''Esses pequenos assassinatos serão sentidos daqui a 10 anos''

Para analista, maior risco de ter um Estado mais forte é a ineficiência, que reduziria o potencial de crescimento do Brasil

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

O sócio da Tendências Consultoria Nathan Blanche é um dos analistas de orientação liberal que criticam o viés estatizante do governo Lula. Para ele, o maior risco de aumentar o peso do Estado na economia é a ineficiência, que faria cair o potencial de crescimento do País.

Quais os riscos de um peso maior do Estado na economia?

Ineficiência. O mundo provou que as empresas privatizadas prestaram um serviço não só à sociedade, mas também à riqueza dos países. Ninguém esquece que um telefone no Brasil custava US$ 5 mil. Hoje, dão linhas de graça. A revolução estrutural que ocorreu afetou os fundamentos da economia. Não tenho dúvida de que, graças a isso, o Brasil passou pela maior crise dos últimos 100 anos ao léu. Claro que sentimos, o PIB vai ser zero este ano, mas vamos voltar a crescer 5%. O espírito dos atuais governantes compromete o êxito que vivemos, que decorre de muitos anos de trabalho. O grande problema, aliás, é que os efeitos positivos e negativos de políticas econômicas são sentidos anos depois. Há um atraso grande entre a adoção e o impacto prático. Esses pequenos assassinatos que estão sendo cometidos só serão sentidos daqui a 10 anos.

O que pode ocorrer com o Brasil com um Estado mais pesado?

É muito simples: volta-se ao passado. Sem o tripé responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação, o Brasil, em vez de crescer 5%, 6%, pode crescer 2%, 2,5%. Digo isso porque há, por exemplo, um risco fiscal para o ano que vem. Em 2010, pode-se até criar uma bolha que faça o País se expandir, quem sabe, até 7%. Mas isso é muito superior ao nosso crescimento potencial. Seria criado um enorme déficit em conta corrente, que faria o dólar subir e, por tabela, a inflação. Portanto, o resultado seria um PIB muito menor, em razão de um juro maior para conter a inflação.

Como avalia as propostas do governo para o pré-sal?

O modelo atual do petróleo (sistema de concessão) mostrou-se bem-sucedido. Hoje, a Petrobrás é uma empresa de credibilidade, se financia pagando menos até do que o governo. Para quê adotar um modelo fracassado (partilha)? Sei que é impossível, com tanta riqueza, não ter um controle maior do Estado. Sou totalmente a favor - mas no gerenciamento. Aliás, gestão por competência, não por critérios políticos.

Na última eleição presidencial, houve um embate entre privatização versus estatização. Naquele momento, a maioria da população se mostrou favorável a uma plataforma de Estado mais forte. Por que isso ocorre no Brasil?

As pessoas, em geral, gostam de um discurso populista, no qual o governo diz que vai cuidar da saúde, vai pagar salários maiores, todos serão felizes... Na área externa, minha especialidade, tem muita gente pedindo a volta dos controles cambiais. Mas o fortalecimento do real se explica pelo êxito do País! As pessoas querem proteger com guarda-chuva furado a ineficiência. Repito: sou totalmente a favor de um Estado mais forte. Mas mais forte em quê? Em normatização. Agências reguladoras, por exemplo, que são como juiz de futebol. Se você deixar por conta dos jogadores, vai ter gente querendo fazer gol de mão. O enfraquecimento das agências é negativo para quem quer investir no País.

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