Gabriela Biló/Estadão
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coluna

Louise Barsi explica como viver de dividendos seguindo o Jeito Barsi de investir

'Demanda ainda não se recuperou, e isso trava o crescimento'

Para ex-diretor do BC, mercado interno ainda fraco, especialmente por causa dos investimentos deprimidos, é principal causa da estagnação da economia desde a saída da recessão

Entrevista com

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 14h30

RIO - O consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC) e ex-economista-chefe do banco Santander, vê falta de demanda, especialmente por causa dos investimentos deprimidos, como principal causa da estagnação da economia desde a saída da recessão, mesmo após o crescimento de 0,4% do PIB no segundo trimestre. Para ele, os estímulos à demanda devem vir apenas da redução da taxa básica de juros (Selic, hoje em 6% ao ano) pelo Banco Central (BC), pois não há espaço para estímulos fiscais, nem mesmo com foco em investimentos públicos.

O que explica esse crescimento lento da economia brasileira: falta de demanda ou restrição de oferta?

Não me parece ser um problema ligado à questão da oferta. Embora no fim de 2013 e em 2014 fosse muito claro que o crescimento baixo era muito resultado de restrições de oferta, essas restrições não estão presentes hoje. A taxa de desemprego ainda está muito elevada e o nível de utilização da capacidade no setor manufatureiro ainda é muito baixo. A estagnação é porque a demanda interna não se recuperou. E a questão da demanda interna está fundamentalmente ligada ao investimento. Não é que o consumo esteja extraordinário, não está e poderia estar mais forte, mas, bem ou mal, está se recuperando. O problema está muito ligado no investimento.

Qual o principal motivo para os investimentos estarem deprimidos?

É um conjunto de fatores. O principal deles é uma dificuldade de olhar o horizonte além de dois ou três anos. Era muito claro que a gente tinha um problema fiscal, que se aguçou em 2014, com ressurgimento de déficits primários muito grandes e um orçamento extraordinariamente rígido. Ficou claro que, para endereçar esses problemas, seria preciso um conjunto de reformas, o qual a gente ameaçou fazer em 2017, foi torpedeado no meio do caminho, e retomamos agora o fio da meada, no segundo trimestre de 2019. A dificuldade que existia no governo Dilma, no governo Temer, e só agora superada, mais por iniciativa do Congresso do que do governo Bolsonaro, é o que está segurando o investimento.

A incerteza em relação à agenda de reformas é o principal peso?

A incerteza quanto à possibilidade de aprovar as reformas. O diagnóstico está claro. O problema fiscal requer reformas profundas e durante um bom tempo não tivemos governos que fossem capazes de levar adianta essa agenda de reformas.

Há outros fatores a segurar os investimentos?

O fato de existir capacidade ociosa sobrando também não ajuda. Nenhuma empresa tem uma pressão enorme para ampliar capacidade. Além disso, a incapacidade que o mundo político teve até agora, ou seja, levou cinco anos, para se mobilizar e conseguir entregar as reformas que o País precisa.

Tem algo a fazer além de seguir com a agenda de reformas?

Tem o óbvio, que é o Banco Central baixar juros. Existe um espaço, exatamente porque o País vem crescendo pouco. Temos uma situação em que o desemprego alto e o excesso de capacidade ainda provocam pressões para baixo na taxa de inflação. Estamos nos encaminhando para uma inflação na casa de 3,6% neste ano, e com pressão de preços administrados e o dólar encarecendo. Tem espaço para o BC reduzir adicionalmente a taxa de juros. O consenso hoje é que o BC pode trazer a Selic para 5%. Se isso não reativar a economia, pode baixar a Selic para 4,0%, para 3,0%, para 2,0%. Hoje, tem 6 pontos porcentuais da Selic para cortar.

O BC errou ao demorar a cortar mais os juros?

O cenário para o BC foi mais complicado. Em meados do ano passado, mais ou menos quando o BC parou de cortar juros, logo de cara ele levou um choque de 1% de inflação na testa (em junho de 2018, por causa da greve dos caminhoneiros). A minha visão à época era de que ia ser transitório, mas o BC não pode contar com uma visão. Nesse meio tempo, o dólar também foi para acima de R$ 4. Que ele tenha demorado um pouco mais, ele corta mais (agora) também.

Há espaço para outros estímulos à demanda?

Se tem a possibilidade para trazer a taxa de juros para baixo, por que não? Qualquer coisa que se conseguir a mais do ponto de vista de demanda por política fiscal (mais gastos públicos) ou parafiscal (expansão de crédito dos bancos públicos) é um pouco menos de espaço para cortar juros. A vida inteira a gente reclamou de juros altos, por que vai perder a oportunidade de cortar mais o juro agora? Parece um contrassenso. Se não tiver nenhum estímulo fiscal, talvez o BC consiga trazer a taxa de juros para baixo de 5,0% e, inclusive, mantê-la mais baixa por mais tempo.

A ação na demanda via redução de juros muda a necessidade de continuar com as reformas para retirar restrições de oferta?

Hoje, não é uma restrição, mas a gente espera que em algum momento seja, que a economia volte a crescer, que a taxa de desemprego volte a cair. O ideal é que consiga, com as reformas, melhorar o PIB potencial (capacidade de a economia crescer sem gerar desequilíbrios). Se formos começar a nos preocupar com medidas que elevem o PIB potencial quando se está mais próximo do potencial, é um problema. É sempre bom consertar o telhado quando está fazendo sol. Não está com muita cara de sol, mas, enfim, consertar o telhado quando não há problemas no telhado. Se for deixar para corrigir lá na frente, corremos o risco de bater muito cedo numa restrição de oferta.

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