‘Estado’ enviou Euclides a Canudos

Reportagens do escritor em um dos conflitos mais sangrentos da história do Brasil inspiraram ‘Os Sertões’ 

Ubiratan Brasil, de O Estado de S.Paulo,

23 de maio de 2012 | 19h00

SÃO PAULO - Obra fundamental da literatura mundial, Os Sertões nasceu nas páginas do Estado. Publicado em dezembro de 1902, o livro foi escrito por Euclides da Cunha (1866-1909) com base na cobertura feita para o jornal sobre um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira: a ação vitoriosa do Exército contra revoltosos instalados na cidade baiana de Canudos. As reportagens inspiraram um livro cujo texto ainda hoje surpreende pelo vigor da linguagem, o deslumbramento dos cenários e pela singularidade dos homens e dos quadros apresentados.

Escolhido por Julio Mesquita para cobrir o evento, no qual o exército enfrentou seguidores de Antônio Conselheiro que resistiam à proclamação da República, Euclides deixou a capital paulista no dia 1.º de agosto de 1897. Naquele momento, outros correspondentes já acompanhavam as infrutíferas tentativas do Exército para sufocar o levante e Euclides destacava-se como o escolhido natural para representar o Estado: colaborador havia nove anos e dono de uma bela escrita, o autor publicara, nos dias 14 de março e 17 de julho daquele ano, dois artigos com o título comum de A Nossa Vendeia.

Nesses textos, Euclides - homem disposto a aventuras - não apenas apresenta aspectos físicos daquela região do sertão como também se aventura a dar palpites sobre as dificuldades táticas e estratégicas do levante. Mas, no período em que cobriu o levante, Euclides passou por um verdadeiro rito de passagem: se quando deixou São Paulo estava seguro da natureza monarquista da rebelião em Canudos, o escritor (republicano convicto) é obrigado a reformular seu julgamento, forçado pelas contingências. Tal transformação no pensamento foi decisiva na confecção de Os Sertões.

O primeiro contato de Euclides com a paisagem do sertão, antes mesmo de chegar a Canudos, marcou o início dessa transformação. Na viagem de trem e a cavalo, pelo interior da Bahia, ele vai ficando tomado pela paisagem extremamente diferente e muito forte. Até então, Euclides desenvolvera um conhecimento científico empírico, apenas dos livros, mas, ao fazer reportagens para o Estado, passou a realmente conhecer a força do ambiente.

Suas dúvidas surgem ainda em Salvador, antes de viajar para o sertão. Ao presenciar o interrogatório de um rapaz que fora preso em Canudos, Euclides espantou-se com a resposta do garoto quando perguntado sobre qual era o objetivo daquela insurreição. A justificativa ("Salvar a alma") o deixa estatelado, a ponto de anotar em seu diário que pessoas assim não mentem, não tentam enganar, nem hesitam.

Já no front de batalha, Euclides é o único correspondente a apontar a coragem e a persistência dos jagunços. E, a partir de suas anotações e das matérias publicadas, ele escreveu Os Sertões, no qual mapeou problemas brasileiros que ainda hoje são estudados: sertão, seca, povoamento, religiosidade popular, insurreições, revoluções, até reforma agrária e sem-terra. E ainda utilizou uma linguagem que uniu arte e ciência.

Você sabia?

Euclides da Cunha escreveu as reportagens literalmente no joelho ou enquanto andava a cavalo. Mesmo assim, utiliza a língua portuguesa de forma impecável, com uma capacidade

admirável de descrição do ambiente e expressão de suas reflexões e sentimentos. O texto é bem escrito, direto, vivaz.

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