Estado de estagnação confirmado no 3º tri tende a se prolongar

ANÁLISE: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2014 | 02h03

A variação do PIB, no terceiro trimestre de 2014, divulgada ontem pelo IBGE, reforçou o quadro que se tornou claro ao fim do primeiro semestre. Esse quadro mostra um estado de estagnação econômica, com pouco espaço para reversão no curto prazo. Com os números do período julho-setembro, ampliaram-se as possibilidades de que a economia cresça menos de 0,5% no quarto trimestre e feche o ano entre zero e 0,3%. O resultado projetado para este ano é uma razoável aposta preliminar para o desempenho de 2015.

É um pouco perda de tempo agarrar-se a referências mecânicas e de baixo valor explicativo como o da "recessão técnica". O conceito, muito difundido e popularizado, determina, automaticamente, que uma economia entrou em recessão quando a variação do PIB recua dois trimestres seguidos, em relação aos anteriores. Com o milimétrico crescimento do terceiro trimestre, a economia saiu da "recessão técnica", mas nem por isso deixou o terreno da estagnação. Bastaria descontar a "exportação" de duas plataformas de petróleo, no período, para dissolver a "recuperação".

Se estagnação define o nome do atual estado da economia, incertezas e desconfianças são os elementos que mais contribuem para ele. A redução no ritmo de expansão do consumo das famílias, que responde por quase dois terços do PIB e é agora uma das causas diretas da marcha lenta na atividade econômica, por exemplo, também se deve a dois esses dois fatores.

No terceiro trimestre, o consumo das famílias recuou 0,3% sobre o trimestre anterior e avançou mísero 0,1%, em relação ao terceiro trimestre do ano passado. Essa quase nenhuma expansão só não é menor do que a registrada no terceiro trimestre de 2003, período de forte ajuste econômico, na transição de FHC para Lula, quando o consumo das famílias observou contração de 1,5%. Nem em 2009, quando a crise global derrubou o PIB brasileiro, a variação do consumo foi tão rala.

Embora o rendimento médio no mercado de trabalho ainda esteja em alta, incertezas em relação ao futuro próximo da atividade e do emprego entram nessa equação ajudando a formar expectativas adversas. As expectativas não só contribuem para refrear a intenção de consumo como afetam, negativamente, o crédito que a impulsiona.

São também as incertezas e as desconfianças que compõem a argamassa do muro que tem separado as empresas dos investimentos. No terceiro trimestre, o investimento, representado pelo volume de capital físico acumulado, foi um dos principais itens de sustentação da economia, com um avanço de 1,3% sobre o segundo trimestre, o primeiro depois de quatro trimestres de números negativos. Mas essa alta não retrata um movimento consistente.

Para começar, em relação aos últimos 12 meses, o que se observa é uma retração de 8,5% nas inversões, em relação ao igual período do ano anterior, com a taxa de investimento descendo a 17,3% do PIB. Depois, com margens de lucro das empresas comprimidas - o que explica, em boa parte, o recuo da poupança para 13,2% do PIB, no terceiro trimestre -, é difícil esperar uma onda de investimentos no curto prazo.

Mesmo que fosse possível recuperar mais rapidamente a confiança na retomada da economia, não há poupança para sustentar inversões com recursos próprios e os custos dos financiamentos são desestimulantes. Diante desse cenário, a fase de estagnação ou, pelo menos, de baixo crescimento, na economia brasileira, tende a se prolongar.

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