinheiro, ele vai para o produto de menor preço. Mas não é  tão significativo (esse movimento) quanto era antes. Há alguns benefícios dos eletrodomésticos que o consumidor não abre mão: acendimento automático, luz do forno, descongelamento automático, por exemplo.

 

Hoje o que está sustentando a demanda é a compra para reposição do produto?

Diria que estão equilibradas as três alavancas, mas está diminuindo a compra voltada para a reforma.

Como o sr. está vendo os próximos meses?

Temos um fator externo, que é como acomodar essa cadeia de fornecimento. Isso deve se estender até o primeiro trimestre do ano que vem. Temos um fator interno, que é a eleição presidencial. Esses dois fatores fazem com que a gente tenha um ano de cinto afivelado. Aperte o cinto, o avião é bom, mas vamos atravessar turbulências.

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