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Esse tal desalento

Sondagens não captaram ainda intenção de empresas de ampliar a oferta de emprego

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2017 | 05h00

Desalento é o nome de uma inspiradíssima composição de Chico Buarque e Vinicius de Moraes, que traz o desabafo doído de alguém devastado pela perda de um amor. Em economia, desalento dá título a um outro tipo de desesperança, um fenômeno que mexe com o mercado de trabalho e ajuda a “reduzir” o número de desempregados em momento de muito pessimismo, como o atual. Sem esperança de encontrar uma vaga, muitos trabalhadores simplesmente desistem de buscar uma colocação. Com isso, acabam minguando artificialmente os números do desemprego.

Quando o cenário desanuvia, o movimento é o oposto: quem está parado toma a iniciativa de ir atrás de alguma oportunidade, engrossando por um tempo as estatísticas de desemprego.

Para alguns especialistas, a economia brasileira pode estar se aproximando dessa transição. Está aí um dos motivos de não haver grande expectativa de alívio no desemprego neste ano, mesmo que a atividade econômica saia do marasmo atual e embarque num processo de retomada cíclica – e modesta -- do crescimento. O próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, incumbido de levar boas novas sobre o Brasil aos investidores reunidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta semana, tratou de jogar um balde de água fria em relação ao emprego. Meirelles diz para quem quiser ouvir que o pior já passou, que no quarto trimestre deste ano o PIB já deverá crescer 2% sobre o mesmo período de 2016, mas que o emprego ainda demora a se recuperar.

O ministro argumenta que o emprego é o último indicador a reagir a mudanças de direção na atividade econômica. Para o bem e para o mal. Foi assim, por exemplo, ao longo de 2014, quando a economia brasileira já dava sinais de falência múltipla dos órgãos e o emprego ainda se mantinha em níveis razoáveis. Prova é que esse indicador, de interesse direto da população, não chegou a pesar na campanha eleitoral. Agora, diz ele, o quadro é contrário: a economia mostra alguns sinais de que está prestes a sair da UTI, mas o desemprego continua alarmante: são 12,1 milhões de desempregados, ou quase 12% da população economicamente ativa, segundo as estatísticas mais recentes do IBGE, número que pode até mesmo crescer neste começo de ano, exatamente pelo efeito desalento. Juntando-se esse contingente a quem desistiu de procurar emprego e a quem já trabalha mas quer/precisa trabalhar mais, chega-se um total de quase 23 milhões de pessoas – o que o IBGE chama de “trabalhadores subutilizados”.

O mais preocupante, nesse caso, é que o desalento do trabalhador reflete – e também é um reflexo – do desalento dos empregadores. E esse não dá mostras de desaparecer tão cedo. Afinal de contas, com uma economia ainda patinando e o elenco de estímulos a curto prazo à beira do esgotamento, quem se arrisca a investir no aumento de mão de obra? As sondagens disponíveis na praça ainda não captaram essa intenção.

A pesquisa apresentada em Davos pela consultoria internacional PwC, por exemplo, mostrou que, apesar do otimismo demonstrado pelos executivos brasileiros em relação ao desempenho futuro dos seus negócios, só 36% falaram em contratação de pessoal e 26% ainda pretendem fazer demissões. Além disso, a Sondagem Industrial da FGV apontou, em janeiro, com base em indicadores antecedentes, que o desempenho do mercado de trabalho deve continuar negativo, pelo menos até o fim do semestre.

Ao contrário do que pedem as centrais sindicais, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), defende uma rápida tramitação da reforma trabalhista, encaminhada ao Congresso no começo do ano, acenando com o atrativo de que as mudanças – basicamente a flexibilização dos contratos e a prioridade à livre negociação -- teriam condições de reduzir rapidamente o desemprego.

Melhor, porém, não dar falsas esperanças, como aconteceu com a divulgação da tese de que “o dia seguinte” do impeachment de Dilma traria o fim da recessão. Um forte alento do emprego depende da volta de investimentos privados e públicos – o que ainda não está no horizonte.

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