Está difícil fazer os japoneses trabalharem menos

Está difícil fazer os japoneses trabalharem menos

Governo e empresas admitem problema e sofrem pressão para melhorarem o ambiente corporativo

O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 05h00

Yoshihisa Aono poderia servir de modelo para executivos japoneses. Se estivessem em Palo Alto, na Califórnia, as instalações da Cybozu, sua empresa de softwares, talvez fossem consideradas calmas demais. Acontece que estão no centro de Tóquio, região em que diariamente levas de funcionários obcecados pelo trabalho, trajando ternos escuros, ocupam sombrios escritórios funcionais. 

No QG da Cybozu, macacos e papagaios empalhados confraternizam com funcionários de roupas descontraídas que teclam em seus laptops. Aono sai do trabalho às 16h30 para estar com os três filhos. Ao contrário da maioria dos pais japoneses, gozou de licenças-paternidade. Além disso, Santo Deus, ele ainda tira férias! 

Para muitos japoneses, o estilo de trabalho de Aono é radical demais. Para muitos ocidentais, radical demais é o dia de longas horas de trabalho do Japão. Os japoneses são famosos por trabalhar duro – como comprova o grande número de passageiros em estado de semitorpor nos trens de subúrbio. Por trabalharem até muito tarde, ou ficarem bêbados depois do trabalho para aliviar o estresse, muitos nem vão para casa. Preferem comprar na manhã seguinte camisas e gravatas baratas em lojas de conveniência dos distritos comerciais de Nagoya, Osaka e Tóquio e continuar trabalhando. 

Trabalhar 12 horas por dia é comum para os japoneses. As férias são reguladíssimas – quando a pessoa começa no emprego, são apenas dez dias por ano. Ainda assim, os trabalhadores japoneses tiram, em média, apenas metade dos dias a que têm direito. O Japão tem as maiores licenças-paternidade do mundo: podem chegar a um ano. No entanto, apenas 5% dos homens tiram essa licença e, mais uma vez, apenas por poucos dias. O Japão deu ao mundo o termo karoshi, que significa morte por excesso de trabalho.

Segunda Guerra. O atual sistema de trabalho japonês começou com o fim da 2.ª Guerra Mundial, quando soldados derrotados trocaram uniformes por ternos. Os assalariados se tornaram a tropa de choque do milagre econômico japonês, reconstruindo o país durante uma era de crescimento turbinado. As empresas precisavam rapidamente de legiões de trabalhadores homens – as mulheres trabalhavam como secretárias e se tornavam donas de casa quando se casavam. Como estímulo, e em troca de lealdade, funcionários de grandes empresas começaram a ter aumentos regulares de salário, benefícios generosos e garantia de emprego por toda a vida. Os laços do trabalhador com a empresa muitas vezes se tornaram mais fortes que os familiares. 

Mas esse modelo agora está amarrando o Japão. A situação dos empregados homens é péssima, especialmente porque as empresas não mais lucram o suficiente para oferecer a novos empregados os mesmos benefícios e garantias desfrutados pelos mais antigos. É ainda pior para as mulheres. Aquelas bem-sucedidas em corporações dominadas por homens põem a carreira em risco ao terem filhos, pois fica difícil retomá-la. Com a maternidade, um grande número de mulheres simplesmente não volta ao emprego. Quanto aos jovens, muitos desistem da vida corporativa para se tornarem donos ou funcionários de butiques, cafés e coisas do gênero. Eles preferem ganhar menos a ralar em escritórios comportados e monótonos. Nada disso vem ajudando as empresas – o Japão tem a mais baixa produtividade do G-7. 

Governo e empresas cada vez mais admitem o problema e lutam para solucioná-lo. Uma estridente campanha chamada “Cool Biz”, lançada em 2005, visa a fazer com que as pessoas tirem o paletó e a gravata no trabalho. A campanha não é motivada pelo conforto dos funcionários, mas pela economia com o ar condicionado durante o verão. Embora nos meses quentes alguns burocratas já trabalhem com camisas de manga curta, bancários e outros executivos raramente ousam fazer isso. 

A pressão por melhores ambientes de trabalho vem aumentando. Quando uma funcionária da Dentsu, a gigante japonesa da propaganda, suicidou-se, em 2015, um tribunal decidiu que se tratava de um caso de karoshi, o que causou muita preocupação e ansiedade. Numa época em que uma economia em expansão e uma população em declínio vêm resultando em severa escassez de mão de obra, empresas com fama de regime duro de trabalho lutam para contratar funcionários. Altas executivas que quase não viram os filhos enquanto subiam na carreira corporativa hoje se perguntam se o sacrifício compensou.

Mudanças. Algumas empresas estão realmente tentando mudar. Uma consultora da área de bem-estar no trabalho diz que nunca foi tão requisitada. A Panasonic, que em 1965 se tornou a primeira companhia japonesa a adotar a semana de cinco dias, hoje permite que funcionários trabalhem em casa e usem jeans no escritório. No entanto, fortes instintos de acomodação e autossacrifício ainda marcam a sociedade japonesa. A Panasonic admite que poucos saem mais cedo do trabalho, ou usam jeans antes que colegas mais ousados o façam. 

Autoridades precisam dar o exemplo. A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, fecha seu gabinete às 20 horas, o que obriga a equipe a ir para casa. Seguindo a mesma linha, após semanas debatendo mudanças “radicais”, o Dieta (Parlamento japonês) aprovou uma lei pondo água na fervura. Horas extras foram “limitadas” a exaustivas cem horas mensais. 

Os japoneses continuam a trabalhar muitas horas porque, quase sem exceção, grandes empresas insistem em valorizar seus empregados mais pelos anos de casa do que por produção. Salários e promoções são estabelecidos por esse critério. É quase impossível, por lei, demitir funcionários incompetentes se eles estiverem garantidos por contratos permanentes. 

Apenas uma drástica revisão do sistema de trabalho vai funcionar para resolver essa questão. Soluções paliativas não resolvem. Acima de tudo, a lei precisa facilitar contratações e – principalmente – demissões, permitindo que as pessoas mudem mais de emprego que hoje. Isso daria uma sacudida nas relações entre empregadores e empregados. A produtividade aumentaria. Ambientes de trabalho ficariam mais diversificados. As mulheres teriam muito mais benefícios, mas os homens também – por exemplo, pais poderiam ter uma participação maior na criação dos filhos. Com melhores perspectivas de trabalho, casais poderiam ter mais filhos, solucionando ou amenizando um problema que assombra os demógrafos de um país cuja população vem diminuindo. 

Clima de mudança. A hora está propícia a mudanças. A economia está relativamente em boa forma e empresas japonesas estão ansiosas para se adaptarem para competir no mercado internacional. 

Entretanto, ainda há demasiados políticos e executivos homens, conservadores e tímidos. Muitos trabalhadores também não estão acostumados a reivindicar. O conservadorismo continua mais forte no setor trabalhista do que em qualquer outra parte. Mudanças vêm ocorrendo, mas com muita lentidão. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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