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Esses europeus revoltados

Eleições na França e na Grécia mostram na realidade que os europeus rejeitam a estratégia em curso de tentar sair da crise usando apenas planos que aprofundam a austeridade

Paul Krugman, The New York Times

08 de maio de 2012 | 03h06

Os franceses vão se revoltando. Os gregos, também. E já não era sem tempo.

Os dois países realizaram eleições no domingo que foram, na verdade, referendos sobre a estratégia econômica europeia corrente, e nos dois países os eleitores viraram os dois polegares para baixo. Não está claro em que prazo os votos produzirão alterações na política real, mas o tempo está claramente se esgotando para a estratégia de recuperação via a austeridade - e isso é uma coisa boa.

Nem seria preciso dizer, não foi o que se ouviu dos suspeitos usuais nas corridas eleitorais. Na verdade, foi até um pouco engraçado ver os apóstolos da ortodoxia tentando retratar o cauteloso e polido François Hollande como uma figura ameaçadora. Ele é "bastante perigoso", declarou The Economist, que observou que Hollande "genuinamente acredita na necessidade de criar uma sociedade mais justa". Quelle horreur! O que é verdade é que a vitória de Hollande significa o fim de "Merkozy", o eixo franco-alemão que aplicou o regime de autoridade nos dois últimos anos. Isso seria um desenvolvimento "perigoso" se essa estratégia estivesse funcionando, ou mesmo tivesse uma chance razoável de funcionar. Mas não está e não tem; a hora é de avançar. Os eleitores da Europa, como se viu, são mais sábios que os melhores e mais brilhantes do Continente.

O que está errado na receita de cortar despesas como o remédio para os males da Europa? Uma resposta é que a fada da confiança não existe - isto é, as afirmações de que cortar os gastos de algum modo encorajaria consumidores e empresas a gastarem mais têm sido arrasadoramente refutadas pela experiência dos dois últimos anos. De modo que cortar gastos em uma economia deprimida apenas aprofunda a depressão.

De mais a mais, parece haver pouco ganho, se houver algum, em troca dos sofrimentos. Considere-se o caso da Irlanda, que foi um bom soldado nesta crise, impondo uma austeridade cada vez mais dura na tentativa de recuperar as graças dos mercados de bônus. Segundo a ortodoxia dominante, isso deveria funcionar. Aliás, o desejo de acreditar é tão forte que membros da elite política europeia continuam proclamando que a austeridade irlandesa de fato funcionou, que a economia irlandesa começou a se recuperar.

Mas não começou. E embora não se saberia disso pela cobertura da imprensa, os custos de captação de empréstimos pela Irlanda continuam muito mais altos que os de Espanha ou Itália, para não falar da Alemanha. Então, quais são as alternativas? Uma resposta - uma resposta que faz mais sentido do que quase ninguém na Europa está disposto a admitir - seria o desmantelamento do euro, a moeda comum europeia. A Europa não estaria nesses apuros se a Grécia ainda tivesse seu dracma, a Espanha sua peseta, a Irlanda seu pint, e assim por diante, porque Grécia e Espanha teriam o que agora lhes falta: uma maneira fácil de recuperar a competitividade de custos e incrementar as exportações, a saber, a desvalorização.

Como contraponto à história triste da Irlanda, considere-se o caso da Islândia, que foi o marco zero da crise financeira, mas conseguiu responder desvalorizando sua moeda, a coroa (e também teve a coragem de permitir que seus bancos quebrassem e dessem calote em suas dívidas). A Islândia está seguramente experimentando uma recuperação que a Irlanda supostamente devia estar, mas não está.

O desmantelamento do euro seria altamente disruptivo, contudo, e representaria uma enorme derrota para o "projeto europeu", o esforço de longo prazo para promover a paz e a democracia mediante uma maior integração. Haverá outro caminho? Sim, há - e os alemães mostraram como esse caminho pode funcionar. Infelizmente, eles não compreendem as lições de sua própria experiência.

Quando se conversa com dirigentes alemães sobre a crise do euro, eles gostam de apontar que sua própria economia estava na lona nos primeiros anos da década passada, mas conseguiu se recuperar. O que eles não gostam de reconhecer é que essa recuperação foi impulsionada pelo surgimento de um enorme superávit comercial alemão ante os outros países europeus - em particular, ante as nações hoje em crise - que estava se expandindo, e experimentando uma inflação acima da normal, graças às baixas taxas de juros. Os países da crise da Europa deveriam ser capazes de imitar o sucesso da Alemanha se enfrentassem um ambiente comparativamente favorável - isto é, se desta vez fosse o restante da Europa, especialmente a Alemanha, que estivesse experimentando um pequeno boom inflacionário.

De modo que a experiência da Alemanha não é, como os alemães imaginam, um argumento para a austeridade unilateral no sul da Europa; é um argumento para políticas muito mais expansionistas alhures e, em particular, para o Banco Central Europeu (BCE) dar um fim na sua obsessão por inflação e se concentrar no crescimento.

Os alemães, é dispensável dizer, não gostam dessa conclusão, e os dirigentes do BCE tampouco. Eles se aferrarão a suas fantasias de prosperidade pela via dos sacrifícios, e insistirão em que dar continuidade a suas estratégias fracassadas é a única coisa responsável a fazer. Mas tudo indica que eles não terão mais um apoio inconteste do Palácio do Eliseu. E isso significa, acreditem ou não, que tanto o euro como o projeto europeu têm agora uma chance melhor de sobreviver do que tinham alguns anos atrás. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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