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EUA devem entrar em recessão até o fim do ano e desemprego vai subir, diz ex-diretor do Fed

Para Vincent Reinhart, economista-chefe da gestora Dreyfus and Mellon, o desemprego nos Estados Unidos pode atingir o patamar de 6% no ano que vem

Entrevista com

Vincent Reinhart, economista-chefe da Dreyfus and Mellon e ex-diretor do Fed

Ricardo Leopoldo, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 10h00

A necessidade de o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) combater a inflação muito elevada com um ciclo bem forte de altas de juros deverá levar os EUA a uma leve recessão a partir do quarto trimestre deste ano e que deve se estender até meados de 2023, comenta em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast Vincent Reinhart, economista-chefe da Dreyfus and Mellon. Com este declínio do nível de atividade, ele estima que o Produto Interno Bruto do país deverá crescer cerca de 1,75% em 2022, mas ficará estável em 2023. Reinhart acredita que o desemprego subirá neste período e não ficaria surpreso se atingisse o nível de 6%.

O economista, que trabalhou por 24 anos no Fed, onde foi diretor da Divisão de Assuntos Monetários, critica a decisão do BC americano de ter subido as taxas de juros em 0,75 ponto porcentual na quarta, 15, o que não ocorria desde 1994. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual foi a avaliação do senhor sobre a decisão do Federal Reserve de subir os juros em 0,75 ponto porcentual, sem ter sinalizado ao mercado que o faria antes de ingressar no período de silêncio da reunião de junho?

O aumento de 0,75 ponto por juros foi provavelmente um erro dentro do Comitê do Federal Reserve, não um erro para as condições macroeconômicas. O Fed está bem atrás da curva, começou a subir os juros muito tarde e deveria ter sido mais agressivo no início deste processo. Mas como a inflação está muito alta, o que já elevou as expectativas para os índices de preços, o Federal Reserve precisou agir com força e elevou a taxa mais do que o Banco Central do Brasil no mesmo dia. Porém, o poder da política monetária é feito pelos membros do Comitê do Fed, pois trabalham duro para estabelecer um ritmo gradual na retirada da política acomodatícia e se comprometeram a subir os juros em 0,50 ponto porcentual por duas reuniões. Contudo, na segunda (13), dois dias antes do término do encontro de junho, foi expressado (off the record) a um único veículo de imprensa: "Deixe para lá, vamos aumentar 0,75 ponto porcentual". Isto é problemático. É uma postura errada perante o Comitê. Eu aposto que presidentes regionais do Fed foram pegos de surpresa, pois iniciaram a reunião pensando que os juros subiriam 0,50 ponto porcentual, mas souberam no encontro que aumentaria 0,75 ponto porcentual. Isto é desrespeitoso para os membros do Comitê. Além disso, o Federal Reserve explicitamente defendeu nas estimativas divulgadas no gráfico de pontos e com a adoção do período de silêncio de não utilizar formas secundárias de comunicação. No entanto, o que ocorreu foi a divulgação do que viria para um único repórter (do Wall Street Journal). Tudo isto aos poucos corrói a credibilidade do presidente do Federal Reserve para futuros compromissos.

Na sua avaliação, ocorreu na quarta, 15, uma decisão de última hora do Federal Reserve, que foi basicamente determinada por Jerome Powell. O que levou Powell a assumir esta posição? Ele teria entrado em pânico por estar muito atrás da curva na condução da política monetária?

Sim. Powell decidiu subir 0,75 ponto porcentual depois de ter comunicado que aumentaria 0,50 ponto porcentual. Antes de partir para os 0,75 ponto porcentual poderia ter adotado uma outra postura, ao subir os juros em 0,50 ponto porcentual com o apoio de todos no Comitê e atingir o mesmo resultado perante os mercados. Poderia ter divulgado um comunicado no qual destacaria que uma alta maior de 0,50 ponto porcentual seria necessária na reunião seguinte. Deveria ter começado a entrevista coletiva ontem dizendo que os dirigentes do Fed prometeram subir os juros em 0,50 ponto porcentual em duas reuniões, o que foi feito, mas que teria de aumentar mais no próximo encontro, o que teria gerado o mesmo impacto nos preços dos ativos financeiros.

Como ficará a eficácia do forward guidance do Fed a partir de agora?

Ficará bem mais difícil. Ele (Powell) tornou muito mais complexo para os membros do Comitê do Fed concordar com uma decisão de política monetária e também provocará maior volatilidade nos mercados com as expectativas relativas à sua condução. Se muitas pessoas já não confiavam nas decisões do Fed antes da reunião encerrada na quarta-feira, agora têm mais razões para esta avaliação.

Com esta política monetária do Fed, tornou-se inevitável os EUA ingressarem em uma recessão neste ano?

Sim. A recessão vai ocorrer porque a inflação é um grande problema que torna extremamente complexo o trabalho da política monetária. Será preciso apertar as condições financeiras no país ao ponto de reduzir a expansão da demanda e criar uma folga na economia. Os dirigentes do Fed terão de aceitar que esta folga não será criada pela melhora da situação das cadeias internacionais de produção. Eles ainda tem um pouco de ilusão de que não precisarão admitir que será preciso gerar uma recessão e contam que a taxa de desemprego subirá apenas 0,5 ponto porcentual. O ciclo econômico não é linear. Será extremamente difícil para o Fed administrar sua política sem uma recessão. E se a comunicação é má conduzida, fica ainda mais árduo.

O fato de que Powell hesitou ontem ao dizer que a recessão pode ser evitada não mostra que ele mesmo já admite que ela deverá ocorrer?

Ele não admitirá em público que os EUA entrarão em recessão porque não quer dizer algo que possa se autorrealizar. Acredito que a progressão da política monetária neste ano o levará a assumir que ela ocorrerá, o que já foi admitido entre os próprios dirigentes do Fed. Só não disseram ao público americano, o que é um cálculo político. Por outro lado, há uma pressão incrível provocada pela inflação. Mas se você não é crível ao descrever o quadro da economia à sociedade, como as pessoas acreditarão nas suas decisões? Isto ocorre quando o presidente do Fed fala tanto. Paul Volcker apenas dava baforadas em seu charuto e adotava em silêncio decisões duras para combater a inflação.

Qual deverá ser a trajetória dos juros nos EUA até o final do ano e em 2023?

O banco central deverá elevar os Fed Funds em 0,75 ponto porcentual por duas vezes. Deve aumentá-los mais 2 pontos porcentuais até o final do ano, o que pode levar a taxa para perto de 3,5%, o que acreditam estar próxima da taxa neutra. Mas ainda precisarão subir mais, pois os juros nominais naquele nível ainda estarão negativos em termos reais. Depois deste ciclo de altas, com o aumento do desemprego e menor inflação, alguns dirigentes do Fed começarão a defender que poderia ser o caso de diminuir o ritmo das elevações ou até mesmo parar de subi-los. Em 2023, os juros poderão aumentar mais 0,50 ponto porcentual. O Federal Reserve enfrentará um grande desafio sobre a condução da política monetária neste final de ano e em 2023, que serão um teste para ele. Acredito que seus dirigentes deverão enfrentar duas escolhas: ou continuarão firmes na completa desinflação da economia ou pressões vindas da recessão, como a alta do desemprego, os levarão a declarar vitória antecipada e parar com os juros. Eu penso que ficarão com a segunda alternativa. Quando eles virem que a inflação voltou para 3% em suas projeções, dirão que já é o suficiente. Acredito que levar a inflação para 2% teria um custo alto demais politicamente.

Quão forte será a recessão que os EUA enfrentarão no curto prazo? Como será o crescimento do país neste ano e em 2023?

Eu acredito que ela será leve, deverá começar no último trimestre deste ano e continuar no primeiro semestre de 2023. Ela não será grave, inclusive porque o setor privado não enfrenta tantos desequilíbrios e poderá navegar bem durante tal período. Neste contexto, o PIB dos EUA deverá crescer ao redor de 1,75% em 2022 e ficará estável no próximo ano, pois será impactado pela recessão.

Mesmo com a forte alta dos juros neste ano, o Fed estima que a taxa de desemprego subirá pouco no médio prazo, dos atuais 3,6% para 4,1% em 2024. O senhor acredita nesta projeção?

Haverá um trade-off entre a busca da estabilidade de preços e a taxa de desemprego, que deverá subir e não seria uma surpresa se ela atingir o patamar de 6%.

O índice de preços ao consumidor alcançou 8,6% em maio. Quanto este indicador atingirá em dezembro e para onde baixará no final de 2023?

Acredito que o CPI deverá chegar a 5,75% no encerramento deste ano e cairá para 4,5% no final de 2023. 

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