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Está complicado

Desvalorização recente faz parte de movimento internacional do dólar

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 04h00

A produção industrial de março, divulgada nesta quarta-feira, 03, manteve o padrão deste ano de decepções com os índices de atividade econômica. Em relação a fevereiro, o indicador recuou 0,1%, abaixo da projeção média do mercado, de alta de 0,5%. Esses números eliminam variações sazonais.

Junto com os dados de inflação, que têm vindo mais baixos que as previsões, os indicadores de atividade desapontadores desenham o quadro de uma economia que se recupera, mas num ritmo aflitivamente lento (especialmente para os mais de 13 milhões de brasileiros desempregados).

Mais desagradável é o fato de que o ritmo mixuruca da recuperação se mantém num momento em que a economia internacional dá sinais de que pode se tornar menos benigna para países como o Brasil, e que a preocupação com a eleição começa a entrar no radar dos investidores e do mercado financeiro.

Essa combinação de fatores é preocupante, como atesta Tony Volpon, economista-chefe do UBS (banco suíço) Brasil, e ex-diretor do Banco Central (BC). 

O economista, de início, observa que o ritmo lento da retomada brasileira não deveria ser uma grande surpresa. Em recessões da dimensão atingida entre 2014 e 2016, durante a qual o Produto Interno Bruto (PIB) chegou a cair 7% abaixo do pico anterior, a saída é tipicamente lenta, segundo Volpon. 

Ele nota que fenômenos semelhantes ocorreram nos Estados Unidos e na Europa, após a recessão provocada pela crise financeira global de 2008 e 2009, e no Japão, após o estouro da sua bolha cerca de duas décadas antes.

O grande problema é que a piora do cenário internacional, que já levou o dólar para um nível superior a R$ 3,50, pode atrapalhar ainda mais a retomada brasileira. 

A desvalorização recente do câmbio no Brasil faz parte de um movimento internacional do dólar ante muitas moedas, e está ligada ao fato de que há perspectivas de que a alta já em curso do juro americano seja um pouco menos gradativa e suave do que o anteriormente previsto. 

Na verdade, a economia e o mercado de trabalho dos Estados Unidos estão aquecidos, e há sinais, mesmo que ainda tênues, de que a inflação pode voltar.

Um fator adicional interno é que os juros de curto prazo no Brasil caíram muito, com a taxa básica, a Selic, indo para 6,5%. Assim, a diferença entre o juro americano e o brasileiro diminuiu, o que reduziu o fluxo de capitais que vêm para cá faturar esse tipo de ganho financeiro. E, finalmente, há as muitas incertezas eleitorais no Brasil, que para alguns analistas já entraram no radar do mercado e, para outros, ainda não (o que é até pior – imagina quando entrarem!).

Por enquanto, como aponta Volpon, o dólar andou bem, mas a Bolsa e os juros no Brasil não foram fortemente afetados. Mas mesmo o movimento solitário do câmbio já atrapalha no curto prazo, ele diz, já que o Brasil é bem mais aberto em termo financeiros que comerciais. 

O impacto negativo da desvalorização em empresas expostas à moeda americana (que tenham contraído empréstimo lá fora, por exemplo) é maior que o ganho em termos de aumento de exportações. A atividade sofre, portanto.

Se o dólar se valorizar ainda mais, esse efeito aumenta. Mas o pior é se, como habitualmente no passado, em algum momento a desvalorização do câmbio for acompanhada por alta dos juros de mercado e queda na Bolsa, num clima mais turbulento. Nesse caso, os efeitos negativos sobre a economia seriam muito piores.

Volpon acha que o Banco Central, com R$ 380 bilhões em reservas e ampla capacidade de oferecer swaps cambiais (proteção contra a desvalorização sem envolver gasto de reservas) ao mercado, deveria agir bem mais energicamente no mercado cambial do que fez até agora.

Sem dúvida nenhuma, é uma alternativa. O fato, porém, é que há sinais de que o tempo pode fechar para a economia brasileira num delicado ano eleitoral. Nesse caso, a cigarra mais uma vez terá de passar o inverno ao relento.

COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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