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Estados Unidos podem zerar importação de suco de laranja do Brasil em 10 anos

Motivos são a queda gradual da demanda e a estabilização dos pomares da fruta nos EUA até uma oferta capaz de suprir todo o consumo norte-americano, em 2024, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR)

Gustavo Porto, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2015 | 18h51

Os Estados Unidos - que já foram o principal mercado de suco de laranja e que fomentaram, há décadas, a criação da indústria processadora da fruta do Brasil - poderão reduzir praticamente a zero a importação da commodity brasileira em dez anos. Os motivos são a queda gradual da demanda americana e a estabilização dos pomares naquele país até uma oferta capaz de suprir todo o consumo norte-americano, em 2024, segundo projeções da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).

Os norte-americanos consumiam 1,03 milhão de toneladas de suco de laranja em 2004 e enfrentam anos de demanda decrescente até um volume de cerca de 700 mil toneladas no ano passado. A concorrência de outras bebidas, a mudança nos hábitos de consumo e ainda o fato de a laranja ser um alimento rico em açúcar e em calorias, causaram a queda no consumo.


Segundo as projeções da indústria brasileira, se a demanda recuar no mesmo nível anual da última década, entre 3% e 7% ao ano, em 2024 o mercado norte americano deve ser de apenas 433 mil toneladas de suco de laranja. Esse volume seria suprido pela oferta anual da fruta de 103 milhões de caixas (de 40,8 quilos cada) produzidas pelos pomares locais. "É exatamente a oferta que os pomares norte-americanos têm hoje e que deve seguir a mesma", disse o diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto. "O consumo norte-americano de suco brasileiro deve se resumir a um mercado marginal para o blend (mistura) do nosso suco ao deles".

Curiosamente, as exportações brasileiras de suco para os Estados Unidos ainda crescem. Entre julho de 2014 e março de 2015, na safra 2014/2015, o volume enviado àquele país atingiu 195.974 toneladas, alta de 21% ante as 161.502 toneladas exportadas em igual período da safra 2013/2014.

Essa alta só ocorre ainda porque os pomares norte-americanos apresentaram uma forte redução na oferta de laranja por conta do greening, principal praga da citricultura. A tendência, segundo a CitrusBR, é de estabilidade na produção norte-americana. Ou seja, a queda na demanda pelo suco local teria impacto direto na importação da bebida do Brasil.

Uma saída, segundo a CitrusBR seria destinar ao mercado interno brasileiro as 196 mil toneladas de suco que poderão deixar de ser enviadas anualmente aos Estados Unidos. E uma das formas para fomentar o consumo aqui seria reduzir a taxação do suco. "Enquanto o suco paga zero de imposto nos Estados Unidos, em São Paulo, por exemplo, a taxação ao longo da cadeia chega a 27,5%. É preciso urgente levar a sério a ideia de desenvolver o mercado interno para o suco de laranja", disse Netto.

As indústrias de suco estimam que o incentivo ao mercado interno poderia levar a demanda entre consumo local e exportações brasileiras da bebida de pouco mais de 1 milhão de toneladas anualmente para mais de 1,2 milhão de toneladas, volume que já chegou a ser exportado no começo da década.

Além do Brasil - cuja participação na demanda da indústria que hoje é praticamente exportadora poderia saltar de 5% para 15% - a expectativa é de um aumento nas vendas para a Ásia. Os embarques de suco para os asiáticos respondem por 10% das exportações brasileiras em um mercado que tem forte crescimento anual, mas ainda com pequeno volume.

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