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Economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas analisam os 100 primeiros dias do governo Estadão

Estadão/FGV: 100 dias de governo expõem dificuldades de articulação e contradições da agenda liberal

O seminário foi promovido pelo Estadão e pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro

Daniela Amori e Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 15h14

RIO - Os 100 primeiros dias do governo Jair Bolsonaro (PSL) serviram para ajustar expectativas em relação à economia, expuseram as dificuldades de articulação política entre Executivo e Legislativo para tirar propostas e reformas do papel e revelaram contradições internas em torno da agenda liberal capitaneada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. As conclusões saíram do seminário “100 dias do Governo Bolsonaro”, promovido pelo Estadão e pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro.

Criticada, a decisão do governo de impedir a Petrobrás de aplicar reajuste no preço do diesel, tomada na noite de quinta-feira, 11, foi citada como exemplo das contradições em torno da agenda liberal. “Essa decisão foi uma surpresa, foi totalmente contra a política liberal do governo”, afirmou, num dos painéis do seminário, o pesquisador do Ibre/FGV Fernando Veloso, doutor em economia pela Universidade de Chicago. 

Para o pesquisador, o ministro da Economia “surpreendeu positivamente” ao montar uma equipe “muito mais coesa do que se esperava”, mas ações como o reajuste do diesel expõem as contradições. Veloso citou também o perdão de dívidas com o Funrural – o governo lançou um programa de parcelamento de débitos com a contribuição previdenciária do setor, que deu um desconto de R$ 15 bilhões, e um projeto de lei capitaneado pela bancada ruralista no Congresso Nacional pretende perdoar toda a dívida, de R$ 17 bilhões.

Na visão de Veloso, as medidas podem ser uma reação a grupos da sociedade que apoiaram Bolsonaro na campanha, linha de análise também seguida por outro participante do seminário, o pesquisador Samuel Pessôa, também do Ibre/FGV.

Pessôa vê nos interesses corporativos de grupos organizados, como no caso dos caminhoneiros que pedem por controle nos preços do diesel e dos produtores rurais, o maior obstáculo à agenda liberal no País. “A agenda liberal no Brasil é a agenda de enfrentamento dos interesses corporativos e particulares”, disse o pesquisador. 

Em seus comentários no painel, Pessôa desenhou um cenário “sombrio sem ruptura” para a economia brasileira, em que, após a aprovação tardia de uma reforma da Previdência com impacto fiscal desidratado, a atividade econômica ficaria estagnada com crescimento de 1% a 2% ao ano. 

“A minha impressão é que a gente vai para uma estagnação nos próximos anos. Não sei se é 1% ou 2% (de crescimento econômico ao ano). A pergunta é se com uma (reforma da) Previdência medíocre teremos uma ruptura”, disse o pesquisador, respondendo, em seguida, que não vê ruptura na economia, ou seja, uma volta da recessão, por causa de uma série de “amortecedores” de uma eventual crise mais profunda. 

Amortecedores

Entre os “amortecedores”, Pessôa citou o fato de ser feita “alguma reforma” na Previdência, o elevado nível de reservas cambiais, a regra do teto de gastos públicos, que impediria uma elevação exagerada dos gastos, e a inflação baixa, tanto corrente quanto nas expectativas.

Inflação baixa deixaria as taxas de juros nas mínimas históricas, o que, ao lado de devoluções antecipadas da dívida do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com a União, seguram o ritmo de expansão da relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB).

A expectativa de que a proposta de reforma da Previdência enviada pelo governo federal ao Congresso será aprovada foi consensual entre os palestrantes do seminário. Muitos previram, porém, que o formato final após a aprovação terá impacto fiscal inferior ao R$ 1,1 trilhão em dez anos proposto e que a tramitação será longa.

Reforma da Previdência

Para os pesquisadores Sílvia Matos e Bruno Ottoni, também do Ibre/FGV, o governo deveria ter se empenhado em aprovar uma versão mais simples da reforma da Previdência, como a proposta pelo governo do ex-presidente Michel Temer (MDB). A ideia seria destravar as demais reformas ainda necessárias para recuperar a confiança e fazer deslanchar a economia.

“Será que não seria mais fácil ser menos ambicioso e votar a reforma do governo Temer e virar a página e dar prosseguimento às outras reformas?”, ponderou Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre.

Para Ottoni, a prorrogação dos debates sobre o tema pode fazer com que a reforma proposta pelo governo Bolsonaro não apenas se estenda mais tempo do que o desejado, como ainda chegue ao fim do ano “desidratada”. 

Na visão de Manoel Pires, pesquisador do Ibre/FGV e integrante da equipe do Ministério da Fazenda no segundo governo Dilma Rousseff, o governo Bolsonaro erra ao focar no impacto fiscal de em torno de R$ 1 trilhão em dez anos.

Em vez disso, seria melhor abordar a necessidade de uma reformulação da Previdência para manter a sustentabilidade do bem-estar da população. O pesquisador criticou a forma como o governo Bolsonaro enviou a proposta para as mudanças na previdência dos militares. “Foi um tiro no peito da reforma da Previdência”, disse Pires.

Ajuste de expectativas

O coordenador da Economia Aplicada do Ibre/FGV, Armando Castelar, lembrou que o principal movimento de “ajuste de expectativas” nos primeiros 100 anos de governo se deu nas projeções de crescimento do PIB. O pesquisador destacou que a mediana das projeções saiu de 2,5% na virada do ano para 2,0% após as trocas de farpas públicas entre Bolsonaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

“Quando começa um governo, temos uma ideia parca do que vai acontecer. Os 100 primeiros dias servem para afinar as expectativas”, afirmou Castelar.

No campo da política, a opção do governo Bolsonaro por rejeitar as articulações tradicionais do sistema presidencialista de coalizão poderá tornar ainda mais difícil a aprovação de matérias no Congresso ou, num cenário extremo, levar à queda do governo, na avaliação do cientista político Carlos Pereira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV).

Segundo Pereira, o sistema político brasileiro “já deu provas” de que é capaz de “dar cabo” de presidentes que não atendem à expectativa de seguir as regras tradicionais do sistema, citando os impeachments dos ex-presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff

Outra possibilidade, segundo o cientista político, é a falta de articulação com o Legislativo “encarecer” o custo da negociação pela aprovação de matérias de interesse do governo. Isso porque, explicou Pereira, o sistema presidencialista de coalizão tem como regras tradicionais o uso de “moedas de troca”, legítimas e legais, em nome de obter apoio, como a liberação de emendas parlamentares no Orçamento e a divisão de poder na burocracia com a nomeação para cargos estratégicos.

A aprovação, na Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que tornou obrigatória a execução das emendas parlamentares ao Orçamento, segundo Pereira, é uma reação do Legislativo à falta de negociação por parte do governo. Com a medida, a “moeda de troca” da liberação das emendas fica prejudicado. 

“O governo está contrariando a natureza do sistema. Ou esse sistema vai inflacionar o preço do apoio, incorporando as moedas tradicionais como dadas, ou o próprio sistema vai dar um jeito de se livrar desse corpo estranho”, afirmou Pereira.

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FGV/Estadão: Com reforma desidratada, cenário é ‘sombrio sem ruptura’, afirma Pessôa

“A minha impressão é que a gente vai para uma estagnação nos próximos anos", disse o pesquisador Samuel Pessôa

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 14h27

RIO – O pesquisador Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), traçou há pouco um cenário “sombrio sem ruptura” para a economia brasileira, em que, após a aprovação tardia de uma reforma da Previdência com impacto fiscal desidratado, a atividade econômica ficaria estagnada com crescimento de 1% a 2% ao ano.

“A minha impressão é que a gente vai para uma estagnação nos próximos anos. Não sei se é 1% ou 2% (de crescimento econômico ao ano). A pergunta é se com uma (reforma da) Previdência medíocre teremos uma ruptura”, disse Pessôa, em mesa-redonda no seminário “100 dias do Governo Bolsonaro”, promovido pelo Estadão e pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, 12.

Em seguida, o pesquisador respondeu que não vê ruptura na economia, ou seja, uma volta da recessão, por causa de uma série de “amortecedores” de uma eventual crise mais profunda. Entre os “amortecedores”, Pessôa citou o fato de ser feita “alguma reforma” na Previdência, o elevado nível de reservas cambiais, a regra do teto de gastos públicos, que impediria uma elevação exagerada dos gastos, e a inflação baixa, tanto corrente quanto nas expectativas. 

“Isso significa que vamos conseguir rodar nos próximos meses com taxas de juros muito baixas”, afirmou Pessôa, completando que juros baixos ajudam a segurar o ritmo de expansão da relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB), especialmente se acompanhados de devoluções antecipadas da dívida do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com a União.

Também na mesa-redonda, o pesquisador Fernando Veloso, também do Ibre/FGV, disse que esse cenário não chegaria ser “sombrio”, mas, sim, otimista. Na visão de Veloso, embora o cenário traçado por Pessôa faça sentido do ponto de vista da economia, não seria equilibrado do ponto de vista social. Ou seja, com elevado nível de desemprego, a população não suportaria um cenário de estagnação da economia.

“Se não aprovar a (reforma da) Previdência com de R$ 700 bilhões a R$ 800 bilhões (de impacto fiscal), acho muito difícil que consigamos prolongar a estagnação por muito mais tempo”, afirmou Veloso, apostando que, no caso de as mudanças previdenciárias serem aprovadas com baixo impacto, haveria ruptura na economia.

No debate, Veloso defendeu reformas profundas de modelo econômico, como as que o ministro da Economia, Paulo Guedes, vem propondo, com foco no aumento da produtividade. Nas contas do pesquisador, a produtividade da economia no Brasil cresceu, em média 0,5% ao ano nos últimos 30 anos.

O baixo crescimento da produtividade deveria ter tido maior impacto na economia real, mas acabou mascarado pelo “bônus demográfico” e o “boom de commodities”. Agora, porém, o problema da baixa produtividade ficará mais visível.  

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Pesquisador diz que estratégia de Bolsonaro de formar maiorias pontuais dificulta agenda liberal

"Como um presidente minoritário de extrema direita vai formar maiorias pontuais?", questionou Octavio Amorim, pesquisador da FGV

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 13h21

RIO - A estratégia do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de formar maiorias pontuais para aprovar projetos de interesse do governo dificulta a implementação da agenda liberal no País, avaliou Octavio Amorim, pesquisador da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV), durante o seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV) em parceria com o Estadão, no Rio de Janeiro, para analisar os 100 primeiros dias de governo.

“Se a agenda liberal é para prosperar, seria muito melhor ter maioria no atacado, não no varejo. Esse é um modelo de governança muito difícil, quase simplório. Numa estratégia de maiorias pontuais, o presidente tem que ser equilibrista. Como um presidente minoritário de extrema direita vai formar maiorias pontuais?”, questionou o pesquisador da Ebape/FGV. “Um naco do programa liberal vai ficar na boca dos tubarões”, ironizou Amorim.

Amorim lembrou que há diferentes grupos na base do governo, que têm se chocado publicamente, o que dificulta consenso entre os temas que precisam ser debatidos, uma vez que acabam sendo negociados com cada um deles. “O presidente até hoje não estabeleceu a importância relativa dos grupos que estão no governo nem a hierarquia”, lembrou.

Para Samuel Pessôa, o presidente inaugurou uma forma de relacionamento com o legislativo que ainda não tem sido bem-sucedida, pelo menos na questão da discussão da reforma da Previdência.

“A gente tem um presidente que tem uma nova forma de relacionamento com o legislativo, uma nova prática. A gente não sabe exatamente o que é, mas parece que é ‘eu faço projeto com minhas equipe técnica, um projeto que é bom para o País, eu mando para o Congresso e ele tem que aprovar’. A coisa tem que andar por gravidade, sem a liderança da figura da Presidência para tocar o projeto. Na Previdência está indo muito mal”, opinou Pessôa.

No entanto, o pesquisador do Ibre/FGV acredita que Bolsonaro tenha sido bem-sucedido no sentido de conseguir jogar uma responsabilidade do executivo para o congresso. “Acho que é um custo muito alto, porque a gente vai aprovar uma Previdência muito tarde e muito pequena. Mas parece que ele conseguiu começar a mudar as coisas”, completou Pessôa.

A nova forma de operar do governo Bolsonaro deve resultar numa “agenda caótica por um bom tempo”, alertou Amorim. “O recurso mais precioso em qualquer lugar do mundo é o tempo. Se o presidente não entra para negociar essa agenda com diversos partidos, o risco de caos é muito grande. O potencial de interrupção da agenda liberal é muito grande”, acredita o pesquisador da Ebape/FGV.

Segundo Fernando Veloso, também pesquisador do Ibre/FGV, a votação surpresa e quase unânime do orçamento impositivo no congresso confirma uma mudança na condução da agenda. “Não sei se vai ser bom ou ruim, mas a dinâmica mudou”, disse Veloso. “O congresso vai votar a agenda deles”.

O secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, Roberto Fendt, defendeu que a sequência de reformas proposta durante a campanha seja seguida, sob pena de penalizar alguns setores da economia: primeiro a reforma da Previdência, seguida pela reforma tributária, e só então a prometida abertura comercial.

“A meu ver, esse sequenciamento é adequado. Porque o grande problema de reformas é um erro de sequenciamento”, afirmou Fendt.

Estadão e FGV

Analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). É esta a proposta do evento que acontece nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro. O debate contará com pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), convidados e jornalistas do Estado. Confira a programação completa.

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FGV/Estadão: 'Impedir reajuste do diesel vai contra agenda liberal'

Fernando Veloso, pesquisador da FGV, analisa, ao lado de outros economistas da Fundação, os 100 dias do Governo Bolsonaro; seminário é promovido pelo Estado

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 12h15

RIO - A decisão do governo Jair Bolsonaro (PSL) de impedir a Petrobrás a aplicar reajuste no preço do diesel, tomada na noite desta quinta-feira, 11, vai “totalmente contra” a agenda liberal encarnada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes

A afirmação foi feita por Fernando Veloso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e doutor em economia pela Universidade de Chicago, durante mesa-redonda no seminário “100 dias do Governo Bolsonaro”, promovido pelo Estadão e pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, 12.

“Essa decisão foi uma surpresa, foi totalmente contra a política liberal do governo”, afirmou. Para o pesquisador, as posições de Guedes trazem uma agenda liberal diferente das anteriores que foram colocadas em outros governos e o Ministério da Economia “surpreendeu positivamente” ao montar uma equipe “muito mais coesa do que se esperava”. 

No entanto, ações como o reajuste do diesel pela Petrobras e o perdão de dívidas com o Funrural mostram contradição – o governo lançou um programa de parcelamento de débitos com o Funrural, contribuição previdenciária do setor, que deu um desconto de R$ 15 bilhões, mas um projeto de lei capitaneado pela bancada ruralista no Congresso pretende perdoar toda a dívida, que soma R$ 17 bilhões.

“Isso vai contra a ideia (liberal) mais profunda de acabar com subsídios”, disse Veloso. Na visão dele, as medidas podem ser uma reação a grupos da sociedade que apoiaram Bolsonaro na campanha. 

O pesquisador Samuel Pessôa, também do Ibre/FGV, vê nos interesses corporativos de grupos organizados o maior obstáculo à agenda liberal. É justamente o caso dos caminhoneiros, que reclamavam dos reajustes no diesel.

“A agenda liberal no Brasil é a agenda de enfrentamento dos interesses corporativos e particulares”, disse Pessôa, na mesma mesa-redonda que Veloso. 

O problema, para Pessôa, é que é a experiência mostra que é mais difícil fazer reformas que enfrentem interesses corporativos. A resistência à reforma da Previdência seria um exemplo disso.

“Tem alguma coisa no funcionamento do sistema político brasileiro que faz com que nosso presidencialismo tenha uma sensibilidade maior a interesses corporativos”, disse o pesquisador. 

 

Estadão e FGV

Analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). É esta a proposta do evento que acontece nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro. O debate contará com pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), convidados e jornalistas do Estado. Confira a programação completa.

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FGV/Estadão: 'Rejeição à articulação tradicional pode derrubar governo'

Segundo Carlos Pereira, o sistema político brasileiro “já deu provas” de que é capaz de “dar cabo” de presidentes que não atendem à expectativa de seguir as regras tradicionais do sistema

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 11h53

RIO – A opção do governo Jair Bolsonaro por rejeitar as articulações políticas tradicionais do sistema presidencialista de coalizão poderá tornar ainda mais difícil a aprovação de matérias no Congresso Nacional ou, num cenário extremo de crise, levar à queda do governo, na avaliação do cientista político Carlos Pereira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV).

Segundo Pereira, o sistema político brasileiro “já deu provas” de que é capaz de “dar cabo” de presidentes que não atendem à expectativa de seguir as regras tradicionais do sistema, citando os impeachments dos ex-presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff

“O receio é haver uma crise política séria diante de um presidente que não consegue compreender como funciona o presidencialismo de coalizão”, afirmou Pereira, referindo-se a Bolsonaro, em mesa-redonda no seminário “100 dias do Governo Bolsonaro”, promovido pelo Estado e pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, 12.

Outra possibilidade, segundo o cientista político, é a falta de articulação com o Legislativo “encarecer” o custo da negociação pela aprovação de matérias de interesse do governo. Isso porque, explicou Pereira, o sistema presidencialista de coalizão tem como regras tradicionais o uso de “moedas de troca”, legítimas e legais, em nome de obter apoio, como a liberação de emendas parlamentares no Orçamento e a divisão de poder na burocracia com a nomeação para cargos estratégicos.

PEC

A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que tornou obrigatória a execução das emendas parlamentares ao Orçamento, segundo Pereira, é uma reação do Legislativo à falta de negociação por parte do governo. Com a medida, a “moeda de troca” da liberação das emendas fica prejudicado. 

“O governo está contrariando a natureza do sistema. Ou esse sistema vai inflacionar o preço do apoio, incorporando as moedas tradicionais como dadas, ou o próprio sistema vai dar um jeito de se livrar desse corpo estranho”, afirmou Peireira.

Ainda assim, o cientista político aposta na aprovação da reforma da Previdência. Isso porque o segmento da sociedade, incluindo a opinião pública, que define as políticas públicas, como empresariado e políticos, já vê o ajuste na Previdência como consensual. O problema é que, até a aprovação, haverá muito vaivém, crises políticas e volatilidade na economia. 

Estadão e FGV

Analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). É esta a proposta do evento que acontece nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro. O debate contará com pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), convidados e jornalistas do Estado. Confira a programação completa.

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FGV/Estadão: Economistas defendem Previdência mais simples, porém mais rápida

Economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas analisam os 100 primeiros dias do governo, em parceria com o Estado, nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 10h44

RIO -  O governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) deveria se empenhar em aprovar uma versão mais simples da reforma da Previdência, como a versão proposta pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). 

Segundo economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) a atitude destravaria as demais reformas ainda necessárias para recuperar a  confiança e fazer deslanchar a economia

“Será que não seria mais fácil ser menos ambicioso e votar a reforma do governo Temer e virar a página e dar prosseguimento às outras reformas”, ponderou Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, durante o seminário promovido em parceria com o Estado, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, 12, para analisar os 100 primeiros dias do governo.

Matos mostrou-se preocupada com a busca por uma reforma muito completa, mais complexa, que sofra mais resistência e necessite de mais tempo e articulação para que seja enfim aprovada. “Provavelmente a gente pode levar muito tempo a ter essa garantia. Enquanto isso, paira certa incerteza, prejudica investimentos e tomada de decisão”, lembrou.

O pesquisador Bruno Ottoni concorda que a prorrogação dos debates sobre o tema pode fazer com que a reforma proposta pelo governo Bolsonaro não apenas se estenda mais tempo do que o desejado, como ainda chegue ao fim do ano “desidratada”.

“Houve queda da expectativa de crescimento (da atividade econômica) para esse ano, isso tem atraído muita atenção pública e tem diminuído espaço para articulação da aprovação dessa reforma”, ressaltou Ottoni.

Para o pesquisador Manoel Pires, o governo Bolsonaro erra ao focar na economia perseguida de R$ 1 trilhão para os cofres públicos que será conquistada com a reforma, em vez de abordar a necessidade de uma reformulação da previdência para manter a sustentabilidade do bem-estar da população.

“Não tenho dúvida que teria muito mais apoio popular se tivesse sido feita em outra configuração”, defendeu Pires, do Ibre/FGV. Ele acredita que a sociedade esteja muito favorável à reforma, mas criticou a proposta do governo Bolsonaro para as mudanças na previdência dos militares. “Foi um tiro no peito da reforma da Previdência”, resumiu.

Estadão e FGV

Analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). É esta a proposta do evento que acontece nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro. O debate contará com pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), convidados e jornalistas do Estado. Confira a programação completa.

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Castelar: 'Ajuste de expectativas com Bolsonaro se deu no PIB'

Para o coordenador da Economia Aplicada da Fundação Getúlio Vargas, daqui para frente, as incertezas residem em para onde vão as projeções de crescimento econômico

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 10h32

RIO – O principal movimento de “ajuste de expectativas” em relação ao que o governo Jair Bolsonaro (PSL) poderia entregar se deu nas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), afirmou o coordenador da Economia Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Armando Castelar, nesta sexta-feira, 12.

O pesquisador destacou que, a mediana das projeções saiu de 2,5% na virada do ano para 2,0% após as trocas de farpas públicas entre Bolsonaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

“Quando começa um governo, temos uma ideia parca do que vai acontecer. Os 100 primeiros dias servem para afinar as expectativas”, afirmou Castelar, em palestra no seminário “100 dias do Governo Bolsonaro”, promovido pelo Estadão e pelo Ibre/FGV, no Rio de Janeiro, para analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Bolsonaro.

Segundo Castelar, o apoio do empresariado e da imprensa à reforma da Previdência, a falta de apoio do próprio governo as mudanças previdenciárias (com exceção do Ministério da Economia), a rápida queda na popularidade e o abandono explícito do “presidencialismo de coalizão” foram os movimentos que mais surpreenderam nos 100 primeiros dias do governo Bolsonaro.

Para Castelar, daqui para frente, as incertezas residem em para onde vão as projeções de crescimento econômico. O pesquisador apostou num nível de 1,5% de alta do PIB, especialmente porque não está claro qual impulso uma reforma da Previdência poderá dar na atividade econômica. Ainda mais por que não está claro qual será o impacto fiscal final da reforma após a aprovação no Congresso Nacional nem quando a proposta passará.

“Talvez fosse melhor apostar na reforma (do governo Michel) Temer, que já estava na Câmara”, disse Castelar, lembrando que Bolsonaro optou por uma proposta mais ampla e ambiciosa, mas também mais arriscada. “A grande pergunta é se vamos conseguir algo melhor do que a reforma Temer”, completou o pesquisador. 

Estadão e FGV

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Shymura sobre Previdência: 'Reforma é fundamental para reverter déficit primário'

O diretor do Instituto Brasileiro de Economia da FGV falou durante seminário promovido em parceria com o Estado, para analisar os 100 primeiros dias do governo Bolsonaro

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 10h18

RIO - A reforma da Previdência terá um impasse expressivo, por tocar num assunto sensível à população, mas é fundamental para reverter a tendência de crescimento do déficit primário do governo

A declaração foi dada por Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, durante seminário promovido em parceria com o Estado, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, 12, para analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

"Nenhuma reforma da Previdência em nenhum lugar do mundo foi fácil", lembrou Schymura, acrescentando que as mudanças precisam ser feitas por conta de gastos materiais que interessam diretamente à população. 

O diretor do Ibre/FGV ressalta que o País tem uma dívida que chega a 80% do Produto Interno Bruto (PIB), o que ele considera um patamar elevado para um País emergente, embora não seja ainda "dramático". No entanto, a grande preocupação é com o problema estrutural do déficit primário do governo, já que tendência é de crescimento. "É difícil traçar qualquer cenário que o déficit não cresça de forma expressiva nos próximos anos", alertou. 

Schymura lembrou ainda outros desafios enfrentados pelo governo, como o cenário de baixa empregabilidade e a necessidade de um forte ajuste nos serviços de segurança pública, além dos sistemas de saúde e educação precisando de uma atenção especial.

"Os 100 primeiros dias começam a dar uma ideia de para onde as coisas estão indo, as dificuldades que o governo encontra, um momento oportuno para refletirmos sobre o que aconteceu e, sobretudo, o que está por vir", concluiu Schymura.

Para João Caminoto, diretor de jornalismo do O Estado de S. Paulo, os ataques à imprensa praticados de forma recorrente por integrantes e aliados do governo pesam negativamente no balanço dos três primeiros meses da gestão de Bolsonaro.

"Uma coisa que precisamos condenar nesses primeiros cem dias são os ataques à imprensa de forma indiscriminada, através de fake news, através de profissionais da imprensa. É um balanço extremamente negativo para o governo", declarou Caminoto, no painel de abertura do evento. "Esperamos que haja reflexão e reversão desse comportamento extremamente condenável", completou.

Estadão e FGV

Analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). É esta a proposta do evento que acontece nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro. O debate contará com pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), convidados e jornalistas do Estado. Confira a programação completa.

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