Estabilidade permite juros baixos, diz Meirelles

Ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles diz que estabilidade econômica possibilita queda gradual dos juros desde 2003, mas desafio é crescer no médio prazo

Mariana Congo,

28 de agosto de 2012 | 20h51

SÃO PAULO - Durante a gestão de Henrique Meirelles à frente do Banco Central, a taxa básica de juros (Selic) saiu do patamar de 25% ao ano em janeiro de 2003 para 10,75% ao ano em dezembro de 2010. Dentre séries de cortes e elevações decididas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) no período, a Selic atingiu máxima de 26,5% em fevereiro de 2003 e mínima de 8,75% em julho de 2009.

Hoje, a taxa básica de juros está em sua mínima histórica, 8%. A expectativa é de novo corte na reunião do Copom que se encerra nesta quarta-feira. Na avaliação do ex-presidente do Banco Central, com a inflação na meta e a estabilidade econômica, a taxa real de juros tem caído gradualmente no País. Segundo Meirelles, o Brasil tem condições macroeconômicas favoráveis, mas o atual desafio é manter o crescimento no médio prazo.

 

Estamos na mínima histórica da Selic. Na sua avaliação, até quando há espaço para cortar juros?

Em primeiro lugar, eu adoto como prática não fazer comentários sobre a gestão no Banco Central, portanto, não estou fazendo comentários específicos sobre isso. Do ponto de vista macroeconômico, a taxa de juros do Brasil tem caído nos últimos anos. A taxa de juros real em 2003 era 14% e isso vem caindo gradualmente com uma inflação na meta. Isso significa que a estabilidade no Brasil tem gerado a possibilidade de que as taxas de juros de fato sejam menores. Isso é uma realidade. Se nós olharmos de 2003 até hoje, isso tem acontecido. E o País cresceu a taxas mais elevadas nos últimos anos. Por exemplo, a taxa de 2004 até a taxa de 2010 foi mais do que o dobro da taxa dos últimos 20 anos anteriores. Então, de fato, as situações estruturais são favoráveis. Agora, o mais importante, é nós verificarmos o que vai acontecer lá na frente e isso vai depender de todas essas medidas estruturais que estão sendo tomadas para aumentar a produtividade da economia brasileira.

Pensando em crescimento econômico, o senhor está otimista? Qual seria seu palpite para o PIB que sai nesta sexta-feira?

O crescimento médio do ano de 2012 tende ser em linha com a expectativa do mercado hoje. De fato, não deve ser um crescimento médio muito elevado se comparado com a média de 2011. Existe sim uma boa possibilidade de recuperação na margem. Isto é, uma recuperação onde o crescimento do trimestre sobre o trimestre anterior no final do ano e no começo do ano já esteja se aproximando de patamares de 4%. Vamos aguardar para verificarmos até que ponto os estímulos e as medidas recentes tomadas pelo governo, de privatização, que têm um efeito de longo prazo, mas também um efeito sinalizador importante de confiança, para que o País possa também fazer com que outros fatores de estímulo tenham um efeito maior. E a grande pergunta, que nós vamos resolver nos próximos anos, que me parece, de fato, a questão mais relevante é sobre qual será a taxa de crescimento prevista para o Brasil nos anos à frente, a médio prazo. Que capacidade o Brasil vai ter de crescer sem pressão inflacionária mais à frente.

Qual a sua avaliação sobre o cenário macroeconômico internacional?

O cenário internacional está, obviamente, muito difícil, principalmente as regiões economicamente mais importantes. Os EUA atravessam uma crise muito séria e estão em processo de recuperação gradual. Existem preocupações de que a atividade econômica possa arrefecer nos EUA novamente, mas o Fed, que é o Banco Central norte-americano, já sinalizou políticas contracíclicas que possam contrabalancear isso. A minha expectativa é que a economia dos EUA pode ter altos e baixos, mas ela tende a uma recuperação gradual. A economia norte-americana é muito eficiente, muito produtiva, muito dinâmica, muito grande, então tem condições de continuar enfrentando a crise.

A situação da Europa é um pouco mais complicada, porque envolve diversos países com políticas muito diferentes. Aqueles países do sul, principalmente, têm dificuldades de ajuste muito grande. Então, não há dúvida de que isso vai representar um efeito depressivo e recessivo na economia mundial. Já a China, que em 2009 ajudou a puxar a economia mundial em direção à recuperação, hoje não está tendo condições de fazer o mesmo. Ao mesmo tempo, existem mudanças estruturais na China, de se deixar o modelo exportador para o modelo voltado ao consumo doméstico e, portanto, com taxa de crescimento menor.

Como esse cenário está afetando o Brasil?

Tudo isso tem impactos diferentes e importantes para o Brasil. Impacto de confiança. Consumidores, empresas e bancos passam a estar mais preocupados e, portanto, podem tentar a diminuir seu nível de atividade e investimento. Existe uma aversão ao risco maior e por isso determinados tipos de investimento podem ter uma demanda menor. As empresas que colocam suas ações na bolsa pela primeira vez, por exemplo, já existe uma demanda menor por isso hoje e, com isso, menos fontes de financiamento. Por outro lado, tem o canal comercial, exportações mais difíceis, mercados mais competitivos, preços menores e também uma pressão maior de importação, na medida em que os exportadores colocam preços menores e fazem um maior esforço de exportações. Portanto, é um cenário mais difícil que tende a ter uma certa influência importante na economia brasileira.

E o Brasil tem condições de continuar a crescer?

O Brasil tem condições macroeconômicas favoráveis: dívida pública sobre produto é hoje menor que a média internacional do G-20. O Brasil tem reservas internacionais muito elevadas, tem um histórico de inflação sob controle nos últimos 10 anos. Isso tudo faz com que o País tenha condições de entrar nessa crise com mais tranquilidade, temos um consumo doméstico forte, uma classe média hoje muito numerosa se comparado com o Brasil do passado. O Brasil tem recursos naturais e é hoje um grande exportador de commodities. Isso tudo faz com que o Brasil tenha condições de continuar crescendo a taxas bastante positivas do ponto de vista da média internacional. Isso tem algumas vantagens. Por exemplo, o investimento estrangeiro direto no Brasil está bastante alto, muito mais elevado do que os analistas previam. Em resumo, o Brasil enfrenta uma situação adversa mas tem condições de manter uma taxa de crescimento bastante aceitável nos próximos anos.

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