Imagem Elena Landau
Colunista
Elena Landau
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Estado da Nação

O País não suporta mais o dissenso visto nos últimos anos entre os poderes

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2019 | 04h00

Governo empossado. Agora começa o trabalho para valer. Bolsonaro pode não ter sido eleito por conta da agenda econômica, mas certamente será a pauta reformista liberal que definirá o sucesso de seu governo. E não em quatro anos, mas em quatro meses. Não há tempo a perder. Desde Dilma I que um presidente não assume com a legitimidade de Bolsonaro. Gostemos dele ou não, tenhamos votado nele ou não.

Temer entregou o País em melhores condições que recebeu, mas ainda há muito o que fazer. A lista é imensa: reformas da Previdência e do funcionalismo, ajuste das finanças estaduais, reforma tributária, abertura comercial, privatização, educação, melhoria da infraestrutura, mobilidade urbana, saneamento e muito mais. Tenho certeza que cada leitor adicionará mais uma reforma que pensa ser fundamental. Mas o pano de fundo é o mesmo: a crise fiscal e a baixa produtividade de nossa economia. Neste cenário crítico, o governo que começa terá que gerar empregos. E não adiantará vir com distrações como posse de arma ou qualquer uma de suas bandeiras conservadores nos costumes. Agora é a economia, estúpido.

As condições favoráveis estão postas. Bolsonaro deixou claro que a área econômica está fora do alcance de eventuais negociações políticas. Cumpriu suas promessas de campanha com nomeações em outras atividades indicando militares, conservadores e pastoras. Um pé no conservadorismo de costumes e outro no liberalismo econômico. Atraiu para sua equipe econômica bons nomes do governo Temer, juntando experiência na vida pública com novos técnicos que prometem ir fundo nas reformas liberais. Amém.

Mas falta um pequeno detalhe: o Congresso Nacional. Ele vem renovado, o que não quer dizer que tenha melhorado. “Está achando ruim essa composição do Congresso? Então espera a próxima”, era a profecia de Dr. Ulysses que, mais do que nunca, reflete nosso momento.

Depois de celebrar a derrota de velhos políticos, a sociedade que quer ver mudanças se deu conta de que não sabe o que pensa esse novo grupo de parlamentares que chega. O fato de o partido do presidente, o PSL, ter conseguido tantas cadeiras não garante a aprovação das reformas necessárias, especialmente a da Previdência, a mãe de todas. A bancada governista tem origem em corporações que serão as mais atingidas pelo fim dos privilégios do Regime Público (RPPS). O próprio Bolsonaro, apesar de ter dados enormes poderes a Paulo Guedes, ainda deixa no ar dúvidas sobre seu apoio às mudanças radicais que o ministro pretende implementar de imediato. Mas não é mais hora de andar em zona cinzenta.

Com muitos anos de atraso, vi a série West Wing numa maratona. Todas as temporadas de uma vez. Narra os bastidores da presidência de um democrata, ganhador do prêmio Nobel de economia. Pura ficção. Em um dos episódios uma inteligente assessora, vinculada ao Partido Republicano, é contratada para sua equipe exatamente para fazer um contraponto. As discussões sobre tributação e a presença do Estado na visão de cada partido são deliciosas.

Mas os melhores momentos eram os que traziam os preparativos para apresentação do presidente do State of the Union na abertura dos trabalhos legislativos, uma tradição da democracia americana. O presidente vai ao Congresso para apresentar o estado da Nação, trazendo relatórios sobre a economia e, ao mesmo tempo, propõe o orçamento do ano seguinte elencando as prioridades nacionais. Membros da Suprema Corte também podem estar presentes, unindo simbolicamente os Três Poderes em torno de uma agenda econômica.

Tenho um sonho de ver no Brasil um ritual parecido com esse. O País não suporta mais o dissenso visto nos últimos anos entre os poderes. Isso não significa apoio incondicional, nem que falte legitimidade na oposição. Ninguém, eleitor ou não de Bolsonaro, aguenta mais o clima de pessimismo e brigas. O presidente tem preferido se comunicar via redes sociais. Espero que ao assumir não utilize a linguagem das redes. Buscar apoio a reformas tão importantes demanda muito negociação. Com lacração não vai funcionar.

Bolsonaro veio do Congresso. Conhece bem seu funcionamento. Tem que usar essa experiência a seu favor. Poderia inaugurar os trabalhos do novo Congresso com um Estado da Nação.

*ECONOMISTA E ADVOGADA

Mais conteúdo sobre:
economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.