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Estados Unidos criam 224 mil empregos em junho

Fatia da população dos EUA que participa da força de trabalho subiu de 62,8% em maio para 62,9% em junho

Sergio Caldas, Thaís Barcelos e Victor Rezende, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2019 | 12h09

Os Estados Unidos criaram 224 mil empregos em junho, segundo dados com ajustes sazonais publicados nesta sexta-feira, 5, pelo Departamento do Trabalho. O resultado veio bem acima da mediana da previsão de analistas consultados pelo Projeções Broadcast, de geração de 160 mil vagas. 

Já a taxa de desemprego aumentou de 3,6% em maio para 3,7% em junho, contrariando previsão de manutenção da taxa.

Os números de criação de postos de trabalho dos dois meses anteriores foram revisados para baixo: em maio, de 75 mil para 72 mil e, em abril, de 224 mil para 216 mil.

O salário médio por hora dos trabalhadores subiu 0,22% em junho ante maio, ou US$ 0,06, para US$ 27,90 por hora. Na comparação anual, o aumento foi de 3,1%. As projeções eram de ganhos maiores, de 0,30% na comparação mensal e de 3,2% no confronto anual.

A fatia da população dos EUA que participa da força de trabalho subiu de 62,8% em maio para 62,9% em junho. 

Repercussão 

ING 

De acordo com o economista-chefe internacional do ING, James Knightley, o payroll, como é chamado o relatório de empregos divulgado, foi "encorajador" e sugere que a economia, em geral, está minimizando a incerteza das relações comerciais sino-americanas. Ele ressalta que mesmo o aumento da taxa de desemprego pode ser visto como um fator "encorajador" já que a participação da força de trabalho também aumentou. 

Mais à frente, Knightley espera que o crescimento do emprego perca fôlego nos EUA "devido à falta de trabalhadores com as habilidades certas para preencher vagas, em vez de qualquer queda significativa na demanda". De acordo com o economista do ING, é preciso lembrar que os EUA estão no período mais longo de expansão desde 1854´, com o desemprego próximo dos menores níveis em 50 anos. "No entanto, deve haver implicações de alta para os salários, uma vez que as empresas procuram recrutar e reter o pessoal especializado". 

Ao apontar esses fatores, o banco holandês espera que a resiliência do mercado de trabalho americano seja uma das razões para fazer com que o Federal Reserve (Fed) promova um afrouxamento mais modesto da política monetária do que o mercado tem esperado. Knightley, contudo, disse acreditar que o presidente do Fed, Jerome Powell, valide, já na próxima semana, as expectativas dos mercados de reduções nas taxas de juros durante audiência no Congresso. "Ele pode repetir, mais uma vez, sua opinião de que 'um grama de prevenção vale mais do que um quilo de cura'", apontou o economista.

O ING espera que o Fed corte os juros em 25 pontos-base em julho e promova uma nova redução de mesma magnitude em setembro. No entanto, os contratos futuros dos Fed funds, compilados pelo CME Group, indicam que boa parte dos investidores aposta em ao menos 75 pontos-base de cortes nos juros até o fim deste ano.

Mongeral Aegon Investimentos 

Com a criação de empregos nos Estados Unidos maior do que era previsto em junho, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) talvez não corte os juros no próximo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), nos dias 30 e 31 deste mês, mas o cenário não muda, de que deve haver flexibilização monetária este ano. Essa é a avaliação da economista-chefe da Mongeral Aegon Investimentos, Patricia Pereira.

Os EUA geraram 224 mil empregos em junho, quando a previsão era de 160 mil. A economista explica que havia uma expectativa no mercado de que, se a geração de emprego decepcionasse, haveria uma indicação mais forte de corte de juro no país neste mês.

Agora, pode ser que fique para a reunião posterior, diz, mas o resultado do salário médio mostra que a economia dos EUA está crescendo sem pressão inflacionária, o que indica que a sinalização de flexibilização monetária deve ser mantida.

"O FOMC já mudou bastante o cenário. Se o corte de juro não vier na reunião de julho, deve vir na posterior."

Como está mantido o cenário de redução dos juros, Patricia diz que o efeito para emergentes é o mesmo. Segundo ela, o corte da Selic pelo Banco Central não depende de um movimento na mesma direção pelo Fed em reunião que ocorre no mesmo dia.

No cenário básico de Patricia, há a expectativa de queda da Selic em julho, considerando a aprovação da reforma da Previdência pelo menos em primeiro turno na Câmara antes do recesso parlamentar e a projeção de inflação para 2020 abaixo do centro da meta.

O ciclo total de corte de juros, segundo ela, deve depender da magnitude da reforma aprovada, mas a economista acredita que o orçamento deve ficar entre 1 ponto porcentual e 1,5 ponto porcentual. 

Erste Bank

A fraca geração de postos de trabalho nos Estados Unidos em maio não passou de um fator transitório. Essa é a avaliação do economista-chefe do austríaco Erste Bank, Gudrun Egger, após o relatório de empregos (payroll) americano referente a junho, que mostrou criação de 224 mil vagas no último mês. "Os dados de hoje confirmam que a debilidade dos mercados de trabalho em maio deveu-se a fatores transitórios, e não foi uma indicação de uma desaceleração sustentada", disse.

Para Egger, o payroll reforça que uma redução nas taxas de juros no fim deste mês pelo Federal Reserve (Fed) tornou-se menos provável, o que tende a gerar uma reação negativa dos mercados acionários. "No entanto, a questão ainda não está fora de discussão, uma vez que dados recentes do setor industrial foram, mais uma vez, fracos", apontou o economista.

Segundo Egger, as expectativas dos mercados devem se voltar, agora, à participação do presidente do Fed, Jerome Powell, em sabatinas no Congresso na próxima semana. O Erste Bank continua a não esperar cortes de juros nos EUA em 2019. 

Royal Bank of Canada 

O relatório de empregos (payroll) dos Estados Unidos apresentou uma "boa recuperação" na criação de postos de trabalho em junho, mas deve "fazer pouco para mudar as exigências do mercado para que o Federal Reserve (Fed) reduza as taxas de juros no fim deste mês", afirmou o economista Josh Nye, do Royal Bank of Canada (RBC). Para ele, contudo, a geração de 224 mil vagas de emprego no mês passado nos EUA deve dissipar as apostas de corte de 50 pontos-base nos juros em julho.

De acordo com o RBC, os EUA geraram, até o mês passado, 172 mil postos de trabalho em média em 2019. "Isso está abaixo das 223 mil vagas criadas em média em 2018, mas ainda bem acima do ritmo histórico de crescimento de 100 mil postos", apontou Nye. Para ele, contudo, o crescimento salarial novamente se mostrou pouco impressionante ao subir abaixo das expectativas dos mercados tanto na base mensal quanto na comparação anual. "Apesar de permanecer acima da marca de 3%, isso é insuficiente para gerar pressão inflacionária significativa."

Em relação aos impactos das tensões comerciais no mercado de trabalho americano, o economista do RBC apontou que há "algumas evidências" no relatório. "A desaceleração mais significativa no payroll foi na fabricação. Transporte e armazenagem, que também têm bastante exposição ao comércio, não estão muito atrás", disse Nye. Assim, o economista acredita que "é a preocupação do Fed com o impacto da política comercial e, consequentemente, com a desaceleração do crescimento global, que torna o banco central mais propenso a aliviar a política monetária nos próximos meses". 

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