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Está ruim? Espere até o teto da dívida vir abaixo

Durante a recente crise financeira, a grande vantagem dos EUA em relação aos outros países foi sua posição de investimento mais seguro do mundo

Ezra Klein, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2011 | 00h00

Timothy Geithner não quer que o mercado fareje o seu medo. "Quero deixar uma coisa perfeitamente clara", ele disse no domingo. "O Congresso elevará o teto da dívida." Mas se havia uma dúvida tão pequena, Geithner não teria sido bombardeado por perguntas a esse respeito nos programas de entrevistas de domingo.

Elevar o teto da dívida pode ser economicamente necessário, mas é politicamente letal. Apenas 16% dos americanos querem que o teto da dívida seja elevado, segundo uma pesquisa realizada pela NBC/Wall Street Journal. Republicanos e democratas são igualmente culpados pelo aumento dos déficits do país. Os cortes de impostos de Bush e o programa de concessão de medicamentos de prescrição a idosos assistidos pelo Medicare, além das várias guerras, contribuem para o aumento da dívida. Todos foram aprovados por maiorias republicanas. O teto da dívida precisou ser elevado sete vezes nos anos Bush e as medidas que contribuíram para os aumentos - sem mencionar a crise financeira que se seguiu - não foram revogadas no governo Obama.

Mas o Partido Republicano quer culpar os democratas e exige concessões em troca dos seus votos. Entretanto, os democratas não pretendem concordar com o plano dos republicanos de negar a responsabilidade pelo endividamento do país e manter como refém o seu rating de crédito a fim de reformular o governo. É exatamente o medo desse tipo de impasse político que levou a Standard & Poor"s a rebaixar a perspectiva de crédito da nação para "negativa" na segunda-feira.

Compreender o perigo representado pelo teto da dívida, contribui para a compreensão da crise financeira. Um grande número de bancos e de investidores detêm ativos baseados em hipotecas que julgavam seguras, quando não eram. O que significou que ninguém sabia quanto dinheiro realmente tinha. Portanto, o mercado fez o que os animais do mato fazem quando estão confusos e assustados: congelou. E, consequentemente, também a economia.

Se o Congresso não elevar o teto da dívida além do seu atual limite de US$ 14,29 trilhões - ou mesmo se esperar demais -, a cadeia de acontecimentos será semelhante. O ativo em questão será o próprio Estados Unidos e não algum título do gênero Frankenstein, feito de hipotecas de bairros residenciais de Reno. Isso significaria que as consequências seriam extremamente piores.

Durante toda a crise financeira, a grande vantagem dos EUA foi sua posição de investimento mais seguro do mundo, o que torna mais fácil tomar dinheiro emprestado para abrandar uma grave crise. Fica mais fácil para o nosso banco central adquirir títulos para manter baixos os juros. Fornece instrumentos e flexibilidade aos contribuintes que, por exemplo, a Grécia não tem. Mas tudo isso baseia-se na percepção do mercado de que nossa dívida é, de fato, um investimento seguro.

Uma vez perdida, a confiança dificilmente pode ser recuperada. "É como um gato que pula sobre um fogão aceso", diz Bill Gross, um dos fundadores da Pimco. "Se ele se queimar uma vez, nunca mais pulará lá em cima de novo."

A propósito, Gross não só acha que o fogão está ficando muito quente, como sua empresa está atiçando o fogo: a Pimco agora aposta contra as notas do Tesouro.

Entretanto, se ele estiver certo, os vários investidores nacionais e estrangeiros que estão comprando as notas do Tesouro acabarão ganhando menos do que esperavam. Ou serão submetidos a tensões e ansiedade, enquanto o Congresso ficar tergiversando e, provavelmente, começarão a investir em outro lugar.

Mas será muito mais difícil se o aumento dos juros se tornar uma armadilha para a recuperação. "Uma vez que os juros comecem a subir, o aumento dos custos representados pelos juros sobre a dívida assustará as monstruosidades do sistema fazendo-as desaparecer, e isso realimentará a desconfiança no mercado", diz David Stockman, que foi diretor do orçamento no governo Ronald Reagan. Em outras palavras, quanto mais o mercado se preocupar com a nossa capacidade de pagar a dívida, mais difícil se tornará pagarmos nossa dívida. Juros altos freiam o crescimento econômico e aumentam o que temos de pagar para tomar dinheiro emprestado.

Tomando o teto da dívida como refém na tentativa de sanar o déficit, o Congresso poderá provocar exatamente a calamidade que está tentando impedir. O que tememos quando estamos preocupados com o déficit é que o mercado perca a confiança na nossa capacidade de saldar as dívidas e comece a cobrar mais para comprar notas do Tesouro. Não há caminho mais rápido para afetar a confiança do mercado no governo dos EUA do que levar o governo para a beira do abismo do calote.

O desastre mais provável não será causado pela recusa do Congresso em elevar o teto da dívida. E, afirma Geithner, o Congresso acabará elevando o teto da dívida, mais cedo ou mais tarde. Mas daqui até lá haverá muitas escaramuças partidárias. Em 2006, o então senador Barack Obama apresentou um voto de protesto contra um aumento do teto da dívida - voto que mais tarde definiu como "erro". Contudo, nossa economia é mais fraca hoje do que era então. Portanto, as escaramuças normais no Congresso poderão se revelar particularmente perigosas. No início deste mês, o Congresso esperou até o último minuto para evitar que o governo ficasse imobilizado e seguramente esperará até o último minuto para decidir a respeito do teto da dívida.

"O risco não é chegarmos a julho e esgotarmos as medidas desesperadas", diz Peter Orszag, do Citigroup, que foi diretor do orçamento de Obama. "Ambos os partidos políticos sabem que seria uma loucura. Mas a preocupação é estarmos em junho e acharmos que ainda há tempo, e o mercado explodir antes."

No fim, a questão do teto da dívida não diz apenas respeito ao teto da dívida. Diz respeito à nossa capacidade de resolvermos nossos problemas econômicos. Se os dois partidos puderem chegar a um compromisso sobre a dívida e os déficits até o fim de maio, fabuloso. Mas se não puderem, dada a questão do teto da dívida, este não é o momento de mostrar aos mercados que Washington está quebrada. Uma vez arrancado o pino da granada, é impossível colocá-lo de volta. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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