'Estagnação secular'

O espectro de uma estagnação de longa duração, numa moldura de deflação, ronda a economia global. O crescimento de boa parte das economias, de fato, ainda não voltou aos níveis pré-crise, mesmo com taxas de juros próximas de zero. Na semana passada, com uma derrubada generalizada nos mercados de ativos ao redor do mundo, novos sinais negativos em relação à trajetória de recuperação econômica global, seis anos depois da eclosão da grande crise de 2008, voltaram à cena, juntamente com temores de que bolhas financeiras estejam, novamente, em formação.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2014 | 02h02

Um ano depois de o ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers ter relançado o tema da "estagnação secular" - expressão que designa longos períodos de baixo crescimento, em geral com juros baixos e deflação -, o assunto dominou a reunião do FMI/Banco Mundial, na segunda semana de outubro, em Washington. Além de mais uma vez reduzir as projeções de expansão para a economia mundial, em 2014 e 2015, o "Panorama Econômico Mundial", edição de outubro de 2014, tomou o risco da persistência de uma longa fase de baixo crescimento, potencializada por uma inflação também muito baixa, como pano de fundo do atual ambiente econômico mundial, dedicando a maior parte da publicação à discussão de políticas capazes de evitar que tal situação se cristalize.

Embora essa possibilidade, pelo menos em teoria, seja alta o suficiente para causar crescente preocupação, não há consenso sobre sua inevitabilidade. Em contraste com a persistente dificuldade europeia de deixar a zona de recessão - agora reforçada pela perda de fôlego da economia alemã -, combinada com a titubeante trajetória japonesa, a perda de ritmo na China e a fraqueza de emergentes, os Estados Unidos apresentam, ainda que em vaivéns, indicações mais espalhadas de recuperação. A questão é saber se a economia americana, no papel tradicional de locomotiva mundial, será capaz de tirar o resto do mundo da tendência de novo mergulho recessivo ou se será tragada pelas dificuldades das demais economias.

As opiniões estão divididas entre analistas que dão ênfase à perda de influência relativa da economia americana no contexto global e os que encontram semelhança no momento atual com as crises de emergentes nos anos 90, superadas com uma fase de crescimento e liquidez, na década seguinte, sob a liderança dos EUA. Entre uns e outros há ainda aqueles que veem dificuldades de tração na economia americana, a partir da ideia de que uma curva consistente de valorização do dólar, no estágio atual da recuperação americana, tornará essa retomada mais incerta.

Se não há uma resposta comum ao risco de um período mais longo de baixo crescimento, existe consenso em torno da inadequação do arsenal conhecido de políticas para superar crises de crescimento, caso a "estagnação secular" se confirme. É mesmo um desafio e tanto encontrar caminhos de estímulo à expansão da economia e do emprego, em ambiente de taxas de juros próximas de zero e nível de endividamento - de governos e pessoas - ainda altos, diante de tendências econômicas deflacionistas. Não se trata de, mecanicamente, inverter o sentido de direção de políticas de combate à inflação.

As políticas de juros são desenhadas para estimular ou constranger a demanda, em quadros "normais" de inflação alta ou baixa. Mas, como instrumento de ativação econômica e atração de poupanças, em estados de recessão e deflação, a política de juros perde muito de sua potência a partir do momento em que, acomodada em limites inferiores, não produziu a recuperação esperada.

Para o Brasil, a perspectiva de um período mais longo de crescimento mundial baixo tem efeitos nada confortáveis. Tenderia a reduzir pressões inflacionárias pelo canal dos importados, mas imporia barreiras adicionais às exportações de manufaturados e às receitas da venda de commodities, afetando ainda mais vetores de crescimento da economia.

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