Estadista frustrado da Alemanha, Schaueble faz 70 anos

Wolfganf Schaueble não chegou nem a chanceler nem a presidente, mas como ministro de Finanças conduz o país na crise do euro

GERD, LANGGUTH, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h06

Artigo

Wolfgang Schaueble, ministro alemão de Finanças que completou 70 anos ontem, teve os dois maiores objetivos de sua vida política ao seu alcance - mas ambos lhe foram negados. Ele não se tornou chanceler nem presidente. Será que isso ainda o incomoda hoje?

Foi sua sina política ficar estreitamente ligado ao destino de Helmut Kohl, seu antigo mentor, que não teve a menor intenção de aplainar o caminho de Schaueble à chancelaria. E quando Kohl caiu, arrastou Schaueble consigo. A culpa foi dos dois - eles estavam acorrentados um ao outro, nos bons e nos maus tempos.

O escândalo das doações que abalou seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), marcou um ponto de virada na biografia política de Schaueble. Em dezembro de 1999, ele inicialmente negou que havia recebido dinheiro do "empresário" Karlheinz Schreiber, mas depois admitiu ter recebido 100 mil marcos para a CDU.

Após seu desentendimento com Kohl, Schaueble se recusou a falar com o ex-chanceler. Kohl também evitou seu aparente herdeiro.

Kohl frustrou a tentativa de Schaueble de conseguir a chancelaria. Mas Schaueble superou sua queda e conduziu a Alemanha na crise financeira e, agora, na crise do euro como ministro de Finanças.

Em 1990, um atirador mentalmente perturbado deu um tiro nele durante campanha eleitoral. Os médicos lutaram para mantê-lo vivo. Eles o salvaram, mas Schaueble ficou confinado a uma cadeira de rodas desde então. Em 2004, Angela Merkel não quis nomeá-lo seu candidato para a presidência e optou por Horst Koehler, homem que empalidece numa comparação com Schaueble. O fato de Schaueble ter entrado posteriormente no gabinete de Merkel é um sinal de sua enorme autodisciplina. Na época, ele guardou um profundo rancor por Merkel, segundo seu biógrafo Hans Peter Schütz.

Schaueble é definitivamente um tático astuto e um político consumado, como provou em muitos cargos oficiais. Estava no seu elemento como chefe de gabinete de Kohl e aproveitou a aversão do chanceler pelos detalhes políticos. Teve carta branca, e agarrou as oportunidades e fez um bom trabalho.

Seu golpe de mestre foi o tratado de unificação entre a Alemanha Oriental e a Ocidental. E ele merece crédito pela maneira suave e pacífica com que as duas partes se reunificaram. Essa é e continua a ser sua maior realização.

Como ministro de Finanças, hoje, ele tira alguma satisfação de seu papel como tesoureiro da Europa - sem a sua bênção, pouca coisa acontece nos assuntos financeiros do continente.

Mas há contradições nisso. Ele tem dado muitas entrevistas salientando a filosofia europeia de que a estabilidade monetária precisa ter total prioridade. Ao mesmo tempo, porém, indica que apoia mais Mario Draghi do Banco Central Europeu (BCE) do que o chefe do Bundesbank, Jens Weidmann, um firme adversário das compras de bônus. Contra a vontade de Schaueble não haveria financiamento estatal por compras ilimitadas de bônus pelo BCE nos países em crise do sul da Europa.

Ninguém, nem mesmo Merkel, sabe o que Schaueble realmente pensa e sente. A despeito disso, ou talvez por causa disso, ele continua a fascinar pessoas. Sua luta contra a deficiência física comove as pessoas, e elas gostam da maneira clara e sucinta com que ele explica as políticas. Isso também conta para seu sucesso político. Ele pode ser extremamente encantador quando quer.

Mas tem um outro lado também. Schaueble uma vez humilhou seu ex-assessor de imprensa, Michael Offer, censurando-o diante vários repórteres por não ter distribuído as notas de briefing em tempo. Foi uma demonstração desagradável de poder.

Hans-Jochen Vogel, o ex-líder dos social-democratas da oposição, disse, certa vez, que a tentativa de assassinato havia transformado Schaueble em um homem amargo. Essa observação aborreceu o ministro..

Mas a verdade é que há dois Schauebles. O competente e sorridente salvador do euro, de um lado, e o político do poder frio que aguçou seus dentes contra Helmut Kohl. Seja como for, ele é um político excepcional. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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