‘Estabilidade é meta deste ano’

Economista vê ‘ajuste de mercado’ na desaceleração do aumento de preços, mas diz que o Plano Diretor vai encarecer os imóveis

Heraldo Vaz, ESPECIAL PARA O ESTADO ,

29 de maio de 2014 | 11h53

SÃO PAULO - O economista chefe do Sindicato da Habitação (Secovi) de São Paulo, Celso Petrucci, garante que, apesar da queda de 45% nas vendas do primeiro trimestre, a projeção é de "estabilidade" na produção de apartamentos em relação a 2013, quando o resultado foi de 33 mil unidades na capital. "O segundo trimestre permite manter a projeção de estabilidade para este ano", diz. Em nota, porém, o próprio Secovi afirmou que o setor precisa reagir e retomar o patamar de 30 mil unidades/ano – na média, 2.500/mês. Em março (últimos dados disponíveis), as vendas ficaram 30% abaixo dessa meta mensal. Petrucci leva em consideração que a Copa do Mundo pode prejudicar os negócios em junho e julho, mas reafirma que "o Secovi mantém a expectativa de fechar o ano com um mercado estável em número de unidades lançadas e vendidas". Para mudar o quadro, ele acredita que será preciso analisar os números fechados até junho: "Seja para consolidar nossa projeção ou até reduzir a expectativa, mas não temos dados de mercado que nos permitam fazer isso agora". Ele classifica a curva decrescente na valorização dos imóveis, segundo o índice FipeZap, como "ajuste de mercado", mas diz que o Plano Diretor de São Paulo vai encarecer os terrenos e terá "reflexo no preço dos imóveis".

O Secovi viu sinais de recuperação em março depois de enfrentar o pior primeiro bimestre em vendas desde 2004. Qual a perspectiva até o fim do ano?

Tivemos um trimestre muito fraco tanto em vendas como em lançamentos. Em 2013, o primeiro e segundo trimestres foram extremamente bons, com incremento de 50% no semestre em relação a 2102. No final, crescemos mais de 20% em 2013, quando a percepção da economia já era ruim. Para 2014, todo mundo sabia que haveria crescimento baixo, inflação alta e dificuldades em infraestrutura. É o mesmo quadro macroeconômico de 2013, mas neste ano, além do carnaval em março, teremos Copa do Mundo e, no segundo semestre, eleições presidenciais. Como falamos no balanço anual, a expectativa está mantida. Se 2014 for igual a 2013, ficamos satisfeitos.

A previsão é repetir vendas e lançamentos de 33 mil unidades?

A projeção é de estabilidade. Se vendermos 32 mil e lançar 32 mil, ou 33 e 33, será uma estabilidade do mercado. Continuamos com essa expectativa.

A previsão não mudou após a queda de 45% nas vendas deste ano?

Não alteramos a previsão. Em abril, teve mais movimento do que janeiro e fevereiro, e provavelmente mais que em março. Fazemos acompanhamento semanal, com as grandes imobiliárias e incorporadoras, e já sabemos que o mercado no segundo trimestre nos permite manter a projeção de estabilidade para este ano.

A meta, segundo o Secovi, é retomar o patamar de 30 mil apartamentos/ano, mas, em março, as vendas ficaram 30% abaixo da média de 2.500/mês. Dá para recuperar? A Copa do Mundo pode atrapalhar os negócios em junho e julho?

Quanto menos lançamentos, automaticamente é menor a venda. Como lançamos 26% a menos do que no primeiro trimestre de 2013, vendemos menos do que se pretendia. Foi acima dos 26%, mas tem esse efeito da redução do número de lançamentos. Mesmo considerando que metade de junho e metade de julho serão prejudicadas, o Secovi mantém a expectativa de que, no final de 2014, teremos um mercado estável em número de unidades lançadas e vendidas. Vamos esperar para fazer a leitura do que aconteceu em abril, maio e junho, para poder consolidar essa projeção, ou até reduzir nossa expectativa, mas, por enquanto, não temos dados de mercado que nos permitam fazer isso.

A oferta de crédito imobiliário, que cresceu 24% em março, é o motor para evolução das vendas?

Sim, é um dos principais fatores. Continuamos com recursos abundantes a juros baixos. As taxas não aumentaram porque a Selic subiu. Só para lembrar, os juros, tanto da poupança como do FGTS, são tabeladas na sua captação e na aplicação.

Quais outros fatores positivos?

Continuar com baixa taxa de desemprego e crescimento real da massa salarial, além de um mercado dinâmico para oferecer produtos que caibam no bolso de uma juventude de 25 a 35 anos, o grande público que está comprando sua primeira moradia. Temos bônus demográfico, ou seja, mais pessoas chegando ao mercado de trabalho do que inativas. Isso junto com o aumento da renda, baixo desemprego e o crédito abundante com taxas atrativa é que nos permite ficar – como ficamos o ano passado inteiro – descolado da economia como um todo.

E quais problemas trazem risco de retração no segmento residencial?

Acho que se a percepção de pessimismo na economia se consolidar provocará um efeito psicológico muito grande em quem está adquirindo e financiando seu imóvel.

Analistas falam que é momento de cautela, e há quem diga ser melhor esperar a Copa do Mundo passar antes de comprar. Como isso afeta o mercado?

Tenho dito o seguinte: por que esperar a Copa? Vai cair o preço? Por que não caiu depois da Páscoa? Por que não vai cair depois da eleição? Antes ou depois da Copa, a única coisa que diminui é o número de dias úteis para trabalhar uma venda.

As notícias têm efeito negativo?

Pode até ter, mas as pessoas precisam comprar imóvel. Elas podem até demorar mais, porque, psicologicamente, é um efeito grande. Podem até não tomar decisão por escutar tanto isso que resolvem aguardar um pouco mais. Mas não deixam de precisar do imóvel. Mais hora ou menos hora, a pessoa vem para o mercado. Mesmo porque não temos nada no radar que nos diga que o preço do imóvel vai baixar.

Como o Secovi vê a desaceleração no aumento de preços dos imóveis e quedas nominais no índice FipeZap?

Com bons olhos. É ruim, mesmo para nós que trabalhamos com imóveis novos, quando se vê descolamento de 20% a 30% ao ano, como tivemos no passado. Hoje, o FipeZap está dando 13% no acumulado de 12 meses em São Paulo, mas já tivemos em 35% no ano.

Essa curva decrescente pelo 5º mês consecutivo é ajuste de mercado, uma acomodação de preços?

Podemos chamar de ajuste de mercado, sim. A oferta de imóveis, que tínhamos em 30 de dezembro, era de 19 mil unidades não vendidas. Continuamos com 19 mil. Isso ajuda no equilíbrio, ajuda na redução da curva de aumento de preços.

Por que o Secovi vê um ‘cenário preocupante’ com o novo Plano Diretor e aponta redução no ritmo da atividade imobiliária, restringindo-se a clientes com maior poder aquisitivo?

As propostas do Plano Diretor poderão elitizar mais o mercado na cidade de São Paulo. Cada vez mais vou ter de ofertar produtos para uma classe média e média alta. Porque as restrições urbanísticas do plano vão encarecer o terreno e também a outorga onerosa, que melhora o aproveitamento dos terrenos.

O cenário para 2015, sem Copa do Mundo nem eleições, se apresenta melhor do que em 2014?

Não dá para estabelecer isso. Responderia como no começo do ano: 2014 e 2015 deverão ser anos parecidos com 2013. Mesmo com o debate do Plano Diretor há quase um ano, continuam entrando projetos e sendo aprovados, também já existem vários empreendimentos que serão lançados neste trimestre, no próximo semestre e no ano que vem. Acredito que o Plano Diretor não terá influência para 2014 nem para 2015. Mas, a partir de 2016, com plano em vigor e a lei de zoneamento aprovada, vamos ter um reflexo no preço dos imóveis

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